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terça-feira, 16 abril, 2024

Recuar para avançar

A percepção dos últimos dias é que a necessidade de isolamento social acabou e só eu que não estou sabendo… o feed foi tomado pelo amor dos namorados e inúmeras saidinhas

Lindos, sem máscaras (aff) nem pudor, desfilando seus lifestyles no feed das redes… sei que a vida é algo privado e pertence a cada um dos “@” que ali estão… porém, se há a combinação “exposição + incoerência entre o discurso e imagem”, o resultado da equação tem sido o cancelamento de personalidades, políticos ou qualquer pessoa que “saia da linha”. O termo “cultura do cancelamento” não é novo, porém ganhou força diante do aumento do uso das redes sociais e da vigília coletiva do comportamento alheio neste tempo de pandemia.

Nestes quase 100 dias de vida encapsulada, temos acompanhado a remodelação de muitos negócios e a recente estreia da opção “pagamento” via Whatsapp (um braço do grupo Facebook), sendo possível enviar ou receber dinheiro pelo aplicativo da mesma forma que são enviados arquivos, fotos, contatos e localização. Transferências imediatas a partir de um clique, uma realidade já existente para muitos por meio da carteira digital PicPay (que antes da pandemia recebia a adesão de cerca de 500 mil novas contas mensais e a partir da segunda metade de março deste ano viu o volume aumentar em seis vezes, de acordo com a Reuters para o site labs.ebanx.com).

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Mas nem tudo é perfeito! Também temos diversos exemplos da “falta de habilidade” (até de grande marcas) com o atendimento remoto. Só como exemplo, vamos analisar o calendário comercial nestes últimos três meses: a Páscoa, o Dia das Mães e por último o Dia dos Namorados. Falhar na primeira data, ok, estávamos entrando em uma pandemia e tudo era novo… falhar no Dia das Mães é estranho, mas ok, qual empresa nunca falhou em algum momento? Mas falhar no Dia dos Namorados (após quase 100 dias do início da pandemia) é a grande mostra de que o comércio ainda não está preparado para este “novo tempo”. Um exemplo é a falha de entrega (fora do prazo combinado): o cliente comprou de uma loja localizada em um shopping em Vitória, pagou pela entrega do produto – com a garantia de entrega programada – porém não recebeu a mercadoria no dia 12, frustando suas expectativas). Outro exemplo foi o famoso aplicativo Ifood, que apresentou instabilidade no serviço em diversas cidades incluindo São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, alcançando o trend topic (“assuntos do momento”) no Twitter no dia 12, com mais de 16 mil menções. A plataforma se pronunciou no dia 13, assumiu o erro e comprometeu-se a “aperfeiçoar a forma de operar para levar o melhor resultado a todos”. É o famoso clichê, “explica mas não justifica”. E assim seguimos…

shopping vitória

Seguimos buscando o caminho da fé e da esperança, sabedores (por meio do que nos contaram) que catástrofes, guerras, revoluções e pandemias possuem a capacidade de transformar a história, sacudir o mundo e nossos “universos particulares”. A pandemia tem nos convidado a ser “antifrágil” (conceito difundido pelo autor libanês Nassim  Nicholas Taleb, no qual defende que não devemos evitar as adversidades pois podemos nos beneficiar dela nos tornando ainda mais fortes). Diferente de ser “resiliente” (aguentar firme e não desanimar), os dias estão propícios a desenvolver o “antifrágil” em nós,  considerando toda a aleatoriedade, instabilidade e incertezas que pairam em diversos setores da sociedade.

Este período também nos convida a valorizar o nosso tempo e a qualidade das conexões estabelecidas: famílias inteiras em um mesmo ambiente, porém desconectados emocionalmente, rendidas pelos aspectos viciantes do universo digital tão cuidadosamente projetado (a partir de vulnerabilidades psicológicas que prendem nossa atenção). A questão não está no uso da tecnologia (como retrata Cal Newport, no livro “Minimalismo Digital”) e sim no resguardo de nossa autonomia e de nossa capacidade de não abrir mão do real em detrimento das experiências mediadas pelas telas.

Talvez tenha chegado o momento de “recuar para avançar”, visando obter uma nova perspectiva sobre o que estamos vivendo. Fazer do tempo o nosso aliado e avançar com sabedoria e segurança. O “novo normal” não existe, o que temos é um “novo tempo” e uma imensa responsabilidade em torná-lo melhor que o período em que nossas faces (e nossas vidas) eram livres e não tínhamos limites para abraços. Comemorar os atuais avanços tecnológicos, como a vida mediada por telas, aplicativos, plataformas e inteligência artificial sem cuidar da nossa humanidade e das conexões afetivas (nossas e dos nossos) é como ter o melhor dos carros com motor movido a pilha… certamente, desta forma, não conseguiremos ir muito longe.

Danielly Medeiros é jornalista, especialista em Economia para Jornalistas e Comunicadores Institucionais pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

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