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terça-feira, 30 novembro, 2021

Eu, Robô

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Parei para pensar em como me tornei uma espécie de ciborgue no decorrer dos anos

Cláudio Rabelo

Esta semana recebi a notícia de que o serviço de e-mail que utilizo será descontinuado. De fato McLuhan, em seu clássico Understanding Media, foi preciso ao apontar há mais de cinquenta anos que os meios de comunicação se tornariam extensões humanas. Senti como se me faltasse um membro do corpo ao imaginar que seriam apagadas quase vinte mil mensagens arquivadas, dezenas de cadastros para recuperação de senhas em sites e aplicativos que utilizo, além da sensação de ser arremessado em um limbo comunicacional, afinal de contas, como iriam me encontrar aqueles que já se comunicavam comigo por este canal de comunicação?

A ansiedade aos poucos foi se tornando alívio. Parei para pensar em como me tornei uma espécie de ciborgue no decorrer dos anos. Minha desculpa era a de que eu precisava ser um antropólogo das novas mídias, ser usuário ativo e early adopter das tecnologias emergentes, para assim poder lecionar as disciplinas de Teorias e Tecnologias contemporâneas na Universidade. Caiu a ficha… quatro contas de email, Facebook administrando três páginas e cinco grupos, além das contas no Instagram, Pinterest, Linkedin, Whatsapp, Telegram, Youtube, Clubhouse. Raspberry Pi3, Wii, Xbox Series S, PS4 e os devidos serviços de assinatura para acompanhar os games. Netflix, Apple TV+, HBO Max, Amazon Prime (Vídeo, Reading e Music), Youtube e Disney + e Globoplay para acompanhar streaming de Vídeo. Spotify e Amazon Music para curtir um som e ouvir podcasts. Em um apartamento pequeno gerencio três Echo Dots e um Echo Show, que se interligam com o Iphone, Apple Watch, as TVs smart e o sistema multimídia do carro.

Assim gerencio o Google Agenda, o Classroom, as reuniões no Meet e todos os sistemas de gestão de sala de aula e administração acadêmica on-line. Eu “tô sumido, né?”. Como será que alguém irá me encontrar, agora que eu estou perdendo uma conta de e-mail?

O caos informacional tem ampliado as possibilidades de descoberta, conexão em rede e resolução de problemas, mas ao mesmo tempo tem produzido panes nos egos dos humanos, incapazes de lidar com a pluralidade de possibilidades. Não conseguem lidar com a responsabilidade pelas escolhas. Por isso os extremismos têm surgido em razão desse grito aprisionado das pessoas que precisam de uma resposta, de um norte, de uma voz de comando. Clamam por obediência à uma autoridade e assim desqualificam perspectivas de liberdade, como Paulo Freire e Habermas. É a preferência humana pela zona de conforto na caverna de Platão, quase um clamor pelo retorno ao útero materno, cujas sombras representam o conforto da ignorância.

Resolvi, dessa forma, retomar as rédeas da minha humanidade. Aos poucos passei a criar meus Powerpoints com Lápis de cor, em vez de imagens digitais. Voltei a ler os livros impressos embaixo das árvores. Deletei centenas de postagens antigas que não mais me representam. O Banco Imobiliário passou a ser um novo ritual de sábado e o skate aos poucos vai se adaptando novamente a esses ossos que já não têm mais seus vinte anos. E assim percebi que as espacialidades e temporalidades se expandiram, alinhadas novamente ao ritmo da respiração. Não abandonarei as peças que me tornaram um ciborgue, mas elas terão que aceitar dividir o tempo novamente com a minha humanidade.

Cláudio Rabelo é professor da Ufes, TedX Speaker, pós-doutor em Estudos Culturais pela UFRJ e autor do Livro “Faixa preta em publicidade e propaganda”

 

 

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