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terça-feira, 7 dezembro, 2021

Indústria volta a crescer e a gerar empregos em 2021

Empresários industriais estão mais confiantes para investir, aponta pesquisa da Federação das Indústrias do Espírito Santo

Por Gilberto Medeiros

Forte indutora do crescimento econômico pela capacidade de gerar riquezas e dinamizar o consumo, a indústria é um setor determinante para o desempenho da economia capixaba. Sobretudo pela dependência de nossa economia em relação ao comércio exterior, que é baseado em commodities como o minério de ferro. Para entender o momento vivido por esse mercado, acompanhe a seguir a íntegra da entrevista com a gerente do Observatório da Indústria da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), Marília Silva.

ES Brasil – A indústria do Espírito Santo voltou a crescer?

Marília Silva – Desde a intensa queda observada no segundo trimestre de 2020, decorrente das necessárias medidas de contenção à pandemia, a indústria do Espírito Santo vem registrando resultados positivos, quando comparamos seu nível de atividade com o trimestre imediatamente anterior. Parte desse crescimento pode ser explicado pelo que se costuma chamar de base deprimida, mas é inegável a importante contribuição dada pelo bom desempenho da indústria de transformação e da construção.

A recente alta da indústria de transformação se dá, entre outros motivos, pelo expressivo crescimento do setor de papel e celulose, favorecido pela contínua recuperação do preço dessa commodity, fruto da retomada econômica mundial, sobretudo no mercado chinês. O mercado interno também contribuiu com o aumento da demanda nos seguimentos de impressão e papel cartão. Ainda dentro da indústria de transformação, apresentam bons resultados os setores de minerais não metálicos e metalurgia. Ambos vêm na esteira da recuperação da demanda mundial e usufruem do aquecimento interno do setor da construção, que tem se beneficiado pelo cenário de baixas taxa de juros, expansão das concessões de crédito imobiliário e pela elevada demanda, em especial, pelos projetos residenciais.

Na contramão das indústrias de transformação e da construção, a indústria extrativa capixaba tem apresentado recuos expressivos. Isso se deve, em grande medida, pela desaceleração da atividade de petróleo e gás e pela redução das atividades de pelotização, principais atividades de extração no estado. Os sucessivos recuos na atividade de petróleo e gás refletem o processo de declínio natural na extração desses hidrocarbonetos no território capixaba. Já a atividade de pelotização, ao menos no início de 2021, foi impactada pelo menor fornecimento de matéria-prima vinda de Minas Gerais, conforme pudemos apurar nos relatórios trimestrais da Vale S.A.

– Quais números mostram isso?

A indústria é composta pelas indústrias extrativas, de transformação, da construção e de energia e saneamento. Quando olhamos para a indústria geral, isto é, para o conjunto dessas indústrias, o setor cresceu 0,2% no primeiro trimestre desse ano em relação ao último trimestre do ano passado. Essa foi a terceira alta sucessiva da indústria geral após queda de 24,9% no segundo trimestre de 2020, período fortemente impactado pelas necessárias medidas de combate à pandemia. Desde então o setor industrial acumulou alta de 27,4%, estando apenas 3,2% abaixo do patamar pré-pandemia.

Se olharmos os resultados interanuais, que é quando comparamos um trimestre do ano corrente com o trimestre do ano anterior, a indústria capixaba recuou 4,4% no primeiro trimestre desse ano, isso porque enquanto as indústrias de transformação e da construção apresentaram expressivas altas de 15,7% e 29,1%, respectivamente, a indústria extrativa recuou 26,9% e a indústria de energia e saneamento apresentou um leve recuo de 0,3%.

Para a indústria de transformação, por exemplo, ao compararmos o nível de atividade medido no 1° trimestre de 2021 com o nível de atividade pré-pandemia, 4° trimestre de 2019, podemos observar um expressivo crescimento de 21%. Esse é um resultado importante, principalmente, se levarmos em conta o cenário adverso que tem marcado os anos de 2020/2021, quando, para muito além das restrições à circulação de pessoas ou às atividades econômicas, o Estado do Espírito Santo, o país e o mundo têm registrado significativo número de óbitos em decorrência da Covid-19.

Produção metalúrgica
Setor de metalurgia apresentou crescimento. Foto: David Alves/Palacio Piratini.

Dentro da indústria de transformação, a fabricação de celulose papel e produtos de papel vem registrando altas expressivas nos últimos três trimestres, chegando a crescer 61,6% no primeiro trimestre deste ano, quando comparamos com o mesmo trimestre de 2020. Já a fabricação de minerais não metálicos cresceu 26,6% no primeiro trimestre de 2021. Esse setor, que é produtor de granito talhado ou serrado e cimento, foi bastante influenciado pelo aquecimento da indústria da construção. O setor de metalurgia, que possui o maior peso dentro da indústria de transformação, cresceu 2,4% no período. A indústria da construção, por sua vez, cresceu 29,1% no primeiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período de 2020.

