O novo cooperativismo

Sistema é apontado como principal via na construção de um futuro sustentável

Todos os anos, desde 1923, no primeiro sábado de julho é comemorado o Dia Internacional do Cooperativismo, um movimento que surgiu no Brasil em 1847, nos sertões do Paraná, seguindo padrões europeus, e hoje abriga no país mais de 6,6 mil organizações, que geram 361 mil empregos e possuem 50 milhões de pessoas vinculadas a uma delas.

Esses modelo de negócios envolve mais de um bilhão de associados em todo o mundo, um número que representa 14,3% da população do globo. Mas qual o papel do cooperativismo em um planeta que demanda, com urgência cada vez maior, o fortalecimento de um novo conceito para a utilização dos recursos naturais? De que forma essa união pode desenhar um quadro mais positivo para economia nacional? Quais os entraves que precisam ser resolvidos por esses empreendimentos para agregar valor aos produtos e ganhar novos mercados?

 A cultura que sustenta essa mobilização em prol de uma produção mais justa e solidária – do compartilhamento, de olhar o outro – pode gerar um estreitamento nas relações de trabalho, uma postura mais colaborativa, que levem seus atores a utilizar com mais responsabilidade os recursos disponíveis, de maneira que sobre mais para todos e melhore o bem-estar coletivo, avalia a economista Arilda Teixeira, professora doutora da Fucape Business School. “O cooperativismo tem na economia esse papel de atenuar condições que o capitalismo traz de concentração de renda, de egoísmo. O cooperativismo vem mostrar um lado oposto, de como a solidariedade e a união são capazes de trazer benefícios maiores para todos.  A ideia de compartilhamento veio para ficar, está dentro da agenda do século 21”, defende.  O sistema avança, mesmo na crise, e contribui de modo significativo para o desenvolvimento do Espírito Santo. Em nove ramos da economia – agropecuário, crédito, saúde, consumo, educação, produção, transporte, trabalho e habitacional – o território capixaba tem hoje 134 cooperativas funcionando de forma regular, 92,4% delas (121) registradas no Sistema OCB-Sescoop/ES.  Em outros estados, há atuação ainda nos setores de infraestrutura, mineral, turismo e lazer.

Presidente da Organização das Cooperativas Brasileiras no Espírito Santo (OCB-ES), Esthério Sebastião Colnago ressalta que o “mais moderno e competitivo modelo de negócio existente” deu ênfase à busca de apoio de seus parceiros nos projetos para desenvolvimento das cooperativas e seus cooperados.
“Em 2015, foram mais de R$ 7,9 milhões relativos aos convênios firmados em benefício às cooperativas. O Sebrae-ES deu suporte aos nossos projetos em R$ 5,720 milhões, a Aderes (Agência de Desenvolvimento das Micro e Pequenas Empresas e do Empreendedorismo), num montante de R$ 631.388;
e a Secretaria de Estado da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca, no último ano, investiu mais de R$ 1,6 milhão”, informou.
Mas nem tudo são flores. A necessidade de capacitação de mão de obra, o cuidado com a água e o grande e complexo desafio de reorganizar as relações de trabalho são questões que precisam de atenção especial.

Agropecuário
Mesmo com as mudanças no setor produtivo, algumas particularidades, como o ainda baixo nível de escolaridade dos agricultores ou a dificuldade de acesso aos meios de comunicação, travam o avanço da implantação de níveis de tecnologia exigidos pelo mercado. Daí a necessidade de integração nesse meio. Sobre as tendências do cooperativismo agropecuário no mundo e os desafios para o Brasil, Esthério Colnago enfatiza que é imperativo agregar valor, por intermédio da capacitação de cooperados e fortalecimento das estruturas. 

As 29 cooperativas do setor rural, que reúnem mais de 27 mil produtores, são responsáveis por fornecer boa parte dos alimentos que chegam às mesas dos capixabas – 55% do leite processado no Estado e 1,5 milhão de sacas de café/ano passam pelo cooperativismo.

Algumas dessas instituições são bastante conhecidas da população, como a Veneza, a Selita e a Coopeavi. E todas elas têm convivido com o fantasma da maior crise hídrica já enfrentada no Estado, causadora de sérios prejuízos às organizações.

Quanto às soluções para a escassez da água, Colnago frisa que não existem medidas eficazes de curto prazo. E que, especialmente no Norte, é preciso contar com a chuva, em conjunto com ações como a construção de barragens e mesmo das caixas secas, entre outras.
O presidente da Veneza, José Carnieli, é enfático ao falar sobre a falta desse recurso natural. “É preciso menos discurso e mais ação. Todos sabemos as medidas que devem ser tomadas, mas na prática, está muito lento”, lamentou.

Crédito
Há exemplos de fusões muito bem-sucedidas no mercado capixaba. O Sicoob-ES, que surgiu da união entre as cooperativas de Linhares e Rio Bananal, hoje é o maior sistema cooperativo de crédito do país. Com atuação no Espírito Santo e no Rio de Janeiro, a instituição tem 189 mil associados e oito organizações filiadas. Em âmbito nacional, atua em 2,4 mil unidades e atende 3,3 milhões de filiados.

Tradicionalmente, em cenário de recessão, as cooperativas de crédito tendem a se fortalecer, mas o Sicoob atingiu resultados acima da média brasileira. Mesmo diante da situação econômica bastante ruim e da queda de receita principalmente das cooperativas de agronegócios, que gerou atrasos nos pagamentos das tomadas de créditos, o grupo encerrou o primeiro semestre com bons resultados.

