Retrospectiva 2009 – O desafio da retomada

O ano de 2009 começou mostrando um horizonte de nuvens sombrias, herdadas do cenário de pânico instalado com a crise financeira internacional iniciada em setembro de 2008. Ninguém tinha certeza do tamanho da ‘marolinha’, em que muitos viam um potencial tsunami, prestes a varrer investimentos e empregos, arrastando para longe a euforia e os recordes econômicos nacionais e locais conquistados e celebrados no ano anterior. Mas o tempo mostrou que não seria nem uma coisa, nem outra. Depois de um primeiro semestre de incertezas, paralisações em setores capitais da economia e da indústria, demissões em massa, recuo nos investimentos produtivos e desaparecimento do crédito, tanto a economia brasileira quanto a do Espírito Santo começaram, já no terceiro trimestre de 2009, a mostrar números que indicam uma recuperação que, se é lenta e ainda não provoca grande entusiasmo, é digna de registro e, melhor que isso, aponta para um 2010 com fortes possibilidades de crescimento real.

A outra boa notícia é que, embora este ano, segundo a maioria dos especialistas nacionais, o PIB brasileiro deva experimentar crescimento zero ou mesmo negativo, as projeções do Instituto de Desenvolvimento Industrial do ES, o Ideies, órgão do Sistema Findes, apontam que a retomada que se prenuncia a partir de 2010 terá novamente o Espírito Santo à frente do Brasil, como tem ocorrido há pelo menos quatro décadas. Para o Ideies, o PIB nacional deve fechar 2009 com crescimento – ainda que de apenas meio ponto percentual – e já no próximo ano a estimativa é de um aumento da ordem de 5% para o PIB brasileiro e de 7,5% a 8% para o PIB capixaba, caso se concretizem todos os investimentos já anunciados para o Estado – e que superam os R$ 100 bilhões até 2019.

Mesmo assim, o Espírito Santo foi um dos Estados mais atingidos pela crise, e também um dos primeiros a acusar seus efeitos. Segundo dados do Sindicato das Empresas de Importação e Exportação do Estado do Espírito Santo, Sindiex, as exportações capixabas, fortemente dependentes de commodities, caíram 39% em 2009, atingindo, de janeiro a outubro, US$ 5,296 bilhões, contra US$8,662 bilhões movimentados em 2008. As importações caíram 37%, de US$ 7,157 bilhões em 2008 para US$ 4,514 bilhões importados até outubro de 2009.

Os números da atividade industrial também revelaram, de um lado, os resultados da crise sobre a atividade produtiva, e, na outra ponta, a tendência de recuperação. Segundo apontou a Pesquisa Industrial Mensal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgada em novembro, a mais recente disponível até o fechamento desta edição, embora a produção industrial capixaba tenha avançado 2,9% frente a setembro, obtendo o maior crescimento do Brasil em outubro (2,4%), se comparado ao mesmo mês de 2008 e interrompendo, com o primeiro resultado positivo do ano, a trajetória de queda iniciada há doze meses, o saldo negativo no acumulado de 2009 ainda é alto: -21,1%. No contexto da indústria capixaba, em 2009 a cadeia gás-petróleo e a construção civil foram as “locomotivas” a puxar a recuperação e a impedir que o ano apresentasse números ainda mais negativos.

Quanto ao emprego formal, não só no Espírito Santo como em todo o Brasil, o ano começou com a perda de milhares de postos de trabalho, principalmente no setor industrial, o mais afetado pela crise, porém ao longo dos meses a taxa de desemprego foi recuando gradativamente. Em março, chegou ao pico de 8,5%, mas em novembro o IBGE registrou que o desemprego nas seis regiões metropolitanas pesquisadas caiu para 7,4%. Foi a menor variação desde dezembro de 2008 e a menor taxa para novembro desde o início da série histórica. Apesar da queda, no entanto, a taxa média de desemprego no ano está em 8,2%, acima da verificada em 2008, de 8%.

