O Espírito Santo continuará a crescer?

A economia capixaba parece ter entrado nos trilhos novamente – o que não quer dizer que ela esteja seguindo na velocidade e direção desejáveis para que todas as perdas passadas sejam recuperadas e superadas em todos os níveis. A palavra do momento ainda é cautela. A priori, o Espírito Santo já está entre os primeiros “vagões”, mas ainda é preciso ter muito “combustível” para não perder essa posição e torná-la sustentável.

Apesar de extremamente úteis, as estatísticas conjunturais devem ser analisadas com cautela. Somente séries temporais mais longas podem balizar análises que tenham a finalidade de captar mudanças estruturais, principalmente no caso do Espírito Santo, que apresenta uma regularidade empírica marcante: quando o Brasil cresce, o Estado tende a crescer mais; quando o Brasil se contrai, o Espírito Santo tende a se contrair mais. Apesar de a economia capixaba apresentar oscilações mais amplas que a nacional, a capacidade de recuperação estadual é significativamente superior.

O Espírito Santo cresce a um ritmo forte. Por exemplo, um estudo recente relacionado ao PIB trimestral do Estado, calculado pelo Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), demonstra que, entre o quarto trimestre de 2009 e o primeiro trimestre de 2010, a soma de todos os bens e serviços finais produzidos em território capixaba registrou uma taxa de crescimento de +5,8% – duas vezes superior à do país, que ficou em 2,7%. Este resultado, para o órgão, fornece motivos para otimismo, especialmente se comparado com o primeiro trimestre de 2009, auge da crise no Estado, quando o crescimento registrado foi negativo: queda de -9,7%. Entretanto, a conjuntura econômica apresentou mudanças importantes no segundo trimestre de 2010, que já afetam alguns indicadores de atividade econômica do Estado. Um exemplo é a produção industrial, que recuou -2,8% em maio, em relação a abril de 2010.

Capacidade de resposta

Um ano e meio após a crise financeira do segundo semestre de 2008, o nível da produção industrial calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ainda não voltou completamente ao patamar em que se encontrava no período anterior à crise. De acordo com os dados do IBGE, de setembro de 2008 até maio de 2010 (último dado disponível) o Espírito Santo apresentou uma variação nesse índice de -0,39%, enquanto que o Brasil registrou -0,41%. Ou seja, os resultados foram praticamente idênticos e apresentam um leve padrão de acomodação do índice.

Mas de acordo com o IJSN, apesar disso, é importante notar que a velocidade de recuperação da indústria estadual tende a ser, em média, superior à do Brasil, chegando a atingir uma taxa de crescimento médio de 2,12% a.m. no período compreendido entre maio de 2010 e maio de 2009 (ao longo do mesmo período, a velocidade média de recuperação do índice nacional foi de 1,21% a.m., na mesma base de comparação).

O economista Clóvis Vieira considera que, no caso específico do Espírito Santo, segundo esses dados divulgados pelo IBGE para a produção industrial no primeiro trimestre de 2010, foi o Estado que experimentou o maior crescimento (+ 44,07 %) ante o mesmo período de 2009, bem superior à média nacional de (+ 18,08 %).

“Cabe notar, entretanto, que esses dados não supõem o retorno aos patamares de crescimento pré-crise, mas evidenciam que o processo de recuperação da produção industrial em nosso Estado deverá ser mais acelerado que no restante do país” registra Clóvis Vieira. Ele assegura, no entanto, que o atual momento vivenciado pela economia brasileira não poderia ser melhor, pois o salário real está em alta, o desemprego em nível baixo, o consumo avançando, o crédito em expansão, a inadimplência em baixa e os prazos de financiamentos mais longos. “Mas a alta dos juros e o freio ao setor exportador, condicionado à demanda externa, poderão resultar em um crescimento menor que o esperado pelo mercado. A previsão é de que, com a nova alta de juros, 7% passe a ser o limite superior de crescimento ao final de 2010”, projeta.

Ambiente de incertezas

O PIB capixaba vinha crescendo, sistematicamente, a taxas superiores às da economia nacional até o advento da crise, que perdurou por pouco mais de um ano. Nesse período, a situação se inverteu, apresentando a economia capixaba índices negativos de crescimento do PIB bem maiores que os da economia brasileira. Por outro lado, a recente retomada do crescimento ampliou ainda mais a distância entre os índices de crescimento do PIB, registrando-se 18,1% para o Espírito Santo, no primeiro trimestre de 2010 em relação ao mesmo trimestre do ano anterior, contra 9,0% para o PIB brasileiro.

“Apesar de parecer paradoxal, essa descolagem na tendência comprova a extrema dependência do Espírito Santo em relação aos mercados externos”, revela a professora do Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) Angela Maria Morandi. Ela explicou que grande parte do crescimento do PIB capixaba vincula-se à extensa carteira de grandes investimentos, especialmente aqueles vinculados à infraestrutura e à ampliação/modernização dos grandes projetos industriais exportadores aqui instalados, sem contar ainda com aqueles que se encontram em vias de instalação.

“Embora alguns projetos tenham arrefecido o ritmo no período da crise, essa retomada indica que são decisões irreversíveis. Os investimentos constituem, sem dúvida, o principal agregado para o desenvolvimento de uma economia”, revela a economista da Ufes.

Carro chefe: exportações

É da ala otimista o presidente do Sindicato do Comércio de Exportação e Importação do Estado do Espírito Santo (Sindiex), Severino Imperial, que aponta números crescentes das exportações, mesmo sem perder de vista os problemas no setor logístico. “A corrente de comércio do primeiro semestre de 2010 apresenta crescimento de 46%, se comparada ao mesmo período de 2009. Esse índice, muito positivo, é resultado do bom desempenho das exportações, que fecharam o semestre deste ano com o montante de U$ 4,8 bilhões, enquanto no mesmo período do ano passado o resultado foi de U$ 2,8 bilhões (crescimento de 71%)” informou.

