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quinta-feira, 13 agosto, 2020

Top 5 da sobrevivência

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Após fechamento dos estabelecimentos, por conta da Covid-19, empresários se reinventam para superar a crise econômica causada pela doença

Por Luciene Araújo

Disruptura. Definitivamente essa é palavra de ordem no universo da gestão. Após três meses convivendo com as bruscas mudanças nos processos de trabalho provocadas pela pandemia, proprietários dos setores da indústria e do comércio ainda não são capazes de mensurar o tamanho do estrago final que o novo coronavírus vai deixar. Mas todos já entenderam que a sobrevivência dos negócios passa necessariamente por uma quebra enorme de paradigmas.

“Hoje, qualquer prospecção que se faça em termos de economia quanto ao nível de impacto de tudo isso que estamos passando será mera especulação. Mas uma coisa é fato: o empresário não pode ter, em hipótese alguma, resistência à disruptura, ao novo. Haverá uma nova ordem social, econômica e administrativa pós-pandemia”, aponta Sebastião Demuner, consultor de empresas, professor universitário e membro do Conselho Regional de Economia.

Esta não é uma crise cuja retomada é imediata. Mesmo nos países da Ásia e da Oceania, que se mostram mais exitosos no enfrentamento à pandemia, as atividades econômicas têm se dado de forma muito gradual, explica o economista-chefe da Federação das Indústrias (Findes) e diretor executivo do Instituto de Desenvolvimento Educacional e Industrial do Espírito Santo (Ideies), Marcelo Saintive.

Ele garante que o mercado local já captou essa noção. “As pesquisas de opinião do empresariado capixaba refletem muito o que nós, economistas, enxergamos: 50% responderam que vão demorar ao menos seis meses para retornar ao nível de produtividade anterior à pandemia. E, se considerarmos quem defende que poderá pensar em recuperação somente a partir de 90 dias, esse percentual chega a 80%.”

Santieve destaca ainda que existem três níveis de incerteza com os quais está sendo necessário lidar: o sanitário, o econômico e o das ações futuras, ainda no médio prazo. “Preocupam a crise sanitária diante da clara descoordenação sobre como atacar a pandemia e a falta de equilíbrio entre preservar o sistema de saúde e a atividade econômica.

Pense em carreiras que se conectem com essa nova realidade, alicerçadas em conhecimento tecnológico, capacidade analítica, inteligência interpessoal e boa e sistemática comunicação em vários níveis e plataformas: escrever, mandar um áudio ou preparar um vídeo” – Rodrigo Prando, sociólogo da Mackenzie

Algumas alavancas, como as obras públicas, poderiam ser retomadas com o protocolo de segurança; temos a insegurança do acesso ao crédito, que precisa ser mais bem avaliado e estruturado pelo sistema financeiro, pois, com os mesmos critérios de seleção pré-crise, as empresas que apresentam mais problemas não terão como obter esse recurso. É preciso flexibilizar um pouco mais a regulação.

E o terceiro ponto é o que estruturar no médio prazo, como parcerias público-privadas (PPPs) para saneamento, rodovias que precisam de investimentos mais imediatos, capacidade de trabalho para uma nova realidade, além das reformas estruturantes que devem ser concretizadas em nível federal”, enumera.

Especialista em gestão, Etienne Totola, da Agha RH, complementa que a previsão de perda de mercado e emprego e de falências é enorme. “Então, é preciso entender o que está acontecendo e fazer escolhas sobre os próximos passos. É hora de pegar todo o conhecimento acumulado, utilizar a criatividade e continuar a caminhada de onde ficou paralisado”, explica.

E como tudo ainda é muito incerto, a melhor opção é arregaçar as mangas e montar a estrutura mais forte possível. Por isso, buscamos especialistas nas áreas de gestão e economia para apontar os melhores caminhos. E todos garantiram que as empresas devem estar muito antenadas ao que chamamos de “Top 5 da sobrevivência”, os cinco passos essenciais para alavancar os negócios após a Covid-19.

São eles: acessar as linhas de crédito possíveis; reavaliar, em menores prazos, impactos, cenários e possibilidades; diversificar produtos e parcerias; estruturar novos regimes de trabalho; e mergulhar no universo digital, resume o superintendente do Sebrae no Espírito Santo, Pedro Rigo.

