Novos hábitos mudam indústria de alimentos

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Sustentabilidade e responsabilidade social são os principais gatilhos dessa transformação

Mudanças nos hábitos de consumo, como a preocupação cada vez maior da sociedade em ter uma vida mais saudável já ocasionou, inclusive, o aumento de produtos integrais e orgânicos nas gondolas dos supermercados.

O novo comportamento demanda, também, transformações nos canais de distribuição que vivenciam o crescimento dos atacarejos e, consequentemente, a necessidade de as empresas se adaptarem ao novo formato. O tema foi abordado na última terça-feira (24) durante o Congresso Internacional da Indústria do Trigo.

Um dos palestrantes, João Dornellas, presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (ABIA), lembra recente pesquisa da Euromonitor International, que apontou 10 tendências globais de consumo, mostrando que as pessoas estão cada vez mais conscientes e tomando decisões de compra baseadas em valores.

“As preocupações sobre o bem-estar animal, sustentabilidade e o significado de um negócio responsável vêm ganhando força em todo o mundo, além da procura por alimentos com foco na saudabilidade”, explica

O presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (ABIA), João Dornellas (Foto – Divulgação)

A indústria de alimentos, desde seus primórdios, trabalha para desenvolver alternativas que atendam às novas demandas. “Ao observar os últimos avanços na oferta de produtos, deparamo-nos com uma grande variedade de alternativas para atender o consumidor”, salienta João Dornellas, enumerando: “Produtos light, diet, zero açúcar, zero gordura, sem glúten, sem lactose e integrais são alguns dos exemplos que podemos mencionar”.

O presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias e Pães & Bolos industrializados (Abimapi), Cláudio Zanão, também palestrante no mesmo painel, reitera que o consumidor está cada vez mais exigente, reforçando a ideia da saudabilidade dos alimentos.

“Diante disso, a indústria tem priorizado produtos que correspondam a essas necessidades, sobretudo no nosso segmento, que fabrica gêneros populares, enraizados no consumo há muito tempo”, destaca.

Outro fator apontado por Cláudio é o fato de a conjuntura econômica enfrentada pelo país desde 2015 ter acarretado a racionalização do consumo, um movimento que continua sendo observado no mercado.

“Ainda assim, os segmentos que representamos movimentaram R$ 26,6 bilhões no último ano, com 2,5 milhões de toneladas em volume de vendas. Internacionalmente, nossas categorias alcançaram mais de 120 países ao redor do mundo, com um total de 71,7 mil toneladas de produtos exportados, equivalentes US$ 136,6 milhões em 2018”, revela.

Presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias e Pães & Bolos industrializados (Abimapi), Cláudio Zanão (Foto – Divulgação)
Alimentação saudável

O presidente da ABIA salienta que, segundo levantamento da entidade, as vendas de alimentos industrializados que valorizam atributos de saúde e bem-estar foram estimadas em R$ 70,3 bilhões em 2018. Essa valor correspondeu a uma participação de 10,7% do total do setor, de R$ 656 bilhões. “Nos últimos cinco anos, as vendas da indústria de alimentos desses segmentos cresceram, em média, 3,1% ao ano”.

Para responder a essa demanda de saudabilidade, a indústria, a partir de pesquisas e implementação de novas tecnologias, tem desenvolvido inúmeros produtos com características funcionais e maior densidade nutricional. Muitos alimentos ganharam versões com menos calorias ou com adição de proteínas, fibras, vitaminas e minerais.

“Também mantemos acordo de cooperação técnica com o Ministério da Saúde, visando ao desenvolvimento do Plano Nacional de Vida Saudável, que inclui a melhoria no perfil nutricional dos alimentos industrializados. Nesse âmbito, já foram retiradas 310 mil toneladas de gorduras trans e mais de 17 mil toneladas de sódio de 35 categorias de alimentos industrializados. A meta é alcançar 28 mil toneladas em 2020”, informa Dornellas.

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Ministério da Saúde

Há, ainda, o Plano de Redução de Açúcares, acordo firmado em novembro de 2018, que prevê a retirada de 144,6 mil toneladas, de 23 categorias de alimentos até 2022. Diversas empresas já têm produtos com redução de açúcares e metas definidas para a retirada do teor do nutriente para os próximos anos.

