Especialistas recomendam simulações de custo e produtividade; setor produtivo capixaba debate os impactos do fim da escala
Por Amanda Amaral
Os debates sobre a flexibilização da jornada de trabalho estão exigindo que empresas e gestores analisem seus modelos de negócio visando a manter competividade em um cenário atual de escassez de mão de obra.
As discussões sobre o tema ampliaram esta semana com o projeto de lei enviado pelo Governo Federal, ao Congresso Nacional, com urgência constitucional, prevendo o fim da escala 6 x 1, assim como já previsto pela Emenda Constitucional (PEC) em discussão na mesma Casa de Leis.
Para o vice-presidente do Conselho Regional de Administração do Espírito Santo (CRA-ES), Erthelvio Nunes, neste momento, a recomendação central é que as organizações realizem simulações e se adaptem para transformar desafios em diferenciais competitivos.
“Estudem a situação, conheçam bastante a sua empresa e se organizem para estruturar a gestão de Recursos Humanos, a sua gestão de pessoas. Desta forma, você pode se adaptar o mais rápido possível e tirar a vantagem disso, mesmo com as adversidades como a escassez de mão de obra”, explicou.
Para Nunes, a capacidade de retenção de talentos e a produtividade dependem agora de uma gestão estratégica que saiba equilibrar as restrições legislativas com a realidade operacional de cada setor. “Até para o administrador, que está buscando sua colocação no mercado, quem estiver mais preparado, com certeza vai acessar as melhores oportunidades”, disse.
Mudança de escala
O Extrabom, por exemplo, decidiu testar a escala 5×2, com cinco dias de trabalho para dois de folga, porém com carga horária de 44 horas semanais, a folga fixa é domingo – devido ao não funcionamento dos supermercados no Espírito Santo neste dia.
O objetivo é atrair e manter mão de obra qualificada, combatendo a escassez de trabalhadores e a alta rotatividade gerada pela busca por melhor qualidade de vida, especialmente entre os jovens, segundo explicou Fabiana Vieira, diretora de Gente e Gestão do Extrabom.

A mudança teve início, em fevereiro deste ano, na unidade de Laranjeiras, Serra. Atualmente, outras seis lojas já aderiram a nova escala, que segundo Fabiana, deve ser expandida para mais quatro ou cinco lojas. Ela também afirmou que o aumento no custo de pessoal foi absorvido internamente e que não haverá repasse de preços aos produtos ou prejuízo no atendimento ao cliente.
“Em pesquisa realizada em março na primeira loja, 93 dos 99 colaboradores aprovaram o modelo, relatando menos cansaço. Também houve um aumento estimado de 30% na procura por vagas nas unidades que adotaram a nova escala em comparação às demais”, ressaltou a diretora do Extrabom.
Impacto por setores
O debate passa ainda pelas especificidades e necessidades de cada setor, na visão do vice-presidente do CRA-ES, que cita como exemplo os hospitais, que funcionam durante 24 horas os sete dias da semana, e o setor de logística, que depende do frete.
“O setor de transporte também tem uma legislação específica, mas similar ao do trabalhador fixo, ou seja, ele tem que ter um repouso. Temos situações bem diferentes no mercado de trabalho, imagine um motorista de caminhão que precisa fazer um intervalo entre turnos. Ele vai fazer isso aonde? Dentro do caminhão? Em um posto de gasolina? Será que isso é saudável para o trabalhador”, analisou Nunes.
A nota da Federação das Industrias no Espírito Santo (Findes) diz que a entidade defende que eventuais mudanças estejam condicionadas a ganhos reais de produtividade e construídas com diálogo entre os setores, e que cada segmento produtivo possui especificidades e será impactado de forma distinta por alterações generalizadas.

Já a Fecomércio Espírito Santo, alinhada à Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), se manifesta contrária à proposta de Emenda Constitucional (PEC) que visa proibir a escala 6×1. Segundo a entidade, a medida extrapola os limites constitucionais que regulam a negociação da jornada de trabalho e a possibilidade de redução salarial, e retira dos sindicatos a prerrogativa constitucional de participar das negociações coletivas.
A Fecomércio-ES ressaltou ainda que os trabalhadores do comércio já são amparados por legislação específica (Lei nº 12.790/2013), e que o projeto de lei atual desconsidera os avanços da Reforma Trabalhista (Lei nº 13.467/2017).