As situações do comércio e da indústria são bastante semelhantes. Muitas têm sido as dificuldades dos empresários no setor primário também, especialmente dos menores, observa Ricardo Pinto, presidente do Compem (Conselho Temático da Micro e Pequena Empresa) da Findes. “Se a pandemia terminasse até junho, as importantes medidas tomadas teriam resolvido boa parte do problema.

Mas, como esse final não pode ser pensado em menos de seis meses, elas já se tornaram insuficientes. Todos nós vamos precisar de novas medidas, tanto por parte do governo quanto dos setores produtivos”, avalia Rigo.

Abrace o novo

O período pós-pandemia não será fácil para nenhum país, grupo social ou indivíduo. Crise econômica, desemprego, queda da renda, miséria e pobreza serão temas cotidianos. E isso exigirá um esforço coletivo para equacionar e construir um plano de ação. Assim, governo, empresários, organizações do terceiro setor e toda a sociedade deverão, cada um, de acordo com suas funções e repertório, ajudar nessa nova realidade já se delineando, aponta o sociólogo e professor universitário da Mackenzie Rodrigo Prando.

“Todos serão atingidos sociologicamente em distintos graus e haverá condições melhores ou piores para enfrentar a situação.
Os problemas estruturais do Brasil se agudizam nessa conjuntura e o ‘novo normal’ exigirá uma inteligência capaz de fazer a leitura do cenário para, no limite, entender o que já não funciona mais e o que virá para substituir o velho”, explica Prando.

Ele defende que o debate sobre desenvolvimento sustentável retomará com força a noção de um desenvolvimento que prime pela geração de lucro, mas que inclua, no mesmo patamar, as questões ambientais e sociais. Isso envolve, especialmente, pensar em usar os recursos disponíveis hoje, sem esgotá-los para as futuras gerações.

“Uma das primeiras coisas a se repensar é o padrão de consumo. Quais são nossas prioridades? Comprar carros novos, fazer viagens, comer bem, vestir-se com o mais caro? Tudo isso, de um jeito ou de outro, será ressignificado e, obviamente, fará com que os setores da economia se adaptem para não desaparecerem”, garante o sociólogo.

Mudanças vão se estruturar em todos os níveis. “Haverá necessidade de se conjugar o trabalho dentro e fora de casa, bem como um tempo livre dedicado àquilo que Domenico De Masi chama de ‘ócio criativo’. Pensar em carreiras que se conectem com essa nova realidade e que, independentemente da escolha, sejam alicerçadas sobre conhecimento de tecnologia, capacidade analítica, inteligência interpessoal e boa e sistemática comunicação em vários níveis e plataformas: escrever, mandar um áudio ou preparar um vídeo”, sintetiza Prando.

Avalie tudo

A fim de ajudar nesse cenário, o Sebrae disponibilizou consultoria gratuita ao micro e pequeno empresariado. “Em busca de ações mais assertivas, o Sebrae fez um levantamento de mercado, envolvendo desde as melhores formas de acesso ao crédito, que tem sido uma dificuldade grande às empresas, até as tendências de um novo mercado, uma nova economia que desponta”, detalha Pedro Rigo.

Ele lembra que todo o setor produtivo vinha de um ano de 2019 ruim, mas com grande expectativa de respirar novos ares, em que todos esperavam uma retomada ainda que tímida da economia, porém em um cenário em que as empresas já arrastavam um índice de inadimplência muito elevado.

“Todos nós vamos precisar se novas medidas, tanto por parte do governo quanto dos setores produtivos” – Pedro Rigo, superintendente do Sebrae

Mas Rigo aponta que acessar as linhas de crédito disponíveis é essencial. “Por mais que a burocracia e a postura dos bancos tenham dificultado muito o acesso ao crédito, aqueles que puderem precisam recorrer a esse dinheiro e tomar um crédito para dar fôlego ao negócio.” Por fim, Rigo chama atenção para o universo digital. “Investir em vendas on-line, delivery.

Não resista, entre de vez nesse mercado digital, porque ele não é mais tendência. É uma afirmação atual”, garante. E a consultora em gestão Etienne Totola acrescenta: “Faça uma boa análise do negócio, verifique o que perdeu, tudo aquilo que terá de recuperar ou implantar em sua empresa.

