Max Gehringer – Dicas para profissionais

"A queixa mais frequente é a da falta de perspectivas no emprego atual. Isso se deve muito mais à pressa, porque promoções demoram. Outro motivo frequente é o da falta de entendimento com o superior direto. E isso trava qualquer carreira”

“Se considerarmos todos os jovens com idade para trabalhar, o índice passaria dos 30%. Isso é uma tragédia, porque a crise econômica já dura quatro anos, e uma geração de jovens não está conseguindo ingressar no mercado de trabalho”

Um dos mais renomados especialistas em Gestão Empresarial, autor de vários livros – entre os quais “Comédia Corporativa”, “Emprego de A a Z” e “Aprenda a Ser Chefe” – e comentarista de TV e rádio, Max Gehringer esteve recentemente no Espírito Santo.
Em evento promovido pelo Sindicato do Comércio Atacadista e Distribuidor do Espírito Santo (Sincades), ele ministrou a palestra “Desafios Venda Mais”. Em seguida, falou com exclusividade à ES Brasil. Entenda como agir no mercado de trabalho, na entrevista a seguir!

Quais os principais desafios profissionais hoje?

Aos jovens, encontrar um emprego satisfatório. Atualmente, o maior índice de desempregados no Brasil está na faixa dos 18 aos 25 anos. Um em cada quatro jovens que poderiam estar trabalhando não está. E isso segundo as medições oficiais, que contabilizam apenas aqueles procurando trabalho. Se considerarmos todos os jovens com idade para trabalhar, o índice passaria dos 30%. Isso é uma tragédia, porque a crise econômica já dura mais de quatro anos, e uma geração de jovens não está conseguindo ingressar no mercado de trabalho. Quanto aos profissionais de qualquer idade que estejam empregados, o desafio é se manter atualizado. Muita gente deixou as salas de aula quando o estudo não fazia tanta falta, mas agora curso superior é pré-requisito. Isso não quer dizer que um profissional sem uma faculdade corre o risco de ser dispensado do emprego que tem, mas significa que será muito difícil se reempregar nas mesmas condições caso seja demitido.

Qualificação é um dos pilares para uma vida profissional desenvolta, mas quais outros métodos o senhor recomenda?

O networking, a rede de relacionamentos pessoais. Hoje em dia, com a escassez de vagas, acredito que perto de 70% dos empregos para não iniciantes sejam conseguidos por meio da indicação ou referência de alguém que esteja empregado. As redes profissionais de relacionamentos permitem que um profissional faça parte de grupos capazes de se auxiliar mutuamente. E as redes sociais permitem manter contato com antigos colegas de trabalho ou com antigos professores. Muita gente que ignora essa possibilidade reclama que alguém somente conseguiu um emprego porque é parente ou amigo, mas isso não começou ontem. Na carta de Pero Vaz de Caminha, há cinco séculos, o nobre escriba solicitou ao rei Dom Manuel a transferência de seu cunhado da África para Portugal. Esse foi o primeiro documento grafado em terras brasileiras e já continha o networking, embora não com esse nome.

Após a reforma trabalhista, empresários continuam investindo nos funcionários? Ou qualificá-los já não é mais prioridade?

Parece até óbvio que a maioria das empresas irá preferir ter colaboradores autônomos a manter empregados efetivos, porque o custo trabalhista é menor. Isso quer dizer que, em breve tempo, as empresas manterão como efetivos apenas aqueles que realmente forem indispensáveis, ou que tenham um claro potencial futuro. E esses é que serão agraciados com pagamentos de cursos, por exemplo. A qualificação, que durante muito tempo foi delegada à empresa, se tornou uma responsabilidade pessoal. Um profissional investe em sua própria qualificação, porque isso será bom para sua carreira, e não para seu emprego atual.

A estabilidade passou a ser algo difícil no mercado de trabalho. Os profissionais de hoje ainda valorizam isso?

Os profissionais, sem dúvida. Basta ver a quantidade de inscritos em concursos públicos, que têm como um de seus principais atrativos a estabilidade. Mas o mercado em geral passa por um momento meio insólito. Jovens profissionais mudam constantemente de emprego, na maioria dos casos apenas por mudar. E profissionais mais antigos tendem a ser mais estáveis, porque chegaram a uma idade em que se manter onde estão faz mais sentido do que correr riscos. Recentemente fui palestrar em uma empresa cujo tempo médio de casa era de sete anos, só que não havia nenhum empregado com sete anos de casa. Os novos saíam em menos de dois anos, e os mais antigos já estavam havia mais de 10 anos. Existem três motivos para alguém mudar de emprego: remuneração no mínimo 10% maior; melhores oportunidades de desenvolvimento e ascensão; e ambiente de trabalho mais aceitável. Quem tem um salário razoável, vê oportunidades para crescer e gosta do ambiente não tem nenhuma razão para mudar.