De acordo com Nailson Dalla Bernadina, diretor da entidade, o desempenho foi apoiado sobretudo nas receitas de serviços (em especial consórcio e seguros), que alcançaram a cifra de R$ 56,6 milhões nos primeiros seis meses do ano, um montante 21,6% superior ao mesmo período de 2015. “Não houve aumento das tarifas de serviços nem das taxas de juros neste semestre. O crescimento é resultado da ótima relação custo x benefício do portfólio de produtos da cooperativa”, afirma Bernardina.

A instituição, acrescenta, vem atendendo às demandas dos agricultores de forma individualizada, analisando o impacto da frustração da safra e realizando renegociações. Também está buscando alternativas junto às fontes geradoras de recursos de crédito rural para melhorar as condições de amortização das operações diante da crise hídrica.

Os ativos tiveram alta de 22%, e agora a organização administra R$ 4,8 bilhões em bens e direitos. O patrimônio líquido também está mais valorizado: encerrou o semestre em R$ 1,1 bilhão. E o saldo de depósitos subiu 28% e fechou o semestre em R$ 2,7 bilhões. Os valores em poupança também registraram aumento de 4% e totalizaram R$ 482 milhões.

Nailson contou que a instituição se planejou para obter esses frutos positivos. “Mantivemos uma média de rentabilidade do patrimônio líquido de 25,5% nos últimos três anos, mas o importante é aproveitar muito bem esse resultado, então conseguimos aprovar junto aos cooperados 55% em reservas da operação, o que fez com que a nossa composição de patrimônio líquido melhorasse, e consequentemente, a cota de capital social”, explicou.

Outro fator que impacta os empreendimentos, especialmente os menores, é o desemprego. “O panorama de crise nos afeta diretamente, uma vez que gera muitas demissões. Aqueles que conseguem sobreviver a esse momento como empregados não nos trazem dificuldades, mas perdemos muitos cooperados”, observa o presidente da Credi-Garoto, Dimarcos Bertholini do Rosário. A organização tem como meta ampliar em 30% o número de associados nos próximos dois anos e chegar a 3 mil até 2020.
“Hoje trabalhamos com foco nas regionais; a Chocolates Garoto possui oito delas. Estamos também com um projeto já em andamento no Banco Central para tentar dar atenção às demais empresas do setor alimentício”, completou.

Na avaliação do diretor de Crédito e Fomento do Bandes, Everaldo Colodetti, o cooperativismo frente ao mercado profissional pode ser uma importante arma para solucionar o desemprego. Para ele, mesmo diante de tantos problemas, o sistema não deve se tornar um meio de precarização das relações de trabalho. “Os bons exemplos têm mostrado tradição e modernidade como aliados”, analisou.

O dirigente enfatiza que as expectativas de futuro para o cenário capixaba são positivas. “O cooperativismo capixaba tem governança, preocupação com o resultado, é voltado para potencialidade, alcance. E o caminho é esse.”

Saúde
O cooperativismo envolvendo profissionais de saúde é muito forte no Brasil. O setor está presente em 85% do território nacional. Localmente, além de 75% dos atendimentos em hospitais públicos do Espírito Santo serem efetuados por cooperativas, a Unimed Vitória possui 37% do mercado capixaba, está entre as 25 maiores empresas do Estado e é a primeira colocada em seu ramo de atuação.

“Temos hoje 2.300 médicos cooperados e mais de 324 mil clientes. Nossa estratégia de negócio passa pela qualidade do corpo de cooperados, pela construção de um novo modelo de assistência, focado na saúde preventiva e no cuidado integrado e também na oferta de serviços de excelência em unidades próprias e credenciadas”, afirma o diretor de Mercado da instituição, Remegildo Gava Milanez.

Problemas como judicialização da saúde, aumento da sinistralidade e falta de mão de obra qualificada estão entre os fatores prejudiciais às cooperativas da área que, segundo o diretor, só podem ser combatidos com maio envolvimento dos cooperados. “Sem dúvidas, são desafios que ameaçam todo o setor de saúde suplementar. Se conseguimos crescer e fazer nosso negócio evoluir e se tornar mais dinâmico e sustentável, é porque temos investido numa gestão eficiente, que persegue a qualidade diariamente, que se mantém vigilante em relação aos custos, que busca as soluções inovadoras. Práticas que só são possíveis porque temos a colaboração e a confiança do médico cooperado”, disse. Mas Milanez defende a necessidade de que a área da saúde seja reinventada no país, e o maior desafio hoje é focar a prevenção de doenças, visando à promoção da saúde. “A saúde pública e privada está falida. Passamos 17 dias na Europa estudando o cooperativismo e entendemos que o modelo antigo, em que o médico conhecia todo o histórico de saúde do paciente, tem se mostrado mais eficiente que o modelo adotado pelos Estados Unidos e pelo Brasil, com excesso de especializações. Por isso temos como meta investir ainda mais e ampliar o nosso modelo de atenção primária, na cultura da prevenção de doenças e no cuidado integral”, explicou.

Entre os resultados positivos previstos em 2016, o superintendente do Sistema OCB-Sescoop-ES, Carlos André Santos de Oliveira, citou a aplicação de R$ 100 milhões na infraestrutura interna das cooperativas; o apoio a 26 mil propriedades rurais capixabas na comercialização de produtos agropecuários, na agroindustrialização e na assistência técnica; e a realização de 6,1 milhões de atendimentos na área de saúde, entre consultas, exames e internações, envolvendo um custo total de R$1 bilhão ao longo do ano. Além disso, serão disponibilizados R$ 4,8 bilhões de crédito e financiamentos para todos os setores da economia capixaba e entregues 234 habitações, com investimento estimado em R$58,2 milhões. Esses números evidenciam ainda mais a relevância do setor para a economia local.

 A matéria acima é uma republicação da Revista ES Brasil. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.  
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