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domingo, 24 outubro, 2021

O que a tecnologia de hoje fará para os empregos do futuro?

Como dois lados de uma mesma moeda, o avanço tecnológico se mostra ao mesmo tempo benéfico e prejudicial para a sociedade. Será que estamos preparados para novas mudanças?

Por Yasmin Vilhena

O crescimento tecnológico das nações traz consigo inúmeros benefícios para a população mundial, que passa a contar com mais mecanismos para facilitar o seu dia a dia. Tão antiga quanto a história da humanidade, a tecnologia dá vida a objetos que, desde os tempos mais remotos, modificam a vida do homem.

Da criação da roda – que levou a outros meios de locomoção – até a invenção das máquinas, o desenvolvimento tecnológico tem demonstrado cada vez mais que veio para ficar e transformar.

Verdadeiro divisor de águas na organização social e econômica, a Revolução Industrial, ocorrida no final do século XVIII e início do século XIX, até pouco tempo atrás era considerada um dos pontos altos da história da humanidade. O progresso alcançado com o aumento da produtividade na Europa e nos Estados Unidos transformou sociedades de maneira significativa. Mas, a que preço?

Entre outros, à custa de muitos empregos que deixaram de existir. Não tão distante e diferente desse passado, hoje vivemos a Revolução Digital, que mantém com aquela algumas semelhanças, mas também desigualdades. O tema traz à tona muitos questionamentos, que repercutem de forma significativa entre especialistas de diversas áreas: será que os empregos do futuro estarão ameaçados com o grande crescimento tecnológico ou estaremos apenas dando continuidade ao progresso material e social? A história se repete?

Por mais que essa realidade esteja muito mais presente no Velho Mundo do que na América Latina – em especial o Brasil –, faz-se necessário estar atento às possíveis mudanças ocasionadas com o avanço tecnológico em terras estrangeiras, para que estejamos preparados para lidar com elas quando vierem a ocorrer no país.

As revoluções e suas semelhanças

A Revolução Digital, que também é conhecida como Revolução da Informação, apresenta muitas semelhanças com a Industrial, cujas fábricas têxteis turbinaram a economia e os bolsos dos primeiros capitalistas.

Tomando grandes proporções no início do século XIX e quebrando totalmente os paradigmas do Feudalismo – no qual as pessoas viviam no campo, trabalhando apenas para ter o que comer –, esse movimento levou todos a um novo ciclo de pensamentos, ideologias e ritmos de vida, de forma muito semelhante à que a humanidade tem vivenciado a partir da Revolução da Informação.

“A tecnologia vai facilitar muito o mercado de trabalho, pois permitirá que as empresas sejam mais eficientes” – Gilberto Sudré, consultor na área de Segurança da Informação e Perícia Computacional Forense

“A Revolução Industrial foi magnífica, porque permitiu o acesso das pessoas a bens materiais até então inimagináveis. O esforço artesanal utilizado para fazer um produto melhorou muito com as máquinas. Se olharmos para a Revolução da Informação, veremos que ela também permite o acesso a inúmeras outras coisas, algo que irá melhorar incrivelmente a produtividade”, destaca o presidente do Sindicato das Empresas de Informática do Estado do Espírito Santo (Sindinfo), Luciano Raizer Moura.

De acordo com o consultor na área de Segurança da Informação Gilberto Sudré, a revolução vivida nos dias de hoje pode ser considerada como a de maior impacto sobre a população. “A Revolução da Informação é muito mais poderosa, pois ela afeta as pessoas mais diretamente. A Industrial proporcionou uma alteração em relação ao capital e ao trabalho e gerou uma produção em massa de bens de consumo”.

“O primeiro surto de industrialização no Brasil somente aconteceu a partir da década de 1930, na era Vargas. Vejo que a Revolução Digital é bem mais abrangente, ou seja, com implicações bem maiores que a Revolução Industrial ocorrida na Europa. A Digital é potencialmente muito mais disruptiva, abrangendo um amplo aspecto de dimensões, inclusive no modo de vida, no comportamento das pessoas e destas na sociedade”, destaca o economista e sócio-diretor do Instituto Futura, Orlando Caliman.