“Existem três motivos para alguém mudar de emprego. Uma remuneração no mínimo 10% maior, melhores oportunidades de desenvolvimento e ascensão, e ambiente de trabalho mais aceitável. Quem tem um salário razoável, vê oportunidades para crescer e gosta do ambiente não tem nenhuma razão para mudar.”

Mas é possível manter essa estabilidade profissional?

Sem dúvida. Quem consegue resultados acima do esperado não é demitido. Empresas não dispensam alguém que é produtivo só para contratar outro mais barato e correr o risco de ver a produtividade cair. Costumamos dar ênfase ao número de desempregados, mas é bom lembrar que o número de profissionais empregados é seis vezes maior, e pelo menos a metade deles é bem estável. Além disso, não somente empreendedores no sentido antigo, o de dono, mas também de profissões que nunca existiram, como blogueiro, youtuber, influencer, motorista de Uber, ou assessoria de imprensa, para profissionais que nunca tinham pensado nessa possibilidade, como gestores de empresas. Tudo é uma questão de enxergar oportunidades fora daquele círculo em que elas sempre estiveram contidas, a do empregado ou a do dono de uma loja.

Em meio a tanto desemprego, como sair na frente e se destacar no mercado de trabalho?

Uma opção é não pensar que o mercado de trabalho seja a única solução possível. O empreendedorismo faz muito mais sentido, principalmente para jovens bem formados. Há uns 10 anos, tínhamos menos de 5 milhões de micro e pequenas empresas legalmente constituídas. No ano que vem, deveremos chegar aos 10 milhões. Por vocação ou por necessidade, a opção de trabalhar por conta própria vem gerando muito mais emprego do que as vagas oferecidas por empresas. Uma sugestão, mesmo para quem nunca cogitou ser empresário, é fazer o curso Empretec do Sebrae, para entender o que é preciso para montar um pequeno negócio.

Melhor investir em uma startup, que virou febre, ou em uma franquia?

Uma startup é algo que não foi feito antes, logo o risco é maior. Uma franquia já traz tudo mastigado, o que minimiza a quantidade de possíveis erros. O índice de franqueados que devolvem o negócio aos franqueadores em menos de três anos está abaixo de 10%. Comparativamente, há mais possibilidade de sobrevivência como franqueado do que como empregado.

Em seu livro “Sua Carreira Direto ao Ponto”, o senhor responde às dúvidas de vários profissionais. Quais as mais frequentes?

A queixa mais frequente é a da falta de perspectivas no emprego atual. Isso se deve muito mais à pressa, porque promoções demoram. Outro motivo frequente é o da falta de entendimento com o superior direto. E isso trava qualquer carreira. Nunca vi ninguém peitar o chefe e ser promovido. Mas é bom lembrar que as respostas que dou no livro foram extraídas de comentários que faço há 15 anos na rádio CBN, e ninguém nunca me escreveu para dizer que está bem e que não precisa de nada. Eu assumo que no mercado de trabalho haja mais contentes do que descontentes, mas o objetivo de minhas respostas é ajudar os profissionais a refletirem sobre sua própria situação, a partir das dúvidas dos que enfrentam algum problema.

“O técnico consegue emprego mais facilmente e, estando dentro da empresa, poderá continuar seus estudos e ir progredindo na carreira”

Como construir uma carreira promissora?

Começando com um curso técnico. Há empregos de sobra para técnicos, como mecânicos, carpinteiros ou encanadores, mas a maioria dos jovens neste século optou por pular direto para uma faculdade. Isso criou uma sobra de bacharéis e uma escassez de técnicos. Não se trata de escolher entre um curso técnico ou um superior, mas de fazer os dois no devido tempo. O técnico consegue emprego mais facilmente e, estando dentro da empresa, poderá dar continuidade aos estudos e ir progredindo na carreira.

O que incluir em um currículo em busca de uma oportunidade de trabalho?

Antes é necessário buscar mais informações sobre a empresa para a qual vai se candidatar. Por exemplo, se no site da organização diz que o forte dela é atuar na área de responsabilidade social, nesse momento o candidato precisa inserir experiências que atendam a esse pré-requisito para se destacar. O erro que a maioria das pessoas está cometendo é disparar o mesmo currículo para várias empresas em método de mailing. O candidato pode até enviá-lo, mas nenhuma vai contratá-lo, por isso é importante estar muito atento ao que vai ser inserido nesses documentos.

 

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