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quarta-feira, 6 julho, 2022

Fundador do Buscapé fala sobre o mercado capixaba de startups

Romero Rodrigues foi um dos fundadores do Buscafé, empresa criada por amigos em 1999. Foto: Divulgação

Romero Rodrigues conta porque vendeu o Buscapé em 2009 e se tornou gestor de um fundo bilionário de startups

Por Amanda Amaral

Ele foi co-fundador do Buscapé, empresa criada por um grupo de amigos em 1999 e que anos mais tarde foi vendida para a Naspers por UU$ 374 milhões. Depois, se tornou um investidor na Redpoint Eventures, com um portfólio de unicórnios como a Gympass, Olist, Creditas e Rappi. Hoje, após uma junção entre empresas, é Gestor de Fundos de Venture Capital na Headline.

Este é o currículo do engenheiro elétrico Romero Rodrigues, que visitou o Espírito Santo pela primeira vez em maio para uma palestra a convite da Valor Investimentos. Na ocasião, a ES Brasil teve a oportunidade de realizar uma entrevista exclusiva com o investidor, que se mostrou surpreso com a organização da cena capixaba de inovação e tecnologia e comentou sobre a evolução das startups ao longo de 20 anos.

O que mudou no cenário de inovação e tecnologia nos últimos 20 anos?

Mudou muito. A primeira coisa é que hoje o mercado é maior. Naquela época, em 1999, quando a gente começou o Buscapé, estimávamos um cenário entre 200 e 300 mil usuários de internet e hoje existem 170 milhões, 81% dos brasileiros ficam no celular, no smarthphone, conectados o tempo todo.

A segunda coisa que mudou foi o ecossistema de investimentos. Mudou completamente. Lá atrás, não havia investidores. Por um breve momento, surgiu um monte, entre 1999 e 2000, mas confusos e perdidos, e 2000 veio estourando a bolha e tudo morreu. Já em 2009 e 2010, a gente começou a ver esse ecossistema ser montado.

Investidores anjos, capital semente, aceleradores, fundos de venture capital. Hoje esse ecossistema é completo. Temos diferentes tipos de investidores preparados para investir em startup ao longo da vida dela, desde surgimento da ideia até que ela tope fazer o IPO – oferta pública inicial. Isso, claro, faz com que o mercado funcione bem.

Um terceiro fator é que os empreendedores hoje estão muito melhor preparados do que há 20 anos. Existe muito mais metodologia para uma pessoa criar uma startup. E por último, houve uma democratização da startup. Há 20 anos, você precisava ter dinheiro e todo tipo de formação, porque tudo você precisava quantificar. Você não tinha os “bloquinhos” para montar que nem existem hoje.

Tudo você tinha que escrever. O empreendedor fazia tudo do início ao fim. Eu brinco que era como se você fosse construir um prédio e tivesse que inventar o seu tijolo, sua tomada, seu próprio elevador. Agora, temos esses “bloquinhos” de montar. A startup deixou de ser algo de engenheiro e hoje você tem qualquer tipo de profissional montando uma startup. Houve essa democratização.

Em 2009, o Buscapé foi vendido por UU$ 340 milhões para o Naspers, um grupo sul-africano. Você permaneceu lá por um tempo, mas depois se retirou da companhia. Por quê vender depois do negócio consolidado e com um bom valor de mercado?

No caso do Buscapé, ele foi adquirido por um valor bem alto. Na realidade, o valor total da venda é de UU$ 374 milhões. A decisão na época foi baseada no que seria melhor para o Buscapé. Como estávamos sozinhos e não éramos uma empresa muito grande, tínhamos muita dificuldade de se financiar. A gente financiava vários varejistas pequenos para eles poderem parcelar em duas vezes e terem chance de competir com grandes varejistas, precisávamos de muito capital de giro. Isso começou a se tornar um jogo muito competitivo.

De um lado a gente competia com paypall e do outro com os grandes bancos. Então pensamos em nos juntar com alguém grande que pesasse mais na balança para poder ajudar. Foi quando vendemos 90% para a Naspters. Eu continuei sócio por mais cinco anos, justamente porque eu tinha o sonho de fazer o IPO do Buscapé depois. Mas infelizmente acabou não acontecendo.

Como foi esse processo de deixar de ser o cara que tem a ideia para começar a investir em startups?

Quando eu decidi sair do Buscapé, já tinha realizado investimentos pessoais em startups, algumas delas de muito sucesso. Me tornei sócio acionista da Movile, que é proprietária do Ifood, investi no começo da Gympass, na qual sou acionista até hoje, a Zup, que foi adquirida pelo Itaú, entre outras.

Émerson Deboni, sócio da Valor Investimentos, recebeu Romero Rodrigues durante sua visita à Vitória. Foto: Divulgação/Valor Investimentos

Terminando esse período, fiquei mesmo pensando no que fazer. Só que eu já estava apaixonado pelos investimentos em startups. Então, resolvi estudar, aprender mais para fazer isso profissionalmente. Em 2014, eu comecei a conversar com alguns fundos. Fui para o Vale do Silício tratar com dois fundos tradicionais de lá, que estavam no Brasil, que é a Readpoint e a Eventures, que hoje se chama Headline. Voltei de lá sócio dessa gestora para, junto com outros sócios locais, tocar dois fundos. Foram 62 startups investidas e mais ou menos R$ 1,5 bilhão aplicados nestas empresas.

Como você vê o mercado capixaba de tecnologia e inovação?

Acho que está superquente. É incrível como em pouco tempo, principalmente durante a pandemia, foi criada uma estrutura muito boa para isso. Tive a oportunidade de visitar a Base27, um hub que tem uma estrutura muito legal. Dá para perceber que o empresariado todo da cidade está curioso e conectado com esse mundo das startups. Todo mundo está de alguma forma envolvido, seja porque tem uma startup dentro da família ou porque já investe como anjo em alguma startup. Encontrei uma cena muito mais aquecida, vívida, do que eu imaginava. Semana passada foi a primeira vez que visitei o Espírito Santo. Está tudo muito bem organizado, o que infelizmente, é difícil de ver em outros estados.

Qual a dica de ouro para quem está com poucos recursos e buscando investidores?

Quem está começando está pensando grande, pensando em um propósito, mas se cerque de gente boa, traga gente grande, principalmente, pessoas que vão complementar seus pontos cegos. Ninguém é perfeito, então traga gente para conectar seus pontos fracos. Muito melhor uma empresa com quatro sócios do que ficar batendo a cabeça com dois. Encha a empresa de talentos, quanto mais gente talentosa melhor e maior sua chance de sucesso.

Os melhores fundadores estão sempre perguntando, sempre curiosos e sempre anotando. Eles pegam uma ideia que parece não ser boa, depois outra ideia que também parece não ser boa, e transforma em uma ideia maravilhosa. Seja esse tipo de pessoa curiosa e que absorve as ideias.

 

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