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domingo, 21 abril, 2024

Mães à beira de um ataque de nervos

Não há descanso para as mamães, em casa, durante a pandemia

Por Letícia Vieira

Patrícia achou estranho o silêncio repentino, fazia meses que aquilo não acontecia: “Ah, que saudade do som do silêncio!”. Mas, antes mesmo que pudesse desfrutá-lo, uma sensação tomou conta do seu corpo, e ela pôs-se a procurar as crianças. São três filhos: os gêmeos, de 4 anos, e Henrique, de 2. Qual não foi sua surpresa quando os encontrou na varanda de casa, brancos, no chão.

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O talco para os pés do papai haviam pintado todo aquele cômodo da casa. Gustavo, um dos gêmeos, já prevendo uma reação nada feliz da mamãe, tentava limpar o chão com o primeiro pano que encontrou pela frente. Gael, com as mãos na cintura, dedurava o irmão: “Foi Gustavo que pegou e ele não te pediu permissão”. Henrique, não entendendo bem o que estava ocorrendo, ainda aproveitava os poucos minutos junto com a nova distração. Sem saber se ria ou se brigava, Patrícia se viu, mais uma vez, à beira de um ataque de nervos.

A pandemia obrigou toda a sociedade a mudar. Mudar hábitos, a forma de olhar a sociedade, as relações. Mas impôs às mães uma rotina ainda mais exaustiva. Determinou a soma de trabalho em casa com mais trabalho em casa. Filhos, marido, home office, comida, limpeza, estudos e diversão: tudo junto, ao mesmo tempo, agora.

 

O dia a dia

A rotina antes da Covid-19 já não era fácil. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) referente a 2019 aponta que as mulheres que trabalham dedicam em média 18,5 horas para afazeres domésticos. Isso, antes da pandemia. Cozinhar, lavar louças e roupas, realizar pequenos reparos em casa, limpar a residência e o quintal, pagar contas, fazer compras e cuidar dos animais domésticos engrossa a lista de tarefas na rotina feminina, que inclui ainda os estudos e a profissão.

Mães à beira de um ataque de nervos
“Sabemos que a sobrecarga aumenta com a necessidade de todos permanecerem mais tempo juntos dentro de casa e pelo fato de a maioria das mulheres terem que conciliar a vida profissional, maternidade e afazeres domésticos” – Brunella Aloquio, psicóloga – Foto: Divulgação

Em geral, homens têm participação mais elevada para pagar contas e fazer consertos e compras para os lares. Dessa forma, a jornada semanal feminina demandava 53,3 horas em 2019, sendo 34,8 horas de emprego e 18,5 horas de cuidados da casa e da família. Se os números já eram discrepantes antes do novo coronavírus, existe espaço para imaginarmos os resultados que serão divulgados em 2021?

Patricia Vieira, a personagem da abertura desta matéria, conta que no início da quarentena, quando não tinha faxineira, mas contava com o marido em casa, era tudo corrido e um tanto tumultuado! “Isso porque tudo aquilo era novidade, e manter três crianças pequenas em um apartamento não era uma tarefa fácil. Eu tinha acabado de me mudar de uma casa com piscina e quintal para um apartamento e não podíamos ocupar área de lazer, por conta da restrição da pandemia. Dividir-me entre arrumar a casa, lavar roupa, cuidar das crianças, amamentar e fazer atividades da escola era superdesgastante! A comida era por conta do maridão!”

Depois de 15 dias, o esposo voltou ao trabalho e a faxineira passou a ir uma vez na semana. “Ainda era muito complicado ficar por conta de três pequenos, sozinha, e conseguir conciliar tudo! Cuidar, fazer atividades da escola do trio, dar comida e comer, brincar, cuidar da casa, botar roupa pra lavar, enfim, neste período eu quase enlouqueci! Agora, podemos dizer que temos uma rotininha. Trabalho fora duas vezes na semana e a minha faxineira/babá/braço direito e esquerdo está indo todos os dias! Confesso que há dias que ainda perco as estribeiras e acho que vou surtar. Afinal, ainda não podemos sair de casa e fazer tudo que antes fazíamos com as crianças”, afirma.

Patrícia ainda complementa: “Via-me na obrigação de ter a casa limpa, roupas em ordem, crianças felizes e ao mesmo tempo quietas dentro de casa, sem brigar e sem implicar com o irmão! Esquecemos que está difícil para elas também! Chorei alguns dias, sem que ninguém visse, pedindo aos céus ajuda para continuar e paciência com os meninos e implorando para que tudo voltasse ao normal e eu pudesse voltar ao trabalho! Culpei-me por não conseguir fazer tudo ao mesmo tempo! Hoje estou bem mais tranquila.
A gente se acostuma, né? Para de se cobrar tanto e percebe que nem tudo vai ser perfeito como sonhamos! Hoje sigo sendo mãe, professora e dona de casa e ainda consegui um espacinho aqui dentro de mim para empreender!”

Mães à beira de um ataque de nervos
“Pare de se cobrar tanto e perceba que nem tudo vai ser perfeito como sonhamos! Hoje sigo sendo mãe, professora e dona de casa e ainda consegui um espacinho aqui dentro de mim para empreender!” – Patricia Vieira Moreira, mãe e empresária, ao lado dos filhos e do marido – Divulgação

Sem a presença do pai

Janaina Pacheco é funcionária pública e vive sozinha com a filha, de 10 anos. No início da quarentena, ela admite ter sido bem difícil administrar os tempos e horários. “Pareciam férias sem ser.

