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segunda-feira, 2 agosto, 2021

Cristhine Samorini: os desafios da indústria capixaba em 2021

Presidente da Findes acredita em resultados positivos para a economia capixaba neste ano, e comenta as medidas necessárias para ajudar o setor e combater a pandemia

Por Mike Figueiredo e Josué Oliveira

Até 2023, a Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) tem Cristhine Samorini como presidente. Ela venceu a eleição no ano passado e se tornou a primeira mulher a ocupar o cargo de presidente da federação.

A nova presidente assumiu em um ano controverso, cheio de dificuldades e incertezas. “Estamos diante de um período desafiador para nossas indústrias e nosso país”, reconheceu ela à época da posse.

Cristhine Samorini é formada em Marketing pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), com especialização de Administração de Empresas pela Universidade Vila Velha (UVV). Ela é diretora comercial da Grafitusa S/A desde 1997. Foi escolhida presidente da Findes enquanto representante do Sindicato das Indústrias Gráficas do Espírito Santo (Siges).

Nesta entrevista, Cristhine destaca os principais desafios da indústria capixaba em um ano de recrudescimento da Covid-19 no Brasil.

ES Brasil: Como está o movimento da indústria em 2021, quais são as perspectivas para os próximos meses e qual a percepção da Findes para a indústria capixaba neste ano?

Tivemos um desempenho no Espírito Santo abaixo do registrado no Brasil, em comparação com os demais estados. É bom lembrar como nossa principal vocação está ligada ao comércio exterior. A pandemia se iniciou em países que são clientes potenciais da nossa produção. Com isso, começamos a sentir os efeitos antes da maioria dos estados brasileiros em relação ao impacto na economia.

Foram criados protocolos de saúde e realizadas revisões de operações junto ao nosso Sesi Saúde. As indústrias fizeram um movimento de reestruturação para que tivessem o mínimo possível de impacto. Foi muito importante participar dessa atuação e conseguimos passar até o momento atual com nenhuma indústria tendo que suspender as operações, diferente de outros estados onde houve, de fato, suspensão.

Isso mostrou claramente que contribuímos, principalmente, para fazer um controle e combate inicial da transmissão da pandemia sem atingir a operação. Além da preocupação com a parte da saúde, que teve os protocolos muito bem estabelecidos. Conseguimos, então, que a indústria tivesse impacto na produção somente devido à redução de consumo no cenário mundial.

No ano passado, tivemos uma recuperação importante representando sinais iniciais de crescimento em 2021. Iniciamos o retorno das operações da Samarco, após cinco anos parada. Tivemos também a volta do terceiro forno da ArcelorMittal, que havia sido suspenso no início da pandemia. Além disso, houve o início da reativação do complexo de Vargem Grande, da Vale, em Minas Gerais, para a retomada do envio de minério fino ao Espírito Santo.

Em 2021, acreditamos no crescimento e em resultados positivos. Tanto que vemos aumento no consumo de commodities em volume de mercado. Temos o desafio principalmente de tornar o Espírito Santo menos dependente de commodities. Mas isso é uma vantagem por termos indústrias fortes e bem estabelecidas no cenário mundial que contribuíram para passarmos por esse momento.

A Findes tem um comitê interno para discutir com as indústrias o cenário atual, as projeções, o que podemos fazer nesse novo cenário.

Temos um índice de confiança do empresariado crescente. Nosso Indicador de Atividade Econômica do Espírito Santo (IAE-Findes) mostra um resultado importante de crescimento da credibilidade em relação ao retorno da economia. Claro que temos a história antiga das reformas estruturantes que precisamos enfrentar, o que temos feito bastante.

Estamos com projeções importantes de crescimento, apesar do cenário muito instável, principalmente com a terceira onda de Covid-19 no Brasil. Precisamos superar e melhorar essa questão de entendimento da vacinação. É algo que vemos como a principal solução para que tenhamos mais estabilidade para o desenvolvimento econômico no mundo, e não apenas no Espírito Santo. O impacto do cenário global que reflete em qualquer mercado atualmente.