Verifique também o cenário: forças, fraquezas, ameaças e oportunidades (análise swot). Olhe para dentro de seu negócio, particularidades que são diferenciais; e para fora (concorrência, mercado, opções). E faça uma lista com clientes, parceiros e fornecedores anteriores à crise e com os novos que podem ser conquistados.”

Digitalize-se

Se há algo que aumentou muito neste período de isolamento certamente foi o comércio eletrônico. O e-commerce brasileiro registrou crescimento de 47% em pedidos no mês de abril e de 18% no valor do tíquete médio, que chegou a R$ 492,43, contra R$ 417,82 no início de março, aponta a Associação de Comércio Eletrônico (ABComm).

Assim, quem já tinha essa rede estruturada saiu na frente na disputa comercial por clientes e ainda teve a vantagem de um montante menor de gastos inesperados. Fato é que, hoje, empreendedores e empresários dos mais diversos setores e tamanhos de negócios já entenderam que investir nessa ferramenta é a melhor opção para se destacar e, por isso, têm apostado no e-commerce e em outras ações estratégicas digitais.

Lojas – mesmo com a reabertura parcial, setor prevê um período de dificuldades

Logo, é fundamental focar a tecnologia, verificar quais ferramentas exigem muito investimento e quais são possíveis de serem utilizadas realizando ajustes, a fim de permitir novas formas de trabalho à empresa, tanto com seus colaboradores, quanto de atendimento ao cliente. “Não existe a menor possibilidade de não se estruturar no universo digital”, enfatiza o presidente do Conselho Temático da Micro e Pequena Empresa (Compem), da Findes, o empresário Ricardo Pinto.

Home office

Diferentemente do que, via de regra, espera-se no universo da gestão, especialmente de pessoas, os profissionais nem sequer tiveram tempo hábil para analisar alternativas de forma adequada e, menos ainda, para apresentá-las a seus colaboradores.

As empresas precisaram mexer em seus quadros de pessoal e, além de efetuar demissões, colocar a maioria dos colaboradores atuando no sistema home office. Cada vez mais, a percepção sobre o trabalho a distância será mais positiva, tanto por parte dos empresários quanto dos colaboradores, garante Etienne Totola.

Otimismo e resiliência

Apesar da preocupação generalizada com os rumos da economia global, executivos e consumidores latino-americanos estão mais confiantes sobre o cenário pós-coronavírus do que líderes em outras regiões. Isso é o que aponta um estudo da Economist Intelligence Unit (EIU), que consultou mais de 2.700 executivos de 118 países, entre 26 de março e 6 de abril.

Segundo a pesquisa “Barômetro Global de Negócios”, em uma escala de sentimento que vai de -50 (muito pior) a +50 (muito melhor), líderes latinos colocaram suas expectativas para a economia global nos próximos três meses no patamar de -37,4 pontos, contra a média mundial de -39,2.
Mas a preocupação dos tomadores de decisão na América Latina quanto ao futuro de suas próprias indústrias é notável.

A pesquisa aponta que organizações latino-americanas classificaram a confiança em seus setores de atuação em um patamar de -23,5 pontos, enquanto a média global é de -22 pontos. A América do Norte registra -19,5 pontos e as regiões da Europa e da Ásia, -23 e -23,3 pontos, respectivamente.

Embora as incertezas sobre o futuro não sejam poucas, há praticamente que um pensamento unânime entre especialistas em gestão, profissionais da área de saúde e líderes religiosos: além da reorganização do negócio, acreditar em dias melhores é essencial diante de momentos de crise. “Em momento nenhum vou dizer que é fácil, mas afirmo que é possível.

É preciso acreditar que as coisas mudam e toda mudança pode trazer novos ares, mesmo após uma pandemia”, enfatiza Etienne Totola
O economista Sebastião Demuner reitera, que quanto mais rápida e melhor a reação do empresário, melhor será para os negócios. “Vai depender muito da atitude de cada um em como enfrentar esse problema. Já estamos vendo problemas como fobias e síndrome de pânico. A única coisa que não pode acontecer é o empregador não ter atitude proativa. Ele precisa sair na frente.”

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