Além disso, precisei entender a lógica das aulas on-line. Tive alguns problemas de acesso, precisei incentivar a minha filha nos estudos, cuidar da casa. Enfim, foi uma situação muito nova”, conta ela, que relata também como ficou a relação com a funcionária que a ajuda em casa. “Quando começou a quarentena, afastei minha faxineira, que vinha à minha casa duas vezes por semana. Então, era trabalhar, auxiliar e acompanhar os estudos, cuidar da casa, fazer almoço. Mil e uma utilidades. Como somos eu e minha filha em casa, confesso que foi bem cansativo. Não consegui fazer meus exercícios direito, pois estava morta no fim do dia.”

Sobre a atividade escolar, quando o modelo de aulas mudou, ela conseguiu ajustar melhor a rotina. “Acordamos às 7h para o café da manhã. As aulas começam às 8h. Então, verifico e faço minhas tarefas do trabalho, sempre ao lado, acompanhando as aulas. Faço almoço, que é uma coisa que às vezes não estou com a menor paciência, mas vamos lá. À tarde tem aula das 13h30 às 17h30. Então, nesse período, trabalho e estudo, enquanto minha filha acompanha as aulas. A demanda por atenção é grande, pois estamos as duas isoladas há meses. Às vezes faltam paciência e humor, mas é preciso respirar e continuar.”
Janaina afirma que este tem sido um período de grande aprendizado. “Eu e minha filha estamos muito próximas e o carinho e cumplicidade são cada vez maiores, embora isso também sobrecarregue as emoções, pois respondo a tudo: casa, comida, trabalho, escola, desânimo para o estudo. Diria que estamos indo bem, foram períodos iniciais de altos e baixos, mas agora parece que as coisas se encaixaram, ou estão com tendências a melhorar.”

Importância da rotina

A psicóloga Brunella Aloquio concorda que é importante estabelecer uma rotina, mesmo em um momento tão atípico como o que estamos vivendo. “Mas que seja uma rotina flexível e não muito rígida”, alerta a profissional, que ainda reforça a necessidade de tentar manter o máximo possível a agenda anterior à quarentena quanto aos horários de refeições, estudos, atividades com os filhos e exercícios físicos. “Porém, é normal que haja mudanças e a necessidade de adequação dessa rotina à realidade atual de cada família.”

Outra dica dos profissionais é envolver as crianças e adolescentes nesse arranjo. Isso contribui para que se sintam mais pertencentes e seguros, o que por sua vez ajuda no comprometimento com regras, por terem sido construídas em conjunto.
Elaborar uma rotina – diária e semanal – é importante para que todos os membros da família possam ter suas necessidades atendidas, além de reduzir a ansiedade na medida em que cada um sabe o seu papel e o que precisa fazer. Para Brunella, “quando a gente para e organiza essa rotina, consegue equilibrar os momentos de trabalho e lazer, de interação e autonomia.

Ou seja: planejar momentos de descanso e de ‘fazer nada’ também é um exercício muito bem-vindo!”. É importante ainda salientar que estamos vivendo uma situação atípica e anormal, então muitas reações como medo, ansiedade, irritação, tristeza e insegurança neste momento passam a ser absolutamente normais. Para Brunella, uma boa atitude é “traçar metas possíveis e ter expectativas realistas. Não adianta se cobrar para executar algo que é inviável nesse contexto. Outro fator que ajuda muito é estabelecer prioridades nessa rotina, focando aquilo que é realmente importante em cada situação”.

Ela ainda faz um alerta e chama atenção para o fato de que devemos “entender e aceitar que a mulher não precisa dar conta de tudo! Mais do que nunca, é necessário dividir responsabilidades e tarefas dentro de casa, sobretudo com relação ao cuidado com os filhos: aprender a pedir e a aceitar ajuda, inclusive de crianças e adolescentes, e compreender que não existe uma receita pronta sobre o que é ser uma boa mãe e que você está em constante aprendizado e construção do seu papel materno, do seu jeito”.

Como fica a saúde mental

As mulheres já são mais afetadas por transtornos ansiosos quando comparadas aos homens, e isso levanta preocupações, sim, pois a sobrecarga aumenta com a necessidade de todos permanecerem mais tempo juntos dentro de casa e pelo fato de a maioria das donas do lar terem de conciliar a vida profissional, maternidade e afazeres domésticos, além de cuidar do desafio de preservar a boa saúde mental. Isso é o que afirma Brunella Aloquio.


A psicóloga pontua que, “por ser algo recente no Brasil, temos poucos estudos científicos a respeito, mas, de acordo com uma pesquisa conduzida pela Catho com cerca de 7 mil entrevistadas, 60% das mães brasileiras afirmam sentir os impactos da quarentena na saúde emocional. Há destaque para a ansiedade, apontada por 79% delas. Entre as queixas mais comuns estão estresse, cansaço mental, desmotivação, insônia, tristeza, solidão e até mesmo depressão”.

Muitas dessas queixas tornam-se mais comuns em contextos de emergências e calamidades como é uma pandemia, mas não significa que devemos ignorá-las ou deixar de cuidar delas. “Justamente o contrário”, afirma Brunella, que ainda faz um alerta. “Cuidemos disso logo no início, de modo que não se torne transtorno mais grave ou crônico. Vale fortalecer as redes de apoio e até mesmo buscar ajuda especializada, se for o caso. Existem iniciativas muito interessantes – nos setores público e privado – no sentido de estudar, debater e oferecer suporte a mulheres e mães neste momento de pandemia, por meio de rodas de conversa, formações, grupos de apoio e atendimento psicológico propriamente dito. Vale a pena buscar essas iniciativas e não abrir mão de se cuidar e de pedir ajuda quando necessário.”

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