Na mesma semana, o Ministério do Trabalho divulgou que em novembro as contratações com carteira assinada no Brasil superaram as demissões em 246.695. Foi também o melhor resultado para o mês desde o início da série, conforme dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). De acordo com o Caged, no Espírito Santo, em novembro, o emprego teve variação positiva de 0,77% sobre o mês anterior, com 30.888 contratações frente a 25.785 demissões, gerando saldo positivo de 5.103 vagas preenchidas. No acumulado do janeiro a novembro, o saldo positivo é de 23.698 novos empregos – crescimento de 3,73% sobre o mesmo período de 2008. Mas, os métodos de pesquisa do Caged e do IBGE são diferentes. O Ministério do Trabalho considera apenas os trabalhadores com carteira assinada de todas as empresas brasileiras. Já o IBGE mede também o emprego informal (sem carteira registrada) e apenas em seis metrópoles: São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Recife, Salvador e Porto Alegre.

Um dos aspectos que colaborou para a recuperação dos empregos e da renda foi o crescimento do número de empresas constituídas no Estado em 2009. Segundo dados da Junta Comercial do Espírito Santo (Jucees), de janeiro a novembro foram constituídas 13.214 empresas no Estado, entre sociedades limitadas (6.353), empresas individuais (4.711), sociedades anônimas (138) e cooperativas (1) – em 2008, 10.774 novas empresas foram registradas. Na outra ponta, porém, o número de empresas extintas também cresceu – 6,9%, com o Estado registrando 3.609 extinções/distratos em 2009, contra 3.376 em 2008. Somadas sedes e filiais, a Junta reporta que houve crescimento de 20,5% no número total de constituições: 14.836, frente a 12.306 em 2008.

Se no cenário de instabilidade a competência gerencial fez toda a diferença no setor privado, na gestão pública não seria diferente, e nesse quesito o Estado deu show, tornando-se exemplo para o país. Foi o primeiro da União a rever seu orçamento, logo no primeiro trimestre de 2009, fazendo em tempo hábil os ajustes necessários, que permitiram que o Espírito Santo atravessasse a tormenta em condições de fechar o ano anunciando repetir em 2010 o maior investimento de sua história – feito este ano, quando investiu R 1 bilhão em plena crise. Melhorias nos processos e métodos de gestão permitiram que em 2009 a arrecadação estadual alcançasse R$ 11 bilhões e 652 milhões – 1,5% a mais que a do ano anterior.

Na agenda do Executivo estadual em 2009, ganharam espaço as obras de infraestrutura, os programas de incentivo à pesquisa e inovação, de capacitação e qualificação profissional, de combate às desigualdades regionais e à pobreza, a oferta de crédito diferenciado para o fomento às atividades produtivas (desde micro e pequenas empresas até empreendedores individuais, passando pelas empresas de médio e grande e porte), incentivos variados para aumentar a atratividade de novas empresas e a criação de um ambiente legal e institucional propício aos negócios. Com essas e outras iniciativas, o Espírito Santo foi destaque internamente e até na mídia nacional.

Juntos, os esforços de governos e empresas resultaram em um ano em que nem as piores nem as melhores previsões se confirmaram e, no cômputo final, os resultados parecem ter trazido o entusiasmo de volta ao cenário da economia. O índice de confiança do consumidor (ICC) e o índice de confiança do empresário (ICE), medidos respectivamente pela Fundação Getúlio Vargas e pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostram franca recuperação. O primeiro cresceu 1,5 ponto percentual em novembro, em relação a outubro, e o segundo, que caíra em janeiro ao nível mais baixo desde 1999, atingindo 47,5 pontos, chegou a outubro batendo na casa dos 65,9 pontos, o patamar mais alto desde 2005. Enfim, um excelente fecho para um ano que começou assustador e um prenúncio promissor para um 2010 onde essas conquistas deverão ser consolidadas e novos desafios precisarão ser vencidos.

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