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sábado, 8 agosto, 2020

O dia do homem

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A criação da homenagem parece resgatar a isonomia dos gêneros

Por Eustáquio Palhares

Eis que nesse 15 de julho passou a se comemorar o Dia do Homem, o contraponto nacional à data de 19 de novembro instituída por um médico de Trinidad e Tobago, Jerome Teelucksingh para reforçar uma mensagem dos cuidados de saúde que os homens devem adotar. No Brasil, muito antes, numa brincadeira de escritores paulistas, instituíra-se a celebração desse dia pela Ordem Nacional dos Escritores, mas com a data de 15 de julho.

Nesse caso, a dimensão do enaltecimento não se circunscrevia as necessidades de higidez masculina, mas ao resgate do gênero que, mesmo com o machismo inercial da sociedade patriarcal, vem perdendo terreno há anos.   Há um poema do escritor inglês Rudyard Kipling, “Se”, que estabelece patamares improváveis para que um homem se identifique como tal.

A criação da homenagem parece resgatar a isonomia dos gêneros. Se o machismo ainda é praticado e percebido como a atitude absolutamente descontextualizada de uma sociedade que é predominantemente feminina no conjunto da população, do eleitorado, da audiência de mídia, nas universidades e mesmo no mundo do trabalho, é certo que os que enrustiram o machismo para se mostrarem minimamente conectados também careciam de uma alforria. Ora, é delegacia de Mulher, é Dia Internacional da Mulher, há toda uma celebração da mulher que fazia sentido ao menos distinguir a contribuição modesta, um pouco além da do zangão na colmeia, que o homem entrega à família e à sociedade. Veja-se que um registro de nascimento dispensa a paternidade, prezando apenas a maternidade. O que importa e pelo qual o recém-nascido é identificado, é o nome da mãe. Ao homem concede-se o crédito de um acidente de percurso na vida da mãe.

A descartabilidade do homem com a emergência social da mulher e no Brasil sem o feminismo que é evidente no Primeiro Mundo e mais acentuadamente ainda na Escandinávia, se espalha por vários aspectos que vão do lar aos divãs. Com efeito, a função paterna deixou de ser privativa do pai, mas de quem efetivamente viesse a desempenhar tal papel. Mesmo que sendo …. Uma mulher. E na reconfiguração da família, o homem se viu apeado do papel nobre de provedor, em nome do qual descarregava toda a extenuante ocupação dos afazeres domésticos na mulher, para ser mais um integrante de um conjunto em que muitas vezes não se mostra tão imprescindível para manter.

Apesar dos laivos inerciais de machismo, a isonomia dos gêneros evolui principalmente para os empreendedores de quaisquer sexos que distingue claramente os atributos inerentes aos gêneros. Talvez por isso, e aí também, a mulher leve tamanha vantagem competitiva com sua orientação multifocada, holística, contrapondo-se ao padrão sequencial, monofocado do elemento masculino. Tanto que é um mistério da natureza, tanto quanto o besouro voa, contrariando as leis da aerodinâmica, como pode um homem mascar chicletes e andar.

Os séculos de opressão patriarcal em todas as sociedades – exceto nas comunidades indígenas onde o senso intuitivo de uma divindade feminina instituiu os conselhos da mãe e a conexão com a Natureza, está também reconhecida pelos atributos da maternidade provedora – decretaram o surgimento do radicalismo feminino como lógica reação de subversão a uma ordem estabelecida. Daí o caráter revolucionário do feminismo desde que a revolução é por essência uma inversão das polaridades que são revolvidas, vindo a de baixo para cima com a de cima descendo. A história mostra que qualquer opressão traz em si o germe de sua destruição por isso é mais que um manifesto de bom senso ou concórdia supor que a parte de cima se acomode de jeito a estar à altura, ao lado, da parte que hoje está na extremidade de baixo.

Certamente o espírito humano transcende a questão do gênero embora deva respeitar as peculiaridades, atributos e predisposições de cada um. A psicanálise reserva ao homem (ou a função paterna) a interdição do incesto ou a imposição da lei e à mulher a emanação do carinho e acolhimento. Pode ser que esse sejam padrões que se revogam agora à luz de um novo comportamento, novos costumes, uma nova moral. Cabe supor que os atributos de cada gênero lhes facultam para funções e atividades específicas, o que não significa um impedimento às adaptações que as circunstâncias impõem.

De minha parte, muito particularmente, e assumindo honestamente a condição do meu gênero, sempre percebi na mulher a melhor expressão da natureza, com suas características de oralidade, de subtextos em que falam algo pensando em outra coisa, com sua força dissimulada na capacidade de desestabilizar  um homem pelo choro. Na minha condição particular, o que mais tenho a lamentar dessas constatações é que o advento da emancipação feminina ocorre numa época em que a idade e a decadência física interditam a possibilidade de ser tratado por elas como desejaria: um objeto de consumo a ser coisificado. Porque se desconsiderarmos o texto tradicional que escala Deus no papel de Pai, o que temos é menção à Divindade, à Força, à Energia. Ao feminino, portanto…

Eustáquio Palhares é empresário, jornalista e especialista em Comunicação Empresarial.

ES Brasil Digital

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