Segundo Luciano Raizer, as mudanças ocasionadas ao longo dos últimos 20 anos são únicas, devido à grande quantidade de tecnologias que são oferecidas à população. “Nós nunca vivemos um momento como este, com tantas tecnologias disponíveis. A sensação que dá é que muitas outras novidades estão por vir”.

O avanço tecnológico ao qual Raizer se refere pode ser facilmente encontrado no crescimento exponencial da internet e de aplicativos que modificam diretamente o dia a dia da população, a exemplo das redes sociais. Entrevistas e reuniões que até então eram realizadas pessoalmente hoje podem ser feitas por meio eletrônicos, assim como o acesso à conta bancária e o pagamento de faturas pelo próprio computador, algo que dinamiza o famoso corre-corre diário.

A compra de produtos e serviços de porta em porta ou em estabelecimentos comerciais já não é mais tão mais necessária como antes, devido ao grande boom do e-commerce no Brasil, que no ano passado teve um faturamento de R$ 28 bilhões, segundo um estudo feito pela empresa e-bit.

E o acesso às novas formas de comunicação não para por aí: dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no ano passado mostram que o contingente de pessoas com acesso à internet aumentou 143,8% de 2005 para 2011.

Em seis anos, o número de internautas no país cresceu 45,8 milhões, algo que pode ser considerado benéfico para boa parte da população. Mas, com tantas possibilidades ao alcance de todos, como ficam os postos de trabalho influenciados diretamente por esse avanço?

“A sensação que dá é que muitas outras novidades estão por vir, pois a cada hora somos surpreendidos com coisas que nem imaginávamos que poderiam existir” – Luciano Raizer, presidente do Sindicato das Empresas de Informática do Estado do Espírito Santo (Sindinfo)

Empregabilidade

De acordo com um estudo feito pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, 47% dos empregos nos Estados Unidos já podem ser substituídos por robôs e computadores. A vulnerabilidade dos postos e trabalho à automatização pôde ser observada através de descrições detalhadas de 702 ocupações, analisadas sob a ótica de quais as que se encontram mais ou menos suscetíveis à substituição por robôs.

Segundo o levantamento, empregos como operador de telemarketing, pesquisador de documentos, costureira, corretor de seguros, relojoeiro, empacotador e bibliotecário figuram entre os mais ameaçados de desaparecimento nos Estados Unidos nos próximos 20 anos. Já os cargos nas áreas de educação, saúde, arte, mídia, negócios e finanças são os que apresentam maior probabilidade de sobreviver aos avanços da tecnologia. O estudo revela ainda que essa crescente evolução poderá continuar a eliminar profissões que não exijam habilidades criativas, sociais e emocionais.

E mesmo que esse possível desemprego venha a ocorrer inicialmente na terra do “Tio Sam” e na Europa, Orlando Caliman acredita que os danos também serão sentidos no Brasil. “No confronto Europa x Brasil, sem dúvida o nosso país sai perdendo, principalmente pela defasagem que apresenta no campo mais crítico, que é o do conhecimento e da capacidade de trabalhar novas habilidades. O Brasil precisa preparar-se para o que virá adiante.

As semelhanças, infelizmente, estão apenas no potencial de ameaças. As diferenças, no entanto, ficam por conta das capacidades de adequar-se e ajustar-se ao fenômeno. Em outras palavras, a Europa está bem à frente do Brasil em termos de preparo para enfrentar os novos desafios”, ressalta.

Segundo a jornalista e editora do Grupo Now!Digital – empresa voltada para o segmento de publicações, eventos e pesquisas sobre TI e Internet -, Cristina De Luca, os avanços na área tecnológica são facilmente percebidos no mercado de trabalho. “A tecnologia permeia todas as atividades econômicas e, por conta das facilidades que traz, muda a vida das pessoas e a forma como elas consomem produtos e serviços.

