21.3 C
Vitória
domingo, 23 janeiro, 2022

Nada de novo sob o neon

Mais Artigos

Em 2021 faltaram paciência, amor e empatia, sobrando preconceito religioso, sexual, racial; etarismo e violência contra minorias

No crepúsculo do ano as reflexões revisitam a necessidade de uma nova consciência 2021 nasceu com um peso às costas, herdado do ano anterior: uma doença mortal, imprevisível, com chances de sequelas importantes, além de hábil em detonar economias e deteriorar relações. As desavenças em seu trato, inclusive, causaram tanto dano quanto o próprio mal. Ciência e governos mediram forças. Torre de Babel que confundiu pessoas e confrontou ideologias, no seio de uma humanidade dividida e conflituosa.

O afeto, que já andava em baixa, despencou, sendo o abraço substituído por socos entre mãos; e o beijo impedido por máscaras. Em 2021 faltaram paciência, amor e empatia, sobrando preconceito religioso, sexual, racial; etarismo e violência contra minorias. Feminicídio e desemprego ascenderam. Peneirando o cerne das questões, persistem: egoísmo, intolerância, gana de poder e dinheiro.

A política seguiu ignorando questões essenciais e coletivas, priorizando interesses eleitoreiros e autoproteção de partidos e parentes. Estados parcamente laicos juntaram-se a religiões terrivelmente financeiras, ambos falsamente morais. Mantiveram-se a corrupção, o tráfico de influência e o nepotismo. A esfera ambiental tornou-se objeto de disputas insanas, tanto para o pró quanto para o contra. Em 2021, de grau em grau, a negligência fóssil e a hipocrisia internacional encheram o papo das crises climáticas e das Conferências inócuas.

 A cultura esquivou-se como pôde de “arminhas” que miraram artes e artistas; jornalistas, instituições, ativistas, crenças, referências e cientistas. Sequer nasceu um estadista! Não se criou uma pintura admirável; uma escultura genial ou uma canção inesquecível. Na música, a falta de criatividade ficou mais visível.

A imaginação deixou de buscar harmonias que privilegiassem mente e alma, para limitar-se ao ritmo. Intuito de mexer o corpo (mecânica sensual) e não de elevar o espírito (audição sublime)? A dimensão Social nunca sofreu tanto – evitavelmente – quanto neste ano. Os sistemas de proteção e atendimento social falharam: educação, saúde, segurança e qualidade de vida em geral retrocederam. Famílias reviraram lixo no Brasil atrás de comida. Ignorada como algo grave, a Burnout multiplicou-se e a depressão continuou no topo, como as drogas.

Se a sustentabilidade confirmou, em 2021, quão perigosa pode ser a desarmonia entre suas dimensões, foi na Espiritual onde se percebeu maior involução. Sem uma visão holística nas gestões; escorregando-se na integridade e sem intenção aparente de resgatar as raízes emocionais da responsabilidade, o mundo continuou injustamente assimétrico em seu processo de crescimento. Falsamente interessado em liberdade real, ecologia e direitos humanos.

E, visivelmente chafurdado nos mesmos atoleiros. Parafraseando o vanguardista psiquiatra Tião Lyrio, “nada de novo sob o neon”. Mesmo sem a chance de algo uniforme (todo mundo ao mesmo tempo) e homogêneo (todos no mesmo nível), que o Ano Novo nos comprove a urgência de um novo pensar, capaz de inspirar uma consciência coletiva que seja, ao menos, humana.

Sidemberg Rodrigues é Professor de Sustentabilidade em cursos MBA, escritor e cineasta

Continua após publicidade

Fique por dentro

Vida Capixaba