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quarta-feira, 1 dezembro, 2021

O cansado rock brasileiro

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O rock é um dos estilos de música mais populares do mundo. Modinhas vêm e vão, mas o ritmo regado a guitarras elétricas permanece como herói da resistência.

Segundo historiadores, o marco zero do rock aconteceu em julho de 1954, quando um então jovem chamado Elvis Presley entrou no Sun Studios, em Memphis, e gravou That’s Allright Mamma. Naqueles tempos, Presley era um desconhecido caminhoneiro e só queria fazer um agrado para a sua mãe.

Por ter surgido da mistura de gêneros, entre o blues, soul music e, paralelamente, o funk, o rock acabou valorizando e projetando mundialmente a música negra em uma época de uma sociedade declaradamente segregacionista. Direta ou indiretamente, o novo gênero musical em muito colaborou com a luta de Martin Luther King, que atingia seu ápice na década de 60, pela igualdade entre negros e brancos. Os britânicos do Beatles, inclusive, recusaram-se a tocar para uma plateia segregada num show em 1961, nos Estados Unidos.

Não é à toa que o rock se tornou uma das mais importantes formas de manifestação cultural naquele período e se estendeu pelas décadas seguintes. A nova “autonomia” da juventude como uma camada social separada foi simbolizada por um fenômeno que, nessa escala, provavelmente não teve paralelo desde a era romântica do início do século XIX: o herói cuja vida e juventude acabavam juntas. Essa figura, antecipada na década de 1950 pelo astro de cinema James Dean, foi comum, talvez mesmo como um ideal típico, no que se tornou a expressão cultural característica da juventude – o rock.

Já no Brasil, o primeiro sucesso no cenário do rock apareceu na voz de uma cantora Celly Campello, que estourou nas rádios com os sucessos Banho de Lua e Estúpido Cupido, no começo da década de 1960. Em meados desta década, surge a Jovem Guarda com cantores como, por exemplo, Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa. Com letras românticas e ritmo acelerado, começa fazer sucesso entre os jovens.

Na década de 1970, surge Raul Seixas e o grupo Secos e Molhados. Na década seguinte, com temas mais urbanos e falando da vida cotidiana, surgem bandas como: Ultraje a Rigor, Legião Urbana, Titãs, Barão Vermelho, Kid Abelha, Engenheiros do Hawaii, Blitz e Os Paralamas do Sucesso. Na década de 1990, fazem sucesso no cenário do rock nacional: Raimundos, Charlie Brown Jr., Jota Quest, Pato Fu, Skank entre outros.

Foto: Reprodução

E tal e qual na política, o Rock Brasileiro foi nos anos 90 repleto de fracassos e fraudes, passando pela insipiência e total falta de criatividade. Com o início do terceiro milênio, o avanço tecnológico, as facilidades na veiculação e acesso à informação, poderia ter trazido às terras brasileiras no que tange ao Rock uma sedimentação. Mas o que ocorreu foi justamente o contrário. Os artistas das bandas “antigas” se cansaram das dificuldades e muitos abandonaram o barco, outros trocaram de bandeira e foram ganhar dinheiro mais fácil. A história foi se perdendo, as referências apagadas. Pouco sobrou e também pouco interessava a essa “nova” legião de “roqueiros” que tinham fácil acesso a instrumentos, sistemas de gravação e distribuição de música.

Um parêntese com relação a uma frase decantada, requentada e repetida por muitos músicos e artistas, de autoria de Milton Nascimento: “Todo artista tem de ir aonde o povo está.” Sob o ponto de vista de postura cultural e política, um artista tem que ser provocador e inovador, ditando tendências culturais, nunca ir na tendência da manada popular. Mas isso tem que ser levado “onde o provo está” e não esperar que este venha até ele. Em outras palavras, o Rock tinha que ter ido até as periferias, aos guetos mais pobres e mostrar ao “povo” seu espírito provocador e inovador, não esperar que ele saísse da periferia por livre e espontânea vontade e os fosse procurar em seus redutos. Mas a arrogância e a preguiça da maioria dos artistas fizeram com que preferissem ficar no papel de um Maomé esperando que a montanha chegasse até ele. Enfim, o Rock no Brasil perdeu sua grande oportunidade de ser o que foi na maior parte dos países onde se estabeleceu e se firmou.

Manoel Goes Neto é presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Vila Velha e diretor no IHGES

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