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domingo, 24 outubro, 2021

  Triângulo de Paixões

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Genialidade que viaja no tempo, transcendendo limites e conectando gerações

Por Sidemberg Rodrigues

O que poderia unir três talentos de tão diferentes épocas: o compositor alemão Ludwig van Beethoven (1770-1827), o escritor russo Liev Tolstói (1828-1910) e a violinista alemã Anne-Sophie Mutter, no auge da fama? O segredo pode estar na Kreutzer, nona sonata para piano e violino, composta por Beethoven, em uma fornada de dez sonatas. Para entender as ligações, deve-se começar pela história dessas peças. Segundo estudiosos, foi na fase de progressiva e irreversível surdez que Beethoven as compôs. Especialmente na nona e, particularmente, antes da composição de seu 3º e mais complexo movimento – o presto – Beethoven tornou-se predominantemente surdo.

Na concepção dessa peça o gênio expressou a batalha emocional que vivia, tendo de ouvir o inaudível e desconhecer limites técnicos de velocidade, rigor e intensidade ao explorar além dos limites o ágil diálogo entre o piano e o violino. Daí a densidade, a beleza e a lenda em torno dessa partitura, que, ao ser executada, acredita-se criar uma psicosfera que desperta emoções imprevisíveis no ouvinte, ao ponto de transformá-lo… irreversivelmente. A Kreutzer parece expressar a fúria de quem resiste a uma deficiência que acomete, justamente, o sentido imprescindível ao seu talento: a audição.

Talvez aí resida o espírito dessa música: desejo de superação e explosividade em meio a um árduo processo de adaptação, levando a criatividade às últimas consequências da estética e da profundidade. Onde Tolstói entra nessa história? Além de admirador de Beethoven ele toma o suposto poder de influência dessa sonata como argumento para o melancólico personagem de seu romance “A Sonata Kreutzer” ir às últimas consequências quanto ao ciúme que sentia da relação entre esposa pianista e seu parceiro violinista, que ensaiavam a Kreutzer. Com perspectiva cristã e machista, Tolstói tece um tratado sobre o esgarçamento das relações conjugais no tempo e as consequências disso.

A trama foca no ciúme em si e não poupa letras para desqualificar a mulher, dialogando com a misoginia de nosso tempo. Em paralelo, observa-se um mergulho do autor no inferno subjetivo que pode se tornar a ‘racional’ alma masculina – com toda a sua animalidade, dúvidas e demais demônios – diante de aparentes ameaças que farejam sua virilidade. Em um tempo em que homens agridem e matam passionalmente; e as mulheres ainda precisam de muito esforço para conquistar seu espaço, o romance mostra-se bem atual.

Mas elas nunca estiveram tão empenhadas em mudar isso. E Anne-Sophie Mutter, militante exemplar da espécie, é a partícipe feminina do triângulo ‘apaixonado’ com os dois gênios: sua fascinação por Beethoven é explicita em suas entrevistas e na interpretação das sonatas por anos a fio, como se a alma do músico a tivesse encantado. E a obra de Tolstói figura entre os livros prediletos da musa, prova de que sua atração também se estende ao russo. Diante de tanta paixão, que tal ouvir a Kreutzer para conferir seus encantos e real poder de transformação?

Sidemberg Rodrigues é Professor de Sustentabilidade em cursos MBA, escritor e cineasta

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