O setor extrativo, único setor com forte desaceleração, recuou 26,9% no primeiro trimestre deste ano em comparação ao mesmo trimestre do ano passado, mantendo a trajetória de queda iniciada no terceiro trimestre de 2017. Esse recuo do setor extrativo refletiu uma redução de 25,3% das atividades de petróleo e gás e de 29,8% das atividades de pelotização e outras atividades.

– Quais os três principais segmentos da indústria que estão puxando esse movimento?

Laminador de Tiras a Quente
Indústria de transformação está trazendo resultados positivos para a economia capixaba. Foto: Divulgação/ArcelorMittal.

São as indústrias da construção e da transformação que, recentemente, têm influenciado positivamente o desempenho do setor industrial capixaba. Porém, conforme os números revelam, os expressivos e sucessivos recuos da indústria extrativa têm puxado os resultados gerais para baixo.

Aqui vale lembrar que a indústria extrativa no Espírito Santo responde pela quase metade da atividade industrial e se destaca pelo perfil exportador, o que a torna mais suscetível às variações do mercado mundial. Além disso, conforme comentado anteriormente, o recuo da produção de petróleo e gás natural reflete o declínio natural da sua produção devido ao avançado tempo de exploração de seus campos.

– Os empresários estão animados? Confiantes? Planejam novos investimentos?

Para responder a essas questões, vou lançar mão aqui do Índice de Confiança do Empresário Industrial Capixaba, o Icei-ES. Esse índice é um indicador mensal, que o Ideies elabora em parceria com Confederação Nacional da Indústria (CNI), e que reflete a maneira pela qual os empresários avaliam as condições atuais de negócio e as expectativas para os próximos seis meses.

De acordo com o Icei-ES, em junho, a confiança do empresário industrial capixaba cresceu pelo segundo mês consecutivo refletindo uma maior disseminação da confiança entre os industriais capixabas. O aumento da confiança ocorreu tanto devido à melhoria da percepção sobre a situação atual quanto ao aumento das expectativas para os próximos seis meses. Em ambos os casos é o incremento da percepção e da expectativa sobre a economia brasileira e capixaba que influencia, significativamente, essa melhoria da confiança empresarial no Espírito Santo.

Sobre o planejamento de novos investimentos, observamos pelas pesquisas Sondagens, realizadas pelo Ideies em parceria com a CNI, que a intenção de investimento dos empresários industriais tem permanecido acima da sua média histórica, resultado relevante em ano ainda marcado pela pandemia.

Embora não possamos cravar um motivo específico para a melhoria da confiança e a manutenção da intenção de investimento em patamares acima da sua média histórica, é difícil não associar esse otimismo à evolução da vacinação da população brasileira, em especial, da população capixaba.

– O movimento da indústria já se reflete no emprego?

Trabalho na construção civil
Construção civil foi um dos setores que mais gerou empregos no Espírito Santo. Foto: Dênio Simões/ Agência Brasília

Se olharmos para o mercado formal de trabalho, sim. A indústria geral, incluindo construção, criou mais de 7 mil postos formais nos quatro primeiros meses do ano, com destaque, mais uma vez, para as indústrias de transformação, responsável pela criação de mais de 5,5 mil postos, e da construção, que gerou em torno de 1,6 mil vagas formais.

Esses dois setores ampliaram em 4,9% e 3,2%, respectivamente, seu total de postos formais em relação ao final de 2020. Dentre as 23 atividades da indústria de transformação, apenas três delas reduziram postos formais no ano, enquanto as demais apresentaram saldo positivo na geração de emprego celetista.

Se a gente olhar para o mercado de trabalho como um todo, isto é, considerando os ocupados formais e informais, podemos observar que no Espírito Santo apenas os setores de construção; informação, comunicação e atividades financeiras; e a indústria apresentaram aumento no total de ocupados (formais e informais) nos três primeiros meses do ano frente ao mesmo período do ano anterior.

Apesar dessa resposta um tanto quanto alvissareira, é importante destacar que embora o setor industrial venha apresentando contribuições importantes para o mercado de trabalho, a taxa de desemprego no Espírito Santo encontra-se em 12,9%, o que representa 269 mil capixabas desocupados. É uma taxa inferior à do país (14,7%), mas ainda assim em patamares elevados. Se olharmos o desemprego apenas para os capixabas entre 18 e 29 anos, a taxa de desemprego mostra-se ainda maior, em 23,9%.

Esses resultados revelam algum grau de dificuldade do mercado de trabalho se recuperar em meio à pandemia, mesmo em um cenário de aparente recuperação econômica. Precisamos manter-nos atentos a isso.

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