Ela passa a ter um impacto forte no mercado de trabalho porque provoca uma redução de postos poucos qualificados e mais manuais, substituindo-os por outros, mais qualificados, que requerem informação nessas novas tecnologias”, ressaltou.

“Um dos mais brilhantes economistas do século XX, Joseph Schumpeter, ao interpretar a evolução das economias capitalistas, chamou a atenção para o que ele denominou de ‘destruição criativa’. O que ele quis dizer foi que o fenômeno da inovação, ao mesmo tempo que elimina postos de trabalho com habilidades específicas, tende a abrir outras vagas de trabalho, com novas habilidades. Naturalmente, isso não acontece sem turbulências e situações momentâneas de alto desemprego”, destaca Caliman.

“A tecnologia passa a ter um impacto forte no mercado de trabalho porque provoca uma redução de postos poucos qualificados e mais manuais, substituindo-os por outros, mais qualificados” – Cristina De Luca, editora do Grupo Now!Digital

E o futuro?

Mesmo que o desemprego possa vir a se tornar uma possibilidade cada vez mais real com os avanços tecnológicos, Cristina acredita que essa talvez não seja a única causa do problema. Para a editora, outras considerações devem ser computadas quando se fala em redução de oportunidades.

“Para algumas funções, a tecnologia irá facilitar bastante. Já para outras, o profissional que não se capacitar será prejudicado. Tudo o que foi aprendido para um determinado trabalho pode vir a não servir mais, fazendo com que esse profissional tenha que adquirir novos conhecimentos para continuar na sua área. Isso vai acontecer cada vez mais daqui por diante”, prevê.

Gilberto Sudré compartilha da mesma opinião. Para ele, os avanços proporcionados irão beneficiar cada vez mais as empresas e pequeno e médio porte. “A tecnologia vai facilitar muito o mercado de trabalho, permitindo que as organizações sejam mais eficientes. De certo modo, essa popularização diminui a diferença entre as pequenas e médias empresas (PMEs) e as grandes. Toda essa facilidade será muito benéfica, desde que
os profissionais saibam usar a tecnologia”.

Mas será que todos estarão preparados para lidar com essas inovações tecnológicas? De acordo com Orlando Caliman, não. Para o economista, é extremamente importante que as atenções estejam voltadas para a educação. “O Brasil precisa preparar-se para o que virá adiante. Para isso, o fundamental é focar na educação.

Mas, não se trata de qualquer educação, e sim, de uma educação para o século XXI: com escolas e professores do século XXI. Nós estamos em um estágio que não condiz com o que é exigido no momento em termos de capacidade de o país competir internacionalmente. Temos muito a caminhar”.

Fonte: Universidade de Oxford

Se estaremos de fato ameaçados ou não com esse crescimento avassalador, é esperar para ver. Frente a revoluções tão distantes no tempo e, tão semelhantes em seus efeitos, a conclusão que podemos tirar desse boom tecnológico é que o profissional que não se qualifica se torna descartável. “O fenômeno da inovação, especialmente de natureza mais disruptiva, traz ameaças, mas também oportunidades.

Temos que ter em perspectiva que as vidas úteis das habilidades estão encurtando cada vez mais. Portanto, empresários e empregados necessitam desenvolver, sobretudo, mecanismos para estar constantemente aptos a fazer uso de novas habilidades e novos conhecimentos. Ou seja, o operário deverá saber lidar, por exemplo, com máquinas cada vez mais inteligentes e que, portanto, exigirão inteligência e conhecimento”, conclui Caliman.

Esta entrevista é uma republicação exibida na Revista Comunhão – abril/2014, produzida pela jornalista Yasmin Vilhena e atualizada em 2021. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi originalmente escrita.

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