Estágio, passo inicial para uma carreira de sucesso

Eles chegam cheios de “gás” e altamente motivados a “mostrar serviço”, querendo provar que têm capacidade de desempenhar vários tipos de tarefas, trabalhar bem em equipe e agregar valor às empresas que os contratam. Com muitos sonhos e ideais, ambicionam colocar em prática o que aprenderam nas academias e cursos técnicos e, ao mesmo tempo, aprender mais e mais sobre o mundo do trabalho.

Mas ao ingressarem como estagiários em muitas empresas, esses futuros profissionais podem encontrar um ambiente que se mostra desde indiferente a hostil e tropeçar em dificuldades para as quais nem seus melhores professores os prepararam.

A realidade do estágio no Brasil ainda precisa avançar muito para entrar em sintonia com as mais modernas tendências internacionais. Os paradigmas enumerados no início desta matéria precisam ser quebrados para que as empresas brasileiras possam desfrutar ao máximo da rica oportunidade de moldar um talento profissional à sua imagem e semelhança, capacitando-o a desenvolver uma carreira de efetivo valor em seus quadros.

Esses aprendizes de futuro começaram a ganhar mais espaço com a reformulação da Lei do Estágio, em 2008. Passados dois anos, muitas coisas mudaram, mas muitas ainda precisam mudar. Segundo Paulo Renato Miranda Sarmento, gerente empresarial do CIEE-ES (Centro de Integração Empresa-Escola do Espírito Santo), no primeiro momento após as mudanças efetivadas pela Lei do Estágio houve a necessidade de adequações, o que se refletiu em uma queda nas contratações. Em paralelo, justamente no último trimestre de 2008 o mundo foi surpreendido com a crise financeira internacional, deixando o mercado em baixa e com medo do que aconteceria adiante. Neste período, registrou-se uma queda em torno de 30% nas contratações.

Com a atenuação da crise, o início de 2009 foi uma fase de reestruturação, tanto das empresas contratantes quanto das empresas de serviço de estágio e até dos alunos. Já no segundo semestre de 2009 as coisas começaram a melhorar, o crescimento voltou, mesmo que gradual, e as ofertas de estágio voltaram a surgir e se consolidar, apontando para uma volta por cima no mercado. Em 2010, as ofertas e a procura cresceram consideravelmente, o mercado se aqueceu e já começa a gerar resultados positivos nos números de estagiários trabalhando e tentando se consolidar dentro da carreira e da empresa.

As vagas de estágio para nível superior ainda são as mais numerosas, mas a expansão dos cursos técnicos e a demanda por estes ofícios, em particular no Espírito Santo, têm chamado a atenção das empresas, que começaram valorizar mais este grupo de alunos, cuja contratação vem numa curva ascendente, apesar de ainda não igualar o número de vagas do nível superior.

De acordo com Rodrigo Nader, coordenador operacional do CIEE-ES, a empresa deve ver o estágio dentro da companhia como uma oportunidade de formar futuros colaboradores, preparados e identificados com a cultura organizacional, aptos a atender a necessidades que surgem em função da expansão da empresa ou de reposições de seu quadro efetivo.

Para o coordenador, o programa de estágio está apto a ser implementado em todos os setores que exigem formação profissional, como as áreas administrativas e de produção, cabendo a cada empresa identificar suas necessidades e adequá-las às normas legais que o regem. Já o aproveitamento de estagiários no quadro permanente da empresa depende de alguns fatores. Rodrigo acrescenta que deve ser feita uma avaliação rigorosa e honesta para ter certeza de que a atuação do estagiário preenche o perfil do cargo desejado e contribui para os resultados da empresa.

“Seja em uma empresa privada, em que existe a possibilidade de efetivação, ou em um órgão público, em que as experiências vivenciadas são, muitas vezes, dotadas de peculiaridades que farão a diferença em uma oportunidade futura, é importante utilizar como parâmetro dois grandes benefícios que o programa propicia: um eficiente ponto de partida na construção da carreira e um indispensável complemento prático dos conhecimentos teóricos”, ressalta o coordenador operacional CIEE-ES.