Isso ainda é uma situação que nos deixa preocupados. O setor industrial tem grande força, e a junção de pessoas que tiveram atuação importante no combate, no primeiro momento da pandemia, possam agora colaborar na vacinação.

Falando da parte econômica, estamos com bons projetos para o Espírito Santo. Por exemplo, tivemos o anúncio recente da fábrica de café solúvel Olam, com mais de R$ 700 milhões de investimento, que representará crescimento de emprego em Linhares. No Plano ES Convivência Consciente, temos até 2022 a previsão de até R$ 6 bilhões em investimento na indústria do Estado. É um cenário muito positivo e estamos fazendo grande esforço, mantendo contato com a Secretaria da Saúde para entender os próximos passos, além de contribuir e juntar esforços.

“Estamos diante de um período desafiador para nossas indústrias e nosso país. Vamos trabalhar juntos para sairmos mais fortes desta crise. Quando decidi colocar meu nome à disposição dos sindicatos filiados à Findes, tinha conhecimento que seria um desafio enorme” – Cris Samorini, presidente da Findes – Foto: Divulgação

Quais as iniciativas para fomentar, amparar ou estimular a atividade da indústria local durante a pandemia?

As iniciativas da Findes estiveram presentes desde o princípio da pandemia. No apoio ao desenvolvimento das indústrias, ajudamos nos protocolos de saúde, por meio do Sesi Saúde. Montamos um comitê interno para concentrar informações, principalmente de disponibilidade de crédito para empresas. Apesar de ter sido uma atuação emergencial, houve continuidade das ações.

A Findes vem estruturando o eixo de defesa de interesses onde se concentram as câmaras e os conselhos para ouvir, de forma mais rápida, as necessidades que aparecem a todo momento. Ainda estamos no momento de ajustes e os empresários ainda têm insegurança para onde caminhar. Então, temos dado uma resposta mais rápida. A estrutura no eixo é para ouvir de forma mais próxima a demanda da indústria, trazer para dentro da Findes e ter uma atuação mais imediata.

O que percebemos de mudança nesse cenário da pandemia é a importância da temática de inovação, que era algo previsto de acontecer quando nos preparamos para a indústria 4.0. Em 2020, foi crescente a atuação da inovação, principalmente para a mudança de cenário, de mercado, de forma de consumo, de forma de vendas, o acesso, a melhoria de processos, o aumento da eficiência. Porque é isso que vivemos nessa realidade.

Estamos dando apoio para as empresas estarem inseridas nessas mudanças de mercado. Nossa ferramenta principal é o FindesLab, que atua para levar inovação a qualquer nível de porte industrial. Também estamos atuando em outros setores que não são especificamente indústria, para estabelecermos o desenvolvimento da inovação e trazer melhorias ao Estado. O mundo caminha para esse avanço e temos que fazer o esforço de forma contínua.

Também há o apoio para implementação de tecnologia para que nossas indústrias caminhem rumo à transformação digital da indústria 4.0. Entendemos que isso será essencial para as empresas sobreviverem no mercado.

Qual sua análise sobre o pacote econômico anunciado pelo governo do Estado – Plano Espírito Santo Convivência Consciente – e que medidas ainda precisam ser realizadas?

Muitas dessas medidas atendem aos pleitos da Federação das Indústrias do Espírito Santo, entre elas a que posterga a parcela do ICMS, do Simples Nacional e a renovação das certidões nos próximos três meses. Mas precisamos de mais medidas. As prefeituras de todo o estado também precisam prorrogar os pagamentos e tributos e a renovação de alvarás. Precisamos que o governo federal renove a medida provisória que permite a suspensão do contrato de trabalho, a redução de jornada e salários para preservar os empregos.

Todas essas medidas são apoio emergencial para que o empresariado possa atravessar este momento mais crítico. Os protocolos de segurança e a vacina são as únicas possibilidades de enfrentar esta batalha. Todos nós temos que colaborar para reduzir a pressão sobre o sistema de saúde. Juntos, com a colaboração de todos, vamos superar este momento.

