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sexta-feira, 5 março, 2021

Pelo fim dos consensos políticos

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Talvez seja o momento de aprendermos com os Mabecos

Por Professor Antônio Cesar

Como professor de Sociologia, com especial interesse pelos processos políticos, principalmente os decisórios em uma sociedade, passo parte do meu tempo livre “googleando” sobre o assunto. Em um desses dias, li um estudo sobre o Mabeco, espécie de cachorro selvagem africano, cujas matilhas são governadas de modo autoritário, no que, até aí, não é nada fora do comum no mundo dos canídeos.

Contudo, foi surpreendente descobrir que os membros da matilha possuem um mecanismo político com o objetivo de equilibrar o poder do líder. Quando decidem abandonar um local em busca de novas caçadas, qualquer membro pode convocar uma assembleia e, através de espirros, votar pelo caminho a seguir. Assim, mesmo a contragosto, o líder deve acatar a decisão do grupo, independentemente da sua força, experiência ou aparência. Mas o que essa história nos ensina?

Enquanto para outros seres vivos o tamanho, as cores e os sons servem para impor determinada decisão, para nós humanos a troca de ideias é ferramenta indispensável para sobrevivermos, não só enquanto sociedade, mas como espécie.  Nesse sentido, a política é uma atividade humana em sua essência e a comunicação desempenha papel crucial nas escolhas.

De fato, conforme a filosofia de Aristóteles, somos animais políticos, ou seja, seres racionais dotados da capacidade de avaliar, sob o ponto de vista lógico, nossas ações, na tentativa de alcançarmos o bem comum. Além disso, é importante destacar o aspecto não normativo dessas ideias. Isto porque o conteúdo daquilo definido como socialmente útil é elaborado nas próprias interações entre as pessoas e não é dado por natureza.

Desta forma, para a realização da condição humana, a divergência de ideias precisa ocupar a comunidade política (polis), do contrário, a inexistência da pluralidade de pensamentos e práticas coloca em risco a vida coletiva e as possibilidades de autorrealização. Daí se pode verificar quão indispensável é o fortalecimento de espaços marcados por ideias políticas divergentes.

Diante de sociedades marcadas por diferenças de gênero, étnicas, geracionais e educacionais, torna-se tarefa urgente superarmos a crença no consenso como saída exclusiva para os conflitos humanos. Afinal, o consenso tem por consequências a anulação do contraditório e a extinção de diferentes interpretações da realidade.

Se continuarmos a acreditar nesse conto de fadas político, a possibilidade de uma sociedade melhor para todos e todas ficará cada vez mais distante e os rumos coletivos permanecerão concentrados nas mãos de poucos aproveitadores, responsáveis por definir o que é válido debater.

Talvez seja o momento de aprendermos com os Mabecos, pois mesmo entre animais selvagens movidos pelas necessidades mais básicas de sobrevivência, os interesses comuns são colocados em primeiro plano, a despeito das vontades do chefe, uma vez que outros caminhos podem ser escolhidos e em assembleia decididos.

Sem dúvidas, somos animais políticos. Contudo, cabe decidirmos se somos mais animais ou mais políticos. Quando nos vermos em espaços onde se clama pelo consenso, e se suprime a pluralidade, recorramos aos Mabecos e a sua capacidade de levantar o nariz e apontar para outras direções.

Antônio Cesar Machado da Silva é doutor em Sociologia, docente da Faculdade de Ensino Superior de Linhares (Faceli) e vereador.

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