Aviso: eles não são “boys”
A Totvs-ES é uma empresa multinacional de software que opera em vários estados, inclusive no Espírito Santo. O diretor executivo da regional capixaba, Eduardo Couto, utiliza estagiários como uma estratégia na busca de talentos e na boa formação dos trabalhadores que integrarão o quadro de funcionários da empresa. De acordo com ele, a Totvs cresce em média 30% ao ano e por isto se faz necessário buscar e preparar bons profissionais.

“No ano passado, efetivamos dois estagiários, este mês mais dois, e já contratamos outros cinco estagiários do total de 10 que treinamos. A área técnica é o que demanda mais pessoal, mas a área administrativa e o marketing também são contemplados com a contratação de estagiários, que podem, igualmente, ser efetivados”, garante Couto.

A empresa, que em 2009 tinha 52 colaboradores, já conta hoje com 85, e a perspectiva para 2011 é que crescer cerca de 32%. Segundo Eduardo Couto, além do crescimento projetado, com o aquecimento do mercado de software se perdem alguns talentos para o mercado. E a estratégia, a médio prazo, é repor e aumentar este contingente, que já foi preparado pela empresa e está à espera de uma vaga. A Totvs segue uma política de valorização do estagiário, investindo neste aprendiz como se fosse um funcionário já efetivado.

“Nosso relacionamento com o estagiário tem um diferencial: primeiro, ele não é boy; segundo, toda contratação de estagiário parte do princípio de que ele será efetivado; e terceiro, paga-se uma bolsa de R$ 800,00, valor acima do mercado”, revela o diretor. Ele acrescenta que para o candidato ser contratado, mais importante que a experiência é o perfil psicotécnico e emocional do mesmo. “O estagiário tem que já entrar na empresa tendo uma visão clara do que quer da sua profissão, caso contrário fica como um navio à deriva no mar”, analisa Eduardo Couto.

Alta efetivação
O Programa de Estágio do Sicoob-ES é outro bom exemplo. Ele possibilita à instituição preparar e capacitar o universitário com perfil adequado para ocupar um cargo na organização. Segundo a superintendente do sistema de cooperativas, Sandra Helena Rosa Kwak, dos 902 colaboradores que o Sicoob-ES tem atualmente, 102 são estagiários, o que corresponde a 11% do quadro. Nos últimos 12 meses, o índice de efetivação dos estagiários alcançou 42%: dos 121 estudantes que concluíram o estágio na instituição, 51 foram contratados.

Sandra destaca que a capacitação oferecida pela empresa vai além do conhecimento técnico específico do negócio e, por isso, contribui para o desenvolvimento global do estagiário. “Durante o estágio, temos a oportunidade de repassar aos universitários orientações relacionadas à conduta e à disciplina e também valores como a importância de cumprir prazos, a forma adequada de se apresentar, a necessidade do bom relacionamento e do trabalho em equipe, a ética e o respeito aos colegas, à empresa e aos clientes”, enfatiza. A executiva acrescenta que “quando há interesse e compatibilidade do estagiário, ao final do estágio o Sicoob passa a contar com um profissional com perfil ajustado à cultura da empresa”.

Mapeamento do mercado de estágios
O Instituto Euvaldo Lodi, o IEL-ES, entidade ligada à Federação das Indústrias do Espírito Santo, atua há 41 anos no mercado capixaba como agente de estágios e trabalha para a criação e manutenção de ambientes favoráveis à prática do estágio responsável.

Preocupado em encontrar o talento certo para cada empresa, segundo informou Lorena Sathler, coordenadora de estágio da área de Capacitação de Recursos Humanos do IEL-ES, o órgão tem compromisso com a qualidade dos estágios, e para garanti-la oferece um sistema de pré-seleção que leva em conta a área de formação e as habilidades do estudante, de forma a encaminhar somente os candidatos ideais para a empresa.