Já as importações, contou o presidente do Sindiex, apesar de estarem se recuperando bem, fecharam o semestre com crescimento de 20%. O primeiro semestre de 2009 foi encerrado com o resultado de U$ 2,7 bilhões, enquanto o mesmo período de 2010 apresentou resultado de US$ 3,3 bilhões no total importado. “São números significativos, que demonstram a importância do setor para a economia do ES”, sublinha.

Em contrapartida, ele lembra também que são problemas recorrentes as obras do aeroporto, a dragagem da baía de Vitória, para permitir o acesso ao porto de navios de maior calado, e a recuperação e ampliação da malha rodoviária e ferroviária. “Sem essas providências, corremos o forte risco de perdermos em competitividade para outros estados brasileiros”, alerta Imperial.

Tempo nublado: nova crise internacional

Analisando a economia internacional o co-fundador da Rosenberg & Associados, Dirceu Bezerra Júnior, lembra que depois da crise de 2008, agora é a vez do revelado estado de insolvência da economia grega ter desnudado uma deficiência grave em termos de capacidade de pagamento em outras importantes nações européias, sendo esta a causa da instabilidade atual, que trouxe um clima de tensão aos mercados.

Na explicação de Dirceu Bezerra, em fevereiro deste ano a Grécia acendeu a luz vermelha para o déficit público dos PIIGS (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha). A partir daí, inclusive na reunião do G-20, em junho, formou-se um consenso de que o combate ao déficit seria prioritário. Combater déficits, como disse, significa aumentar impostos, diminuir despesas ou uma combinação de ambos, isto é, desacelerar o crescimento.

“Nos EUA, se desconsiderarmos o desalento e o emprego em meio período, o desemprego não cai (está em 16% há muitos meses); a confiança do consumidor titubeia, assim como o mercado imobiliário, com o fim do incentivo em abril (o presidente Obama não conseguiu prorrogar a extensão do auxílio desemprego para um milhão de americanos, encerrado em junho, devido ao déficit público, que, aliás, está na mira do Congresso). Ainda, há a ausência de regulamentação bancária, que dizem está para ser aprovada, e o fim da marcação a mercado, além de outras ‘mágicas’ contábeis. Em meio a tudo isso, até hoje ninguém sabe qual o tamanho e a localização exatos do problema chamado ‘ativos podre'”, revela o economista.

Desaceleração da economia

Dirceu ressaltou que o importante é deixar claro que parece que a lógica vai prevalecer e a economia vai voltar a precificar os mercados. “Se isto for verdade, e eu acredito que sim, estaremos vivendo nos próximos meses momentos de transição, com movimentos bruscos de volatilidade, até que se consolidem as novas expectativas econômicas e, aí sim, suas reprecificações nos mercados”, sublinha.

Considerando o cenário de uma recuperação muito lenta e desequilibrada da economia mundial, alguns reflexos para o Brasil poderão ser sentidos. “Os efeitos serão bem mais tênues que os de 2008, e de novo Brasil, Índia e China continuarão a ser ganhadores, no mínimo, relativos. O crescimento mundial em 2011 estará mais para 2,0% a 3,0% do que para 4,0%. Os preços das commodities e o comércio internacional terão leve queda em relação à média do 2º semestre de 2009 e 1º de 2010 (ajuste de estoques e especulação financeira)”, mapeou Dirceu.

Ainda sobre o mercado internacional, o economista Clóvis Vieira, complementando, afirma que a economia mundial vem apresentando um cenário cada vez mais desfavorável, com o crescimento da economia norte-americana abaixo do esperado pelos mercados; a China, com o aumento de preços e consumo desacelerando, deixando a posição de parte da solução para centro do problema; e a Europa em desaquecimento. “Partindo desta constatação, as suas implicações sobre a economia brasileira resultam na queda dos preços das nossas exportações, como resultante de uma demanda debilitada, e uma menor liquidez, com reflexo nas multinacionais européias. Com isso, o ritmo de crescimento da economia em 2011 deverá ser menos acelerado”, acredita Vieira.

E concluiu que o Espírito Santo, dada a sua grande vocação para o comércio exterior, sofre de maneira mais acentuada os impactos das oscilações dos preços das commodities, que funciona como um freio ao setor exportador, condicionado que está à demanda externa. “A permanecer este cenário internacional ao longo do semestre, será possível ter uma percepção de desaquecimento da economia. A indústria será penalizada pelos juros e pelo câmbio, ainda que os produtores de commodities estejam diante de uma demanda que os manterá em melhor posição” finaliza.

Mas o Espírito Santo tem demonstrado sinais de que é um importante ganhador relativo: apresentou alta velocidade de recuperação em um ambiente econômico bastante desfavorável, e pode repetir o desempenho em qualquer outro ambiente. Já possui um know how de crescimento, buscando, com o seu próprio combustível, sem asfixia, a demanda advinda de novos investimentos, impulsionando a sua economia a patamares positivos. Além disso, direcionando esforços em direção à diversificação de suas atividades e à busca por novos mercados.

Há de se ressaltar o crescimento da indústria da construção civil, o desenvolvimento das atividades ligadas ao agronegócio e sua diversificação, bem como, e não menos importante, a retomada da capacidade de investimento do governo estadual. Somados e com dados bem pontuais, a economia capixaba tem-se distanciado positivamente da nacional, mantendo-se na competitividade e assegurando credibilidade quanto à sua capacidade de recuperação.

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