Acredita em crescimento econômico para o estado este ano, já que a pandemia continua forte?

O Congresso Nacional, por exemplo, acaba de aprovar duas medidas importantes para estimular investimento e gerar oportunidades. São elas: a nova lei do gás e o marco regulatório do saneamento básico. A aprovação desses novos marcos é uma demonstração clara de que o país pode atuar em duas frentes emergenciais. a primeira delas é o combate à pandemia, e a segunda, a agenda de reformas. Com a última, criarmos condições para uma retomada sustentável da economia. A Findes vem atuando intensamente nos últimos anos pela aprovação dessas medidas. Ao longo desse período, dialogamos com autoridades estaduais e federais, com os parlamentares da bancada capixaba e, inclusive, colaborando diretamente na construção do marco legal do setor do gás no nosso estado.

O enfrentamento da pandemia é urgente, mas sempre ressalto às lideranças políticas e empresariais que precisamos atuar nas duas frentes: na pandemia, com a mobilização pela vacinação de todos os brasileiros e na observação dos protocolos de segurança, e também na agenda legislativa.

Christine Samorini
Cristhine Samorini, presidente da Findes – Foto: Reprodução / LinkedIn

Na sua avaliação, como está o ritmo de vacinação? Há uma esperança de que este ano a população capixaba seja vacinada e os trabalhadores possam a voltar aos seus postos de trabalho?

A Findes vem realizando diversas ações para apoiar a sociedade e as empresas capixabas a passarem por este momento crítico da pandemia. Entre as medidas, está a negociação da compra de 3,5 milhões a 5 milhões de doses de vacina. Caso o acordo seja concretizado, os imunizantes podem chegar ao estado em até três semanas.

A compra das doses, se viabilizada, será efetivada por meio de uma parceria da Findes, contando já com o interesse de outras federações das indústrias dos estados de Minas Gerais, Goiás, Santa Catarina e Ceará. Esse processo está sendo discutido com um fundo que adquiriu quase 100 milhões de doses da vacina contra a covid-19 produzidas na Europa. Desse total, 60 milhões ainda estão disponíveis à venda.

Já realizamos o credenciamento do profissional que irá representar o Espírito Santo nas negociações junto a esse fundo. Por confidencialidade das negociações, até o final do acordo, o nome do fundo e do laboratório fabricante não podem ser divulgados.

Essas vacinas serão destinadas, a princípio, ao Sistema Único de Saúde (SUS), como determina a legislação federal (Projeto de Lei 534/2021). Elas serão usadas na vacinação dos grupos prioritários, definidos pelo Ministério da Saúde. Após essa fase, metade dos imunizantes poderá ser usada pela iniciativa privada e a outra metade será remetida ao SUS, como estabelece a lei. Ressalto que esse é um esforço conjunto entre federações para acelerar a vacinação de toda a sociedade.

Acrescento que a Findes apoia o Movimento Unidos pela Vacina, iniciativa apartidária que tem o objetivo de imunizar toda a população brasileira até setembro. Entendemos que a imunização da população é essencial para preservar vidas e empregos, ela possibilitará a plena retomada da atividade econômica. A vacinação em massa e o cumprimento dos protocolos sanitários são os únicos caminhos que temos para conter o vírus.

A pandemia já está há mais de um ano presente na vida das pessoas. É uma situação que pegou o mundo de surpresa. Como a presidente da Findes, enquanto empresária, enxerga essa situação?

Trata-se de um momento da história que marcou toda a população mundial. Primeiro, a preocupação ainda é a preservação de vidas. Nossa retomada nas temáticas de trabalho é para rever os protocolos de saúde para convivermos nesse momento com mais segurança. Sabemos que a forma de se relacionar em reuniões ou debates presenciais se tornou completamente diferente do que vai permanecer. As ferramentas [para encontros virtuais] estão aí à disposição e já utilizamos como regra na Findes. Inclusive a prática de home office, que consideramos que não vai se modificar, é uma oportunidade para viabilizar mais qualidade