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quarta-feira, 19 janeiro, 2022

“O Brasil de Bolsonaro é um fracasso completo”

A afirmação é do cientista político Marco Aurélio Nogueira, professor da Unesp

Por Josué de Oliveira

“Há quase dois anos na presidência da República, Jair Bolsonaro além de não ser considerado por parte dos brasileiros um bom exemplo na condução das ações contra a pandemia do novo coronavírus, conseguiu um feito em tão pouco tempo de mandato, na avaliação do cientista político Marco Aurélio Nogueira: “desmoralizar o país e ainda inflamar uma parcela da população a se encorajar com ataques aos que não concordam com suas posições patriotas e extremamente conservadoras”. Essa é a opinião do cientista político Marco Aurélio Nogueira, professor titular (aposentado) da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Nesta entrevista à ES Brasil, Nogueira avalia o atual cenário político no país, pontua sobre o atual período de governo e o que começou a dar errado para Bolsonaro perder, em parte, sua popularidade diante da opinião pública.

ESB – Em sua avaliação, o Brasil de hoje foi o prometido pelo Governo Bolsonaro em 2018?

Marco Aurélio NogueiraA campanha eleitoral de Bolsonaro, em 2018, foi vazia em termos programáticos e oportunista em termos políticos. Reuniu um conjunto de chavões reacionários e regressistas, dando a eles um verniz pretensamente patriótico, redentor no plano dos costumes e liberal na economia. ‘Brasil acima de tudo, Deus acima de todos’ foi o slogan principal, empregado junto com a promessa de acabar com a política fisiológica do ‘toma-lá-dá-cá’. Considerando tudo isso, o governo nada realizou até agora.
É um fracasso completo. Seu único resultado palpável foi a desmoralização do país, a tragédia da pandemia e a viabilização de uma extrema direita agressiva, que empurra o Brasil para trás.

O que deu errado, em sua opinião?

Tudo deu errado. A começar pela pandemia inesperada e a incapacidade governamental de enfrentá-la. O negacionismo retórico foi institucionalizado e travou as ações do governo. O bolsonarismo foi prejudicado por suas contradições e por sua miséria cultural.

O furor doutrinário reacionário de suas bases não bastou para dar gás ao presidente. O desempenho do governo também foi prejudicado pelo ministério, composto por pessoas medíocres, de baixíssimo nível técnico, intelectual e político. Nenhum ministro fez a diferença, à exceção de Luiz Henrique Mandetta na Saúde, quando explodiu a pandemia. Não foi por acaso que Mandetta foi demitido.

Os ministros não se entendem, não cooperam, falam linguagens desgraçadamente pobres. Na economia, Paulo Guedes tem sido um blefe, que promete e fala muito, mas nada entrega. Sua incompetência como gestor é enorme. No Meio Ambiente, é uma tragédia só, agravada pela conduta criminosa de Ricardo Salles. Pela Educação só passaram figuras patéticas. E por aí vai.

Durante a campanha eleitoral, uma das justificativas para eleger Bolsonaro era tirar o PT para acabar com a corrupção. Isso de fato aconteceu?

Não aconteceu. Antes de tudo porque o governo foi reincidente em crimes de corrupção, como no caso do Meio Ambiente, além de ter dado corda solta para os filhos de Bolsonaro, cada um dos quais tem seu esquema corruptor particular. A violência com a qual o bolsonarismo se associa está invariavelmente ligada a manobras de corrupção, desvio de recursos e utilização indevida de bens públicos.

A vitória de Bolsonaro em 2018 afetou o PT, com certeza, mantendo em evidência o antipetismo. Mas não acabou com o PT. Como o governo entrega muito pouco, termina por perder apoios importantes e se isola politicamente, ficando dependente das bases bolsonaristas, que não se mostram capazes de organização superior. Batem bumbo, fazem algazarras, ameaçam e vociferam, mas não conseguem se projetar como força política organizada.

É uma situação que termina por levar o presidente a manter ativa a ideia de que há forças que não desejam seu sucesso (a mídia, a esquerda, os comunistas, os globalistas, os ambientalistas) e que teriam de ser derrotadas por medidas governamentais duras, eventualmente apoiadas pelas Forças Armadas. É daí que Bolsonaro extrai parte de sua resiliência. Embora isolado e enfraquecido, ele não é um “pato manco”, desprovido de recursos e espaços. A insistência com que adula os militares, bem como a presença numerosa de militares na máquina governamental, mostram que existe de fato nos arsenais ideológicos do bolsonarismo a fantasia de por em curso uma operação golpista dedicada a prolongar a permanência de Bolsonaro no governo, que assumiria uma feição abertamente antidemocrática.

Em sua opinião, a ex-presidente Dilma foi de fato vítima de um golpe?

Golpes parlamentares, manobras políticas, lutas entre partidos são muito mais comuns do que se pensa. O impeachment presidencial é uma medida extrema. Dilma foi golpeada porque não soube lidar com a política durante seu segundo mandato. Isolou-se no Congresso, sendo paulatinamente devorada pelas crises econômica e política.

