Em entrevistas à ES Brasil, a neurologista Mariana Grenfell e a especialista da Feapaes-ES Vanessa Costa afirmam que a proposta pode dar continuidade ao cuidado de pessoas com autismo
Por Thamiris Guidoni
A discussão sobre a adoção do laudo permanente para diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Brasil coloca em evidência um dos principais gargalos enfrentados por famílias: a necessidade recorrente de revalidação de documentos para garantir acesso a terapias, benefícios sociais e serviços especializados.
A proposta em debate busca reconhecer a permanência do diagnóstico ao longo da vida, reduzindo exigências burocráticas consideradas desgastantes por especialistas e responsáveis.
Em entrevista à ES Brasil, a neurologista Dra. Mariana Grenfell avalia que o impacto da medida vai além da simplificação administrativa e atinge diretamente a rotina emocional e financeira das famílias.
“A proposta do laudo permanente traz um impacto muito significativo na vida das famílias. Hoje, muitos pais enfrentam um desgaste emocional e burocrático constante: precisam atualizar laudos periodicamente para garantir acesso a terapias, escola adaptada ou benefícios legais. Isso gera ansiedade, custos e, muitas vezes, interrupções no cuidado”, explica.
Segundo ela, a mudança não altera a necessidade do diagnóstico médico, mas redefine sua validade ao longo do tempo.
“Com o laudo permanente, o diagnóstico de TEA passa a ser reconhecido como uma condição contínua, que não ‘expira’. Isso reduz a necessidade de revalidações frequentes e traz mais estabilidade para o planejamento do tratamento e da vida da família”, afirma.
A médica reforça ainda que o documento continua sendo parte fundamental do processo clínico e administrativo, mas com uma lógica menos repetitiva.
“O laudo continua sendo necessário. O que muda não é a existência do documento, mas a sua validade. O diagnóstico continua precisando ser feito por um profissional qualificado e formalizado em laudo médico. No entanto, uma vez estabelecido, ele não precisaria mais ser renovado repetidamente apenas para fins burocráticos”, diz.
Ela destaca que, na prática, a mudança pode destravar o acesso a direitos já garantidos em lei.
“Na prática, muitas famílias enfrentam barreiras justamente pela exigência de documentos atualizados: atrasos em terapias, dificuldades na matrícula escolar com suporte adequado, ou até entraves para obtenção de benefícios legais. Com um laudo permanente, esses processos tendem a se tornar mais ágeis e menos desgastantes”, completa.
Apesar disso, a neurologista reforça que o acompanhamento clínico segue essencial ao longo da vida.
“O laudo pode ser permanente, mas o cuidado nunca é estático. O TEA é um espectro, e as necessidades mudam ao longo da vida. O acompanhamento médico e terapêutico permite ajustar intervenções, orientar a família e potencializar habilidades em cada fase”, afirma.
Diagnóstico, rede de cuidado e ampliação do acesso
O aumento dos diagnósticos de TEA no Brasil, segundo especialistas, não pode ser atribuído a um único fator isolado, mas a uma combinação de avanços científicos, maior conscientização social e ampliação dos critérios de identificação.
À ES Brasil, a fisioterapeuta e consultora em saúde da Federação das Apaes do Espírito Santo (Feapaes-ES), Vanessa Suzana Costa, destaca que esse cenário também revela um histórico de subdiagnóstico.
“Esse crescimento não pode ser explicado por um único fator. O que observamos hoje é uma combinação de elementos: ampliação dos critérios diagnósticos, maior conhecimento sobre o transtorno, maior conscientização das famílias e também avanços científicos nas áreas genética e do neurodesenvolvimento”, explica.
Para ela, parte dos novos diagnósticos representa casos que anteriormente não eram identificados dentro da rede de saúde.
“Mas é importante destacar que esse aumento também revela uma demanda reprimida histórica. Muitas pessoas que antes não eram identificadas hoje estão sendo reconhecidas”, afirma.
Vanessa também ressalta o papel das instituições na estruturação do cuidado e na ampliação do acesso ao diagnóstico no Espírito Santo.
“Nesse contexto, a Feapaes-ES tem um papel importante ao longo dos anos na estruturação de serviços especializados, contribuindo diretamente para ampliar o acesso ao diagnóstico e ao cuidado no estado”, diz.
Estrutura de atendimento
A especialista observa ainda que a maior conscientização das famílias tem acelerado a busca por diagnóstico precoce, o que exige resposta mais estruturada da rede pública.
“Sem dúvida, a maior conscientização tem um papel central nesse cenário. Hoje as famílias reconhecem sinais mais precocemente e buscam ajuda mais cedo, o que é extremamente positivo”, afirma.
Por outro lado, ela aponta que esse movimento pressiona a estrutura de atendimento.
“Isso exige que a rede de saúde esteja preparada para responder a essa demanda. Aqui no Espírito Santo, por exemplo, a organização de políticas como o SERDIA tem sido fundamental para dar resposta a esse aumento da demanda, estruturando serviços e qualificando o cuidado oferecido à população”, explica.
Desafios do sistema e necessidade de rede estruturada
O diagnóstico em adultos e a qualificação dos profissionais da Atenção Primária ainda representam desafios importantes dentro do sistema de saúde.
“O diagnóstico em adultos é desafiador porque estamos lidando com pessoas que já desenvolveram estratégias de adaptação ao longo da vida. Além disso, há uma sobreposição frequente com outras condições, o que pode dificultar a avaliação clínica”, afirma Vanessa.
Segundo ela, a ausência de registros da infância também interfere na precisão do diagnóstico. “Isso reforça a necessidade de uma avaliação cuidadosa e qualificada”, completa.
No campo do acesso, ela chama atenção para a desigualdade entre sistema público e privado. “O que vemos na prática é uma desigualdade importante de acesso, com muitas famílias recorrendo ao setor privado”, diz.
Como resposta, ela cita a importância da organização em rede. “No Espírito Santo, o SERDIA surge exatamente como uma resposta a esse desafio, com forte participação das instituições da rede APAE, que historicamente já ofertam esse cuidado e contribuem para ampliar a capilaridade do atendimento”, conclui.

