Juntos somos mais fortes

No mundo, mais de um bilhão de pessoas estão ligadas a uma cooperativa, o que representa 14,3% da população do globo. No Brasil, o cooperativismo gera 361 mil empregos, concentra mais de 6,6 mil organizações e une 50 milhões de brasileiros.

Três anos consecutivos de seca e um final de 2016 com enchentes foram graves fatores que impactaram a economia capixaba, sem falar das crises nacionais. Mas a força do sistema cooperativista é tamanha que, ainda assim, há números e casos de sucesso a serem comemorados.

O movimento avança, mesmo em cenários adversos, e contribui bastante para o desenvolvimento do Espírito Santo, que hoje abriga 149 cooperativas, com cerca de 230 mil cooperados, atuantes em nove ramos da economia – agropecuário, crédito, saúde, consumo, educação, produção, transporte, trabalho e habitacional. Juntas, essas organizações geram mais de 20 mil empregos diretos e indiretos, envolvendo aproximadamente 600 mil pessoas, segundo a Organização das Cooperativas Brasileiras no Espírito Santo (OCB-ES).

Impactos da seca
Os estabelecimentos rurais no Estado somaram um prejuízo de R$ 3,6 bilhões, quando se comparam os resultados atuais à safra de 2014 e considerando os preços praticados naquele ano, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). E não são poucos os casos em que a perda da safra chegou a 100%.

Especializada em polpa de frutas pasteurizadas, a Cooperativa de Valorização, Incentivo e Desenvolvimento Agropecuário Sustentável (Coopevidas), que já possui clientes no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, rejeitou uma proposta de exportação para a China. “Tivemos de recuar da proposta de exportar para os chineses para não colocar em xeque a qualidade de nossas frutas, diante da exigência do mercado asiático”, explica o presidente da cooperativa, Ady Brunini Gomes.

A agricultura familiar enfrentou outro grave problema este ano: a falta de cumprimento dos contratos fechados por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae), que determina que as prefeituras adquiram, no mínimo, 30% da merenda escolar de pequenos proprietários rurais.

A queda na produção se refletiu diretamente nas prateleiras dos supermercados, onde o litro do leite quase chegou a R$ 6,00. A Selita, maior fábrica de laticínios do sul do Estado, desde 2014 já viu reduzir-se em mais de 50% o volume de leite recebido. No início deste ano, a cooperativa captava em média 350 mil litros por dia e passou a receber 190 mil litros por dia em junho e julho.

Resultados positivos
Mesmo em um Brasil fortemente impactado pelos problemas na política, na economia e na disponibilidade dos recursos hídricos, as 29 cooperativas do setor rural capixaba, que reúnem mais de 27 mil produtores, foram responsáveis por fornecer 55% do leite processado no Estado e 1,5 milhão de sacas de café/ano.

Segundo o diretor-presidente da Selita, Rubens Moreira, para voltar à normalidade da produção serão necessários dois ou três anos. No entanto, a estruturação da cooperativa permitirá um investimento da ordem de R$ 65 milhões, na construção de uma nova unidade a partir de 2017, para expandir a capacidade instalada de processamento de leite, dos atuais 500 mil para 700 mil litros/dia.

A Cooperativa Agropecuária Centro-Serrana é outro exemplo de sucesso. “A Coopeavi também sentiu o impacto da seca, os negócios não fluíram como imaginávamos. Mas, com a força do cooperativismo, conseguimos consolidar investimentos e fortalecer as nossas áreas de atuação. Focados em buscar inovação e equilíbrio fiscal, estamos finalizando a revisão do plano estratégico para os próximos anos”, afirma o vice-presidente Denilson Potratz. Entre os novos mercados, a Coopeavi exportou 100 toneladas de café para a Itália em julho e outras 100 em agosto, beneficiando cerca de 130 famílias capixabas.

A Pronave, que reúne produtores do café arábica na região das montanhas, também conquistou novos mercados e exportou cerca de duas mil sacas do produto este ano, apenas aos Estados Unidos. E Cuba e Itália também estão fazendo contato para comércio.

O presidente da OCB-ES, Estherio Colnago, destaca o reflexo desses avanços. “As vendas dos nossos produtos para fora do Brasil trazem um novo ânimo às cooperativas, e isso ajuda muito. A entrada no mercado externo consolida o trabalho dos cooperados”, afirma.

Crédito e saúde
As cooperativas de crédito tendem a se fortalecer em um cenário de recessão, mas o Sicoob atingiu resultados acima da média brasileira. As receitas de serviços alcançaram R$ 56,6 milhões no primeiro semestre do ano – 21,6% a mais que o montante registrado no mesmo período em 2015. Os ativos tiveram alta de 22%, e agora a organização administra R$ 4,8 bilhões em bens e direitos. O patrimônio líquido encerrou o semestre em R$ 1,1 bilhão e o saldo de depósitos subiu 28%, fechando o semestre em R$ 2,7 bilhões. Os valores em poupança registraram aumento de 4%, totalizando R$ 482 milhões. “O cooperativismo capixaba tem governança e preocupação com o resultado; é voltado para potencialidade, alcance. E o caminho é esse”, disse Nailson Dalla Bernadina, diretor da entidade.

Na área da saúde, o cooperativismo é responsável por 75% dos atendimentos em hospitais públicos do Estado. A Unimed Vitória possui 37% do mercado capixaba, está entre as 25 maiores empresas do Estado e é a primeira colocada em seu ramo de atuação. “Temos hoje 2.300 médicos cooperados e mais de 324 mil clientes. Nossa estratégia de negócio passa pela qualidade do corpo de cooperados, pela construção de um novo modelo de assistência, focado na saúde preventiva e no cuidado integrado, e também pela oferta de serviços de excelência em unidades próprias e credenciadas”, afirma o diretor de Mercado da instituição, Remegildo Gava Milanez.

Números
Para ilustrar a grandiosidade do cooperativismo no Espírito Santo, não faltam indicadores. Das 200 maiores empresas em solo capixaba, 10% são cooperativas. Além disso, as organizações locais desse tipo faturaram R$ 4,4 bilhões em 2015, um crescimento de 65% nos últimos cinco anos. Outro dado importante é que dos mais de 775 mil alunos (dados 2015) da rede pública de ensino estadual e municipal, 71.633 são transportados diariamente por profissionais cooperativados.

“Neste ano serão aplicados R$ 100 milhões em infraestrutura, 26 mil propriedades rurais receberão apoio na comercialização de produtos, e serão disponibilizados R$ 4,8 bilhões em crédito e financiamentos”, afirma Carlos André de Oliveira, superintendente do Sistema OCB/Sescoop-ES.

Mesmo assim, ainda há muitas melhorias a serem conquistadas. “Entre os desafios que precisam ser vencidos pelo cooperativismo, é imperativo que se consiga agregar valor, por intermédio da capacitação de cooperados e do fortalecimento das estruturas”, enfatiza Esthério Colnago.

O cooperativismo foi tema da edição de julho do ESB Debate, uma parceria entre a ES Brasil e a OCB-ES que reuniu academia, gestores e associados para discutir as muitas questões referentes ao sistema. Ganharam destaque nos diálogos a necessidade de capacitação de mão de obra, o cuidado com a água e o grande e complexo desafio de reorganizar as relações de trabalho.

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