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sexta-feira, 19 DE julho DE 2024

Zezé Polessa revive Nara Leão em musical: “Era um arquivo vivo”

Estrela do espetáculo ‘Nara’, Zezé Polessa fala sobre versatilidade, luta pela música brasileira e legado de Nara Leão

Por Mariah Friedrich

Reunindo memórias, fatos e curiosidades sobre uma artista que marcou a música popular brasileira por suas atitudes pioneiras e revolucionárias, a peça “Nara” chega em turnê ao Teatro da Ufes, em Vitória, entre sexta (28) e domingo (30), com ingressos a partir de R$ 15,00 (meia), na Sympla. O ES Brasil entrevistou a atriz Zeze Polessa sobre a experiência de dar a vida a Nara Leão no espetáculo. 

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ESB: Nara Leão foi uma grande artista da MPB e continua a influenciar novas gerações. Como tem sido a experiência de mergulhar na vida e na arte da cantora?
Nara foi uma artista muito aberta, mesmo antes de gravar ela começou com a turma da Bossa Nova, mas quando gravou o primeiro disco já estava em outro movimento, com os artistas que faziam o samba de morro, como o Cartola e Zé Ketti, já tinha conhecimento da música nordestina e as músicas não chegavam com facilidade aos lugares.

Então o primeiro disco dela já trazia o samba de morro, as canções de protesto, a música nordestina e daí ela grava um disco de modinhas, um disco dedicado ao repertório de Roberto Carlos, a Paulinho da Viola, teve também samba carioca e só no final da vida, no exílio que ela grava o disco de bossa nova com o Roberto Menescal, depois dois discos com versões de música americana e sul-americana, o último projeto que ela não conseguiu concluir seria um disco só com canções indígenas.

ESB: Como você acha que esse legado continua a influenciar novos artistas e como isso é transmitido na peça?
Ela foi uma pessoa que lutava muito pela música brasileira, para que as rádios não tocassem só os artistas estrangeiros. E depois ela fez uma coisa muito interessante, por ser muito tímida para shows, como as gravadoras exigiam os artistas a fazerem shows ela fez uma proposta de em vez de fazer essas grandes apresentações ir a programas de rádio de diversas cidades conversar com os jornalistas.

Então ela fez isso no interior de São Paulo, Minas, diversos lugares, e era uma pessoa muito interessante e sensível com uma qualidade de descobrir novos artistas, como Caetano, Gil, Maria Bethânia e Gal.

ESB: Como você percebe o desenvolvimento desde a sua juventude em contato com grandes artistas até se interessar em ser cantora?
Inicialmente ela fazia um trabalho jornalístico com a música brasileira, ia garimpando, conhecendo coisas e queria mostrar, mas não com exibicionismo de voz, ela não tinha muita voz, mas depois começou a gostar de cantar e fazer aulas porque eram músicas tão deliciosas.

Quando ela teve um problema vocal ela se lembrou de Maria Bethânia, que tinha conhecido em Salvador, para ocupar esse lugar e ninguém conhecia, achavam que não era uma mulher bonita. Nara dizia que quando Bethânia cantava ficava linda, se iluminava completamente, e Maria Bethânia se tornou essa artista tão importante da música popular brasileira.

ESB: Nara Leão é frequentemente chamada de ‘Musa da Bossa Nova’. Como o musical retrata a influência dela no gênero?
Ela era muito jovem nessa época em que aconteciam as reuniões no apartamento do pai em Copacabana. Roberto Menescal, Carlinho Lyra, Vinícius de Moraes, Chico Buarque e até Roberto Carlos participavam desses encontros. Quando essas reuniões começaram, Nara tinha quinze anos e no início não deixavam ela cantar, falavam que era desafinada, mas sempre que tinham de lembrar de uma música era com a Nara, que era um arquivo vivo.

Eles nem davam tanta importância para ela, porque o mundo era muito machista, mas como ela conhecia, tinha com isso uma oportunidade de cantar. Depois ela foi considerada musa do movimento e realmente não entendeu nada. Eu acho uma bobagem esse rótulo de musa e o Carlinho Lyra fala ‘Ela não era a musa da Bossa Nova, era a música.

ESB: Nara teve um papel importante na introdução e popularização do Tropicalismo. Como o musical retrata essa transição e a importância dela nesse movimento?
Ela foi uma referência, uma mestra para artistas como Caetano, apesar de terem a mesma idade. Desde os onze anos de idade a Nara era ligada 24 horas em música, tocava violão e conhecia de tudo, harmonia, letra, melodia.

Antes do tropicalismo, já tinha passado por alguns movimentos, feito um resgate de músicas antigas da Carmem Miranda, modinhas de Ernesto Nazareth, música nordestina, canções mais sinfônicas de Tom Jobim, mas na tropicália Caetano e Gil pensaram em uma música que incorporasse as expressões musicais brasileiras, sem deixar nada para trás e o movimento tinha também ligações com os artistas plásticos, como o Hélio Oiticica, que o Caetano era ligado.

Um dia a Nara vê um quadro do Rubens Gerchman, que tinha acabado de aparecer em um salão de arte contemporânea, e se apaixona por uma pintura chamada Lindoneia, que traz como se fosse a foto de uma moça em uma moldura de espelho e frases escritas. Então ela pede ao Caetano e ao Gil para compor a música sobre a mulher desaparecida.

Quando fizeram o disco “Tropicália Panis et Circenses”, eles chamam a Nara para cantar, mas ela não se considerava uma pensadora da tropicália, tanto que não foi fazer a foto do disco que aparece todos os artistas que participaram, então na capa ela aparece apenas em uma foto que é colada sobre o retrato.

ESB: O espetáculo é resultado do seu desejo em reviver Nara nos palcos, compartilhado com seu amigo e parceiro de projetos teatrais Miguel Falabella, que assina a dramaturgia. Como o público tem recebido o espetáculo?
Tem sido uma resposta muito linda, amam a Nara, saber sobre ela, ouvir as músicas, cantar junto, gostam de me ver e do texto de Miguel.

ESB: Qual foi o aprendizado que trouxe para sua vida pessoal e profissional durante o processo de incorporar Nara em sua atuação?
O maior aprendizado é a liberdade de ser, ela teve uma vida muito intensa.

Serviço

Nara
Sexta (28) e sábado (29), 20h, e domingo (30), 16h e 20h
Teatro da Ufes – Avenida Fernando Ferrari, 514 Goiabeiras
A partir de R$ 15,00 (meia), na Sympla

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