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quinta-feira, 11 agosto, 2022

Retrospectiva 2021: ES Brasil entrevista Renato Casagrande

Reduziu muito o problema. Mas, continuem usando máscara, se vacinem, porque vacina salva-vidas, alertou Casagrande

por Luciene Araujo e Marcelo Rosa

Um dia após completar 61 anos de idade, o governador do Espírito Santo Renato Casagrande recebeu a ES Brasil no primeiro sábado de dezembro, em uma manhã de sol na Residência Oficial, localizada na Praia da Costa, em Vila velha, para uma entrevista exclusiva. O político do PSB admitiu que teve medo ao adotar medidas durante a pandemia do coronavírus; teceu críticas ao antecessor, Paulo Hartung e ao presidente, Jair Bolsonaro; e, ainda, não deu como certa a candidatura à reeleição, em 2022.

Confira a Retrospectiva de 2021, sob a ótica do chefe do executivo. Uma tradição que a ES Brasil mantém há 14 anos.

Nesse momento turbulento que o mundo atravessa, dois anos de pandemia, com tantas perdas e mortes, tanto confinamento, tanta mudança na vida das pessoas. Como o homem Renato Casagrande se vê hoje, aos 61 anos?

Não havia referência de como agir no enfrentamento da pandemia. Então, a gente foi fazendo o caminho, caminhando. Jamais imaginávamos enfrentar essas dificuldades. E fomos dialogando muito com todas as entidades empresariais, sociais, lideranças das igrejas, pastores, padres. No culto do meu aniversário, recebi uma mensagem de que temos a sabedoria humana e a sabedoria divina. A sabedoria humana quase sempre nos leva a tomar decisões mais fáceis e a divina nos leva às decisões certas, que nem sempre são as mais fáceis. Orientados por Deus, fomos tomando decisões difíceis, duras, às vezes antipáticas para algumas pessoas, mas que depois se mostraram corretas, como nas restrições das atividades econômicas e no investimento nos nossos hospitais de campanha. Ainda não viramos essa página. Mas, graças a Deus, estamos terminando o ano numa situação melhor, em que a gente pode, de alguma maneira, comemorar. Uma comemoração contida, porque ainda temos pessoas perdendo a vida, mas chegamos a ter quase 70% de óbitos na média móvel por 14 dias e agora temos 4,5 óbitos. Reduziu muito. Mas, continuem usando máscara, se vacinem, porque vacina salva vidas.

O senhor admite que foram medidas difíceis. Chegou a sentir medo nesse período?

Sim, todo mundo tem medo. A dúvida leva ao medo, mas fomos muito bem orientados pela nossa Secretaria de Saúde e por cientistas de fora do estado, que estavam nos ajudando, sempre com a orientação correta. Imagine se algum governante gosta de pedir para o comércio fechar; para as pessoas ficarem em casa; e para as igrejas suspenderem seus cultos e missas. Nenhum governante, independente da posição política, gostaria de tomar essas decisões. No primeiro momento da pandemia, todos nós estávamos com muito medo e sem saber o que era aquilo. Profissionais do comércio não queriam ir trabalhar e a população se recolheu voluntariamente para dentro de casa. Conversando com um empreendedor de shopping, ele afirmou que gostaria de fechar porque não estavam tendo movimento. Foram momentos duros, mas a gente tomou a decisão por aquilo que era correto, que era justo.

Confira a entrevista na íntegra:

 

Só para pontuar, qual foi o momento que o senhor teve mais medo?

Os medos vieram em dois ou três momentos, quando a gente chegou no limite para atender as pessoas com leito hospitalar. A minha equipe não dormia, passava a noite toda regulando leitos. A pior cena que vi nessa pandemia foi a de pessoas sentadas em pronto-socorros, esperando leito, e morrendo por falta de oxigênio, por falta de respiradores, em outros locais. Graças ao bom Deus, a gente conseguiu atender a todo mundo.

O Espírito Santo tornou-se referência em cobertura vacinal. Diante da chegada dessa nova variante, o Estado está preparado?