De acordo com Lorena, o IEL Nacional encomendou uma pesquisa com o objetivo de mapear o mercado de estágio no Brasil, realizada em setembro de 2010. Foram entrevistadas 792 empresas de todas as regiões do país. O levantamento revelou que 65% das organizações que contratam estagiários são de médio porte, 12% de grande porte e 23% são micro e pequenas empresas.

No Espírito Santo e Rio de Janeiro, 62% das empresas que contratam estagiários são de médio porte, 29% de pequeno porte e 9% de grande porte.

“A pesquisa relevou ainda que 40% das empresas entrevistadas não possuem um programa estruturado de contratação de estagiários. Visando a contribuir com a empresa na implantação de um programa de estágio responsável, que atenda aos requisitos da legislação vigente e que vá ao encontro das diretrizes da organização, o IEL-ES lançou o curso de Capacitação de Supervisores de Estágio, com 16h de duração, para que os supervisores aperfeiçoem suas atribuições e as habilidades necessárias para aplicar as melhores práticas na relação entre estudante, empresa e supervisor”, explica a coordenadora da área do IEL.

Um dado interessante que emerge da pesquisa é que as empresas solicitam mais estagiários de nível superior, sendo Administração (44%) e Engenharia (36%) os cursos mais solicitados. Mas observa-se que os cursos de nível técnico também têm boa representatividade, sendo a terceira demanda mais frequente das empresas (21%). A pesquisa também revelou que o perfil comportamental é o atributo de maior peso na consideração das empresas quando selecionam um estagiário – 65%.

Outro incentivo ao estágio bem conduzido é o Prêmio IEL Boas Práticas de Estágio, que reconhece anualmente empresas, estudantes e instituições de ensino que se destacam na prática do bom estágio, contribuindo assim para a melhoria dos processos dessa atividade. Podem concorrer empresas privadas, estatais e órgãos públicos ou entidades sem fins lucrativos, desde que sejam clientes do programa de estágio do IEL-ES ou tenham contrato de estágio firmado direto com a instituição de ensino.

Enfim, quem pensa em construir uma carreira profissional, sonha com uma trajetória de sucesso. A pesquisa do IEL Nacional finaliza indicando que 87% das empresas afirmam efetivar os seus estagiários ao final do período de estágio, o que confirma que esta continua sendo uma boa alternativa para o ingresso no mercado de trabalho.

Preparar o futuro profissional é a principal função do estágio, e a própria empresa deve entender que o bom estagiário é um reflexo do bom orientador, ou seja, a aprendizagem depende da forma como as atividades foram orientadas e conduzidas. Se bem aplicado, o programa de estágio tem um caráter positivo e é eficaz, tanto para o estagiário quanto para a empresa e, mais ainda, para o crescimento econômico do Estado e do país.

 

Lei do Estágio
Modificada em 2008, a Lei do Estágio promoveu uma série mudanças. Agora, estagiários devem ter férias remuneradas de 30 dias depois de um ano de trabalho e direito a vale-transporte, que, juntamente com a bolsa-auxílio, tornou-se obrigatório. A lei também limitou a carga horária dos estudantes (6h para nível superior), garantindo que sejam dispensados mais cedo durante o período de provas. Já o tempo máximo de estágio na mesma empresa passa a ser de dois anos, exceto para pessoas com deficiência. O acompanhamento de um profissional da área também passou a ser obrigatório, assim como o envio de um relatório de avaliação do estágio, a cada seis meses, à instituição de ensino.

 

Pesquisa nacional
Com a aprovação da Lei de Estágio Nº 11.788, o Núcleo Brasileiro de Estágios (Nube) fez um balanço desses dois anos a fim de mostrar os resultados das mudanças ocorridas no período. Antes da aprovação da lei, havia 1,1 milhão de estagiários no país, sendo 715 mil do nível superior e 385 mil do ensino médio e médio técnico. A pesquisa do Nube aponta que esse número caiu para 900 mil, divididos respectivamente em 650 mil e 250 mil. A redução nas contratações aconteceu devido ao fato de os empresários não terem conseguido se adaptar, inicialmente, ao estágio de seis horas, mas hoje essa situação já se normalizou.

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