Cláudio Zanão, presidente da Abimapi, revela que a entidade também tem formalizado acordos semelhantes com o Ministério da Saúde. “Em 2011, firmamos o compromisso para limitar a quantidade de sódio dos produtos que representamos e os resultados alcançados foram significativos”.

Segundo o Instituto de Estudos em Saúde Coletiva, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), os índices de 2016 comparados aos de 2008/2009 indicaram que o biscoito recheado apresentou queda de 34% no teor de sódio, o salgado de 16,6%, e o doce de 9,6%; no pão de forma e no cereal matinal, o teor caiu 2,8% e 6,1%, respectivamente. Em 2017, firmou-se novo acordo, com metas anuais e prazo de cinco anos.

“Em novembro de 2018, assinamos um acordo com Ministério da Saúde para a redução de açúcar nos alimentos industrializados. Objetivo é que o setor contribua para a diminuição do consumo do ingrediente pela população brasileira para menos de 10% do total das calorias diárias ingeridas até 2022”, explica Zanão.

“Em paralelo, sabemos que precisamos incentivar e orientar a sociedade de maneira inteligente, mostrando que os biscoitos, massas, pães e bolos Industrializados não são os vilões da dieta. Além de saborosos, possuem atributos voltados à saudabilidade e podem fazer parte de uma alimentação equilibrada, fornecendo os nutrientes necessários”, completa.

O presidente da Abimapi frisa que grãos integrais são nutrientes que elevam a qualidade da dieta alimentar. No entanto, a ausência de critérios de composição e rotulagem em produtos à base de cereais integrados constitui um vácuo regulatório.

Com suporte especializado, a Abimapi colabora com a Anvisa para definir a normalização Os tópicos em análise incluem a busca de consenso em torno de uma definição técnica de farinha integral, o estabelecimento de um teor mínimo de cereais integrais que identifique um produto como integral e, no campo das embalagens, a descrição da quantidade de produtos integrais no rótulo frontal. Essa regulamentação deverá ser concluída até o final de 2019.

Sobre a saudabilidade e sustentabilidade dos produtos, premissas atuais da indústria de alimentos e que provocam mudanças no mercado consumidor, Zanão observa: “Temos de lembrar, também, que o nosso baixo poder aquisitivo sempre será um moderador na aquisição destes itens, que muitas vezes são nichos de mercado”.

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Obesidade e glúten

O presidente da ABIA cita a pesquisa Vigitel 2018, indicando que os índices de obesidade voltaram a crescer no Brasil, principalmente entre adultos com mais de 25 anos. Mostra, ainda, que os brasileiros que afirmam consumir frutas e hortaliças aumentou 15,5% entre 2008 e 2018 e o dos que declaram praticar atividades físicas subiu 25,7% entre 2009 e 2018.

“São dados que reforçam a complexidade e a multifatorialidade da obesidade, já que hábitos de vida melhoraram e ainda assim o problema segue crescendo no País. Isso comprova, portanto, não existir um único fator responsável por causar diretamente a obesidade”, reforça.

Por sua vez, o presidente da Abimapi explica não haver comprovação de que o glúten seja nocivo à saúde ou associado à obesidade. “Produtos glúten free existem unicamente para atender as pessoas que têm a doença celíaca, que passaram a ter vários alimentos industrializados disponíveis no mercado. Nosso dever como entidade representativa das categorias de biscoitos, massas, pães e bolos industrializados, que têm, em sua maioria, a farinha de trigo como matéria-prima principal, é fornecer informações de qualidade, embasadas em estudos científicos e por nutrólogos e nutricionistas, para orientar e direcionar o consumo consciente”.

Dentre todas as categorias de alimentos funcionais, naturais ou com apelo de saudabilidade, os sem glúten têm a maior previsão de crescimento no Brasil até 2022, com aumento nas vendas estimado entre 35% e 40% ao ano. Hoje, o consumo anual de pães sem glúten está em pouco mais de US$ 1 dólar per capita no Brasil. Bolos e massas sem o componente têm o consumo ainda abaixo de US$ 0,50 per capita.

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