Depende muito de como será, e quais os efeitos da nova variante, porque a gente não sabe ainda se é mais letal. Nossa expectativa é que seja menos letal, como a variante Delta, que hoje dominou a pandemia no mundo todo. Aqui no Espírito Santo, ela começou devagarinho e hoje, 100% dos casos de contaminação são da variante Delta. Então, minha expectativa é de que a Ômicron possa ser eficiente no contágio, mas, Deus queira que ela não seja eficiente em tirar a vida das pessoas. O jeito é esperar se vacinando. Peço encarecidamente: quem não tomou a vacina, tome. Quem tomou a primeira dose, tome a segunda. E quem puder tomar a terceira dose, tome também. Certamente, no ano que vem vamos precisar da quarta dose. Não vamos parar de nos imunizar, neste momento. Há países na África que não atingiram 20% de vacinação; alguns nem 10% de cobertura vacinal. Vacinação. Pode ser que, daqui a pouco, quando de fato as vacinas chegarem a todos os locais do mundo, que a gente não precise mais se imunizar com relação a covid.

O mapa de risco divulgado pelo Governo do Espírito Santo está verdinho.

A gente quer que ele fique azul, que é o risco muito baixo. E o jeito de caminhar para o risco muito baixo, a gente já sabe qual que é: 90% de quem têm acima de 60 anos já ter tomado a terceira dose; 80% acima de 18 ter tomado a primeira e a segunda doses; e 90% com idade de 12 a 17 anos com pelo menos a primeira dose.

É momento de liberar o carnaval no Espírito Santo?

O carnaval ainda está longe. Vamos por etapas. Temos que pensar agora nas festas de final de ano. Se as dez microrregiões chegarem a risco muito baixo, se não houver nenhuma novidade em relação a nova variante, não teremos limitação com relação à festa ao ar livre sem controle de entrada. Você não tem como controlar a entrada de pessoas nas diversas praias do nosso litoral. É livre. Nós só aceitaremos esse tipo de festa, se a região chegar a risco muito baixo. Se não chegar, estamos recomendando que não haja aglomerações em áreas livres.

O problema é que há risco de migração também.

Sim, há risco de migração. Carnaval ainda não. Precisa chegar a risco muito baixo. E repito: isso só vai acontecer se não tivermos o replique da doença, uma nova variante adoecendo e internando mais pessoas e os municípios voltando ao risco moderado. Aí será preciso usar a matriz de risco para as medidas qualificadas. Nossa expectativa é que a gente vai migrar para risco muito baixo e que poderemos sim, realizar as festas.

O desfile das escolas de samba também não se sabe?

Temos boas expectativas. Achamos que iremos chegar ao risco muito baixo em janeiro, e as pessoas vacinadas poderão desfilar nas escolas de samba ou adentrar no Sambão do Povo.

De saúde para economia. O que aconteceu com o preço dos combustíveis, do gás? Como controlar essa onda para que não pese tanto no bolso dos capixabas?

Os preços dos combustíveis chegaram à atual situação pela política de qualidade internacional dos preços do petróleo. Quando tivemos uma crise na área do petróleo, no início da pandemia, e depois o aumento do consumo, e os países com controle do petróleo passaram a segurar a produção para elevar o preço do barril. O petróleo é uma commodity e tem preços padronizados no mundo todo. No Brasil, com instabilidade política e a política de qualidade internacional, e os preços no Brasil foram acompanhando os preços internacionais.

O Governo Federal está errando na condução desse processo?

Errou muito na condução desse processo, mas deu uma acalmada agora. Então, as pessoas devem compreender que, para governar, é preciso ter um ambiente de tranquilidade. Não adianta ficar todo dia brigando com alguém. É preciso ter estabilidade, calma no ambiente, para ter mais visibilidade com relação ao futuro. Isso acalma os investidores e diminui a expectativa da inflação crescer.

O Senhor preside o Consórcio Brasil Verde. De que forma esse grupo pode atuar em prol de políticas ambientais?

