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quarta-feira, 16 junho, 2021

Margareth Dalcolmo: a incansável médica capixaba da linha de frente no combate à Pandemia

“As vacinas são, sem dúvida alguma, a arma mais segura e poderosa contra a covid-19”.

Isso é o que afirma a pneumologista capixaba e pesquisadora da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz) Margareth Dalcolmo, de 65 anos. A médica está na linha de frente do combate à covid-19 no Brasil desde o início da pandemia, em março de 2020, e se tornou uma das principais vozes de referência sobre o assunto.

A especialista explica em entrevista exclusiva à ES Brasil, que o Programa Nacional de Imunizações (PNI) precisa vacinar dois milhões de pessoas por dia, para que consigamos ter uma “imunidade comunitária adequada”. No entanto, o ritmo de imunização segue ditado pela indisponibilidade de vacinas. O país imuniza, atualmente, cerca de 400 mil pessoas por dia, segundo dados das Secretarias de Saúde. Desde o início da vacinação, no dia 17 de janeiro, quase 30 milhões de pessoas foram vacinadas no Brasil, o equivalente a 13% da população.

São quase 400 mil mortes e cerca 14 milhões de pessoas infectadas pela covid-19 no Brasil. Esse número poderia ser evitado?

Sim. Nós estamos vivendo o pior momento da pandemia no Brasil. Não há dúvida de que o impacto dessa tragédia poderia ter sido atenuado. Obviamente, não teria sido completamente evitado, mas poderíamos, ao menos, ter atenuado o tamanho do luto que vivemos hoje. Se todos nós tivéssemos tomado, no momento do primeiro pico epidêmico, medidas restritivas à mobilidade social, negociado os estudos sobre a vacina no país no momento correto, e incentivado medidas protetivas para comunidades em situação de vulnerabilidade para manter o distanciamento social, hoje, sem dúvidas, não teríamos uma situação tão caótica.

Você acredita que a postura negacionista por parte das autoridades públicas foi um dos fatores que piorou o cenário atual no Brasil?

Sim. Os exemplos que citei acima deveriam ter sido iniciados pelos órgãos governamentais. Esse paradoxo de retóricas das autoridades públicas foi profundamente prejudicial para o Brasil. O governo deveria ter orientado a população. Essa tensão desnecessária, infelizmente, ajudou para que a tragédia se tornasse pior no nosso país.

Qual é a expectativa em relação à chegada de novas doses das vacinas no Brasil, principalmente no Espírito Santo?

O Brasil precisa ter muito mais vacinas, e é necessário imprimir um ritmo muito mais ágil de vacinação. Para termos 150 milhões de brasileiros vacinados ao longo dos próximos meses, precisaríamos vacinar dois milhões de pessoas por dia. Mas o ritmo está ditado pela indisponibilidade de vacinas. Como nós deixamos de negociar as doses no tempo correto – meio do ano passado -, hoje o mundo todo disputa muitas vacinas. Para ter uma ideia, dez países já compraram 75% da produção mundial de vacinas. O Brasil está muito abaixo nessas negociações.

Por que é importante pensar na vacinação como uma medida de proteção coletiva e não apenas individual?

Porque a solução para todas as viroses agudas, historicamente, é a vacina. Não existe remédio para tratar a covid-19. A vacina é a única solução. Precisamos vacinar toda a população, e precisa ser rápido.

O Senado divulgou uma pesquisa afirmando que 14% da população brasileira não quer se vacinar. O que explica isso?

Esse pensamento se dá pela falta de informação adequada. Todos nós precisamos melhorar nossos mecanismos de comunicação. É necessário transformar a informação científica para uma linguagem que possa ser entendida pela população. Precisamos passar a confiança que as vacinas merecem.

A vacina pode ser aplicada nas gestantes?

Sim. As vacinas são extremamente seguras e podem ser aplicadas até nas pacientes grávidas. Hoje, as gestantes podem ser vacinadas, embora não sejam prioridade e nem formalmente indicadas. E digo mais: se eu tivesse uma filha gestante, já teria a levado para vacinar. Em relação à vacinação nas crianças, nós ainda precisamos ainda ter resultados dos estudos que já se iniciaram com a população infantil. As vacinas são, sem dúvida nenhuma, a arma mais segura e mais poderosa contra a covid-19.

A vacina pode ter efeito colateral?

Toda vacina pode ter efeito colateral. São taxas de efeitos colaterais esperadas e não são graves. Foram atribuídos a algumas vacinas, como por exemplo, a da Johnson & Johnson e AstraZeneca, alguns episódios de embolia e trombose. São episódios que até podem estar relacionados à vacinação, mas precisamos pensar nos números. Mais de 200 milhões de pessoas já receberam doses dessas vacinas no mundo, e houve pouco mais de 60 episódios que necessitaram investigação para saber se estavam ou não relacionados. Tudo isso tem que ser esclarecido e, se tiver alguma relação, será uma proporção tão pequena que não vale a pena colocar em risco a maior medida de saúde pública que temos atualmente.

Para finalizar, é possível imaginar que, daqui a um ano, em abril de 2022, a nossa vida já esteja mais parecida com o que conhecíamos de normalidade?

Eu acho que vamos sempre nos referir, metaforicamente, a dezembro de 2019 como “outra era”. Dificilmente nossa vida ficará igual. Eu acho que a covid-19 é um fenômeno demarcador de nossas vidas e nós vamos levar muito tempo para superar. Nossos comportamentos serão completamente diferentes daquela “distante era” de dezembro de 2019. O uso de máscaras, por exemplo, irá permear por muito tempo ainda. Quem terá coragem de embarcar em um transporte coletivo sem máscara? E em um avião? Inclusive, será norma sanitária internacional embarcar em um avião estando vacinado. São condutas que vão mudar nossas vidas.

Ouça o podcast com a entrevista da Dra. Margareth Dalcomo à ES Brasil

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