Como estaria hoje se o Brasil tivesse continuado a ser governado pelo PT? Estaria melhor, pior ou indiferente?

Impossível imaginar isso. Qualquer governo em um quadro de pandemia como a do coronavírus enfrentaria dificuldades enormes. A diferença, no entanto, é que o país poderia ter continuado a ser governado de modo “normal”. Não precisaria ser o PT, poderia ser alguém como Temer.

Nesse caso, a pandemia teria conhecido uma gestão de combate muito mais equilibrada e eficiente, o que teria poupado muitas vidas. Os estragos produzidos por Bolsonaro no Estado, na administração pública, nos sistemas de proteção social, na economia, no meio ambiente, não teriam sido cometidos. O país estaria, certamente, muito melhor.

Nunca se viu tantos ataques à democracia durante a história recente do Brasil quanto no governo Bolsonaro. O que podemos esperar desse cenário?

O resultado principal já é evidente: a desorganização do Estado como aparato de governo, a desmontagem dos sistemas vitais de gestão (Saúde, Educação, Ciência e Tecnologia, sobretudo), a desmoralização das ações governamentais, a diminuição da qualidade do discurso presidencial, que abandonou por completo os protocolos e a liturgia do cargo, com o presidente atuando como um personagem caricato.

Com esse cenário, é de se esperar que os próximos anos sejam de reconstrução. Caso Bolsonaro se reeleja em 2022, o País enveredará por uma senda escura e novas tragédias se acumularão. Se vier a ser derrotado, seu sucessor receberá uma verdadeira ‘herança maldita’, a qual terá de ser desmontada pouco a pouco, mas com atos firmes, reformadores, que não poderão tardar. O país está à espera de um período em que haja menos polarização artificial, mais cooperação e mais generosidade. A desigualdade é brutal, há discriminações agressivas, a improdutividade devora a economia. Estamos perdendo tempo precioso.

Hoje existem mais de 100 pedidos de impeachment contra Bolsonaro na Câmara. Acredita que algum deles possa ser colocado em votação?

Impeachments presidenciais dependem de alguns pré-requisitos: disposição congressual, crimes comprovados e pressão social. A atual CPI da Covid está organizando o elenco de crimes, que já são conhecidos, mas estão agora sendo evidenciados com clareza. Mas a Câmara dos Deputados e o Senado não mostraram, até agora, qualquer apetite para submeter o presidente a uma votação sobre seu impedimento. Em boa medida, estão todos, até mesmo a maior parte das oposições, apostando que o melhor é cumprir o calendário eleitoral e deixar as urnas resolverem a questão. Afinal, falta pouco mais de um ano e meio para o fim do mandato.

Quanto à pressão social, é evidente que ela está sendo atrapalhada pelas medidas sanitárias e pelo receio da população de se contaminar. É de se esperar que cresça na medida em que a vacinação se expandir. Isso acontecendo, terá um efeito importante na dinâmica política, mas não a ponto de fazer com que o impeachment entre nos cálculos dos partidos e dos parlamentares.

Mas não há como cravar prognósticos hoje no Brasil. As nuvens políticas se movem com rapidez e em direções imprevisíveis.

Fala-se muito em terceira via e no surgimento de uma candidatura que articule os políticos e unifique os brasileiros. Qual a sua avaliação sobre isso?

A ideia de uma terceira via seria a de evitar, simultaneamente, o risco de uma vitória de Bolsonaro e a reposição da mesma disputa PT x Bolsonaro que se deu em 2018. Ela se viabilizaria como uma grande aliança partidária que almejaria apresentar um candidato que possa pacificar o país e propor um programa consistente de recuperação nacional, redução da desigualdade e impulsionamento de uma economia sustentável. Trata-se de uma perspectiva generosa, de cuja falta o país se ressente: representaria a possibilidade de que se forme um governo marcado pela moderação e pela sensibilidade social.

Sua materialização, porém, carece de articulação e sofre as consequências da excessiva fragmentação político-partidária, que cresceu muito no Brasil. Os políticos continuam a ser muito personalistas e o sistema eleitoral fomenta a busca por protagonismo, o que dificulta que se abra mão de postulações para os principais cargos em disputa. A fragmentação produz mais fragmentação. Teria de ser combatida com uma dose adicional de desprendimento pessoal e de vontade de contribuir para a formação de uma plataforma democrática consistente, por certo competitiva, mas alimentada por um permanente desejo de que a sociedade como um todo avance e progrida. Nada, porém, é impossível. O fortalecimento de uma perspectiva de terceira via tenderá a produzir incentivos para que haja uma convergência de centro-esquerda ou centro-direita que, se bem apresentada e composta, funcionará como um imã, que atrairá todos os que temem a resiliência de Bolsonaro e suas metas regressistas e autoritárias. Ainda que não se possa dizer isso agora, tal imã democrático-social tenderia a atrair até mesmo Lula e seus seguidores, que só teriam a ganhar com a plena vigência da democracia no país.

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