O consórcio Brasil Verde é um a coalisão em processo de organização e legalização, na fase burocrática. Esse consórcio tem alguns papéis. O primeiro deles é para dentro dos nossos estados. Não adianta ir a um fórum internacional em Glasgow, se não sou exemplo dentro do meu estado. Tenho que ajudar o país a alcançar as metas de redução de gases que provocam o efeito estufa. Existem diversos deles, mas especialmente o CO2, com maior quantidade de emissões, seja pelo uso de combustíveis fósseis ou por queima de florestas. O Brasil assumiu metas de neutralidade de carbono – quantidade de gases emitida deve ser igual à capturada – e isso se faz com reflorestamento, substituição de combustível fóssil, uso de energia renovável. Se o Brasil assumiu que até 2050 vai ser neutro em carbono, os estados precisam ajudar, dar o primeiro passo agora, que é elaborar o Plano Estadual de Neutralidade de Carbono e acompanhar ano a ano. A segunda tarefa do consórcio é buscar financiamento para projetos que sequestram o carbono.

Além de ser bacharel em direito, Meio Ambiente é um assunto que o senhor domina, por ter a formação em engenheiro florestal

Sempre trabalhei nessa área, meio ambiente, agricultura, sustentabilidade> Fui secretário de Agricultura, de Meio Ambiente, na Serra. Tenho os conceitos básicos. Estou na vida pública há muito tempo, então mais na gestão desses temas do que na execução, naturalmente. Mas as noções básicas nos ajudam a tomar as medidas mais adequadas.

Quais as três ações mais importantes realizadas em 2021?

Primeiro a gestão da pandemia. Foi o assunto mais importante: salvar vidas. A segunda foi manter o ritmo crescente de investimento em infraestrutura. Podemos citar as obras da Terceira Ponte, com a proteção contra o homicídio e a ciclovia, e ao mesmo tempo a ampliação de uma faixa de cada lado. E as obras da Reta do Aeroporto e Rodovia das Paneleiras estão indo muito bem. O portal do Príncipe, a Macrodrenagem em Cariacica, Vila Velha, Viana. Obras do Estado em todos os municípios, sem exceção. Recuperamos a capacidade de investimento em infraestrutura, fundamental para dar qualidade de vida e mobilidade às pessoas. Em 2019, o Governo já fez mais obras do que foi feito em 2018, último ano do governo anterior. E vamos fazer bem mais em 2022 do que em 2021. E a terceira ação muito importante foi o trabalho na área de educação e de formação profissional. Avançamos muito na área de educação.

Prioridade na Educação?

Educação já era prioridade em nosso plano e virou a prioridade das prioridades. Estamos valorizando professores com melhores salários, incorporando tecnologia com um computador para cada professor e um para cada aluno do Ensino Médio. Ajudando os municípios com educação em tempo integral, financiando 18 mil alunos. Repassamos R$232 milhões aos municípios para construção, reforma e ampliação das escolas. Vamos abrir mais 40 escolas de tempo integral em 2022.

Como tornar a educação referência no país?

O estado já é uma referência. Recebemos o título de melhor Ensino Médio do Brasil. Mas queremos mais. Somos referência entre as escolas cuja nota máxima é cinco, mas temos que caminhar a outra metade. Investir também na Educação Fundamental e Infantil. Estamos preocupados também com os alunos das escolas municipais. Por isso que a gente está ajudando os municípios com obras, conteúdo, formação de professores, educação em tempo integral. É importante os municípios caminhem junto. Um sistema colaborativo para não deixar ninguém para trás.

E quanto á segurança, governador?

O trabalho na área de segurança pública é um desafio ainda, mas fechando 2019, 2020 e 2021 com o menor número de homicídios na história do estado. Temos um caminho longo a percorrer, mas estamos avançando, valorizando os profissionais da segurança pública, e criando um ambiente bom pra gente enfrentar a criminalidade no Espírito Santo.

Apesar das melhorias que o senhor citou, há um aumento do feminicídio. O que fazer para resolver essa situação?

De fato, temos ainda uma cultura de violência muito presente, enraizada, uma cultura machista, em parte da sociedade capixaba. Alguns homens se sentem donos das mulheres e acham que podem subjugar, agredir e matar. Primeiramente, precisamos trabalhar uma cultura de paz, a compreensão de respeito. Segundo, temos que ter políticas públicas, por isso, a patrulha Maria da Penha, projetos como o da Polícia Civil “Homem que é homem”, que trabalha essa conscientização com quem já agrediu. E estamos agora entrando no processo de aquisição de um importante sistema eletrônico: o agressor usará uma tornozeleira eletrônica e a mulher terá um equipamento que alerta a polícia sobre a aproximação do agressor. Ele apita.

Sucessão presidencial. Qual a avaliação do senhor para 2022, frente a essa polarização?

Está muito cedo ainda. Em política as coisas mudam muito de uma hora para outra. O cenário está se desenhando. PSDB tomou a decisão da candidatura. O ex-ministro Sergio Moro também, assim como o ex-presidente Lula e o presidente Jair Bolsonaro. Ficaremos aí com quatro ou cinco candidaturas bem posicionadas. Não é fácil romper a polarização, porque o presidente Lula tem uma lembrança boa por parte da população sobre o governo dele, e o governo Bolsonaro tem um mundo de apoio a ele também. Acho que a candidatura do ex-presidente Lula pode ser uma ameaça a Bolsonaro, porque tem energia para continuar crescendo e sempre começa acima de 10% dos votos. Mas temos seis meses pela frente. Estamos distantes das decisões finais. Agora é ir acompanhando.

Hoje, se o senhor tivesse que ir ao palanque, subiria no palanque de quem?

Não, eu ainda não estou me posicionando, não sei qual a posição do meu partido e posso antecipar um problema. Melhor me resguardar nesse momento para emitir minha opinião na hora certa.

As pesquisas o apontam como governador reeleito. E o senhor tem cumprido uma agenda extensa, repleta de obras, viagens e visitas ao interior. Isso quer dizer o que, que é uma pré-campanha como candidato para 2022?

Sinceramente, não sei. O ambiente está muito instável, há intolerância, impaciência. Muita exigência no meio da política. O Espírito Santo precisa agora de um governador e não de um candidato a governador. Só irei tomar a decisão de disputar aou não a reeleição entre março e abril do ano que vem. Mas já decidi que vou liberar o projeto. Acho fundamental que haja sequência. Vamos pegar a segurança pública para refletir sobre a importância disso. Não estou há oito anos consecutivos no Executivo, houve interrupção, redução nos investimentos em infraestrutura, descontinuidade na área de segurança pública, por exemplo. Se tivermos cinco anos de projeto de segurança pública, seremos o estado com menor índice de violência do Brasil.

O senhor está querendo dizer que seu antecessor errou?

O Paulo fez coisas boas no terceiro mandato dele, mas teve um grave problema na área de segurança pública, porque não deu sequência aos investimentos em infraestrutura. Teve coisas boas. A gente tem que reconhecer que quem faz as coisas boas no estado não é somente um governador, não sou só eu, só o Paulo. Mas faltou dar sequência aos investimentos em segurança pública e em infraestrutura.

Nossa pergunta tradicional: o que o capixaba pode esperar para 2022?

Muito trabalho. Não sou governador de gabinete, desde o primeiro dia de minha gestão. Gosto de ir aos municípios, de conversar com as pessoas. Tudo que a gente preparou de investimentos em educação, em infraestrutura, vamos chegar ao máximo, agora em 2022, com todos os resultados. Se Deus nos permitir que a gente tenha saúde, que controle a pandemia, e tenha o mínimo de tranquilidade na política nacional, o ES vai voar em 2022. Pode ter certeza disso. Vai consolidar obras importantes, avançar muito na área social e de educação. Peço muito mesmo o apoio da sociedade capixaba pra isso.

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