Tecnologia de rastreamento ocular identifica padrões visuais e auxilia na detecção precoce de autismo e TDAH em crianças pequenas
Por Nathanael Rodor
O avanço de tecnologias baseadas em biomarcadores tem ampliado as possibilidades de avaliação de transtornos do neurodesenvolvimento. Entre elas está o Eye Tracking, sistema de rastreamento ocular capaz de analisar, em milissegundos, para onde crianças direcionam a atenção diante de diferentes estímulos visuais, gerando dados objetivos que podem complementar a investigação clínica de condições como Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).
A tecnologia parte de um princípio já consolidado na neurociência: enquanto pessoas com desenvolvimento típico tendem a concentrar espontaneamente o olhar em rostos e interações sociais, indivíduos com TEA podem apresentar padrões distintos de atenção visual. A partir de métricas como tempo de fixação e direcionamento do olhar, o sistema consegue identificar padrões associados ao processamento social das informações.
Segundo a médica neurocirurgiã pediátrica e neuropsiquiatra infantil Larissa de Sousa, uma das principais contribuições da ferramenta é reduzir a subjetividade da avaliação. “O Eye Tracking tira a nossa avaliação da subjetividade do consultório e a traz para o dado concreto, matemático”, afirma. De acordo com a especialista, o exame pode ser particularmente útil em casos mais complexos, ajudando a diferenciar padrões de atenção relacionados ao TEA e ao TDAH, além de auxiliar na análise de quadros mais sutis.
Outro diferencial está na possibilidade de identificar sinais de risco antes que eles se tornem evidentes para a família. “Muitas vezes os pais só percebem que algo está diferente quando a criança apresenta atraso na fala, por volta dos dois anos. Mas alterações no contato visual podem surgir muito antes”, explica Larissa. Segundo ela, o rastreamento ocular permite detectar padrões atípicos de engajamento social em uma fase mais precoce do desenvolvimento.
A ciência já demonstra que alterações nos padrões de olhar podem ser observadas nos primeiros meses de vida. Na prática clínica, entretanto, a especialista afirma que o exame costuma ser aplicado com eficiência entre 12 e 18 meses de idade, período considerado estratégico para intervenções precoces. “Estamos falando de uma janela muito importante do desenvolvimento cerebral, quando o potencial de resposta às terapias é maior”, destaca.
Além de apoiar a identificação precoce, a tecnologia também contribui para a personalização do tratamento. Os dados obtidos permitem que equipes multidisciplinares compreendam com mais precisão quais estímulos despertam ou não a atenção da criança, ajudando a direcionar estratégias terapêuticas individualizadas. “O tratamento deixa de ser baseado em tentativa e erro e passa a ser orientado por dados neurobiológicos”, afirma Larissa.

Outra aplicação está no acompanhamento da evolução terapêutica. Ao repetir o exame periodicamente, profissionais conseguem comparar indicadores ao longo do tempo e verificar mudanças nos padrões de atenção e engajamento social. “Temos uma prova visual e matemática de que o cérebro está respondendo ao tratamento”, diz a especialista. Para ela, a combinação entre avaliação clínica e indicadores objetivos pode contribuir para intervenções mais precoces, precisas e eficazes. O Eye Tracking foi adotado recentemente pela clínica Vidah Kids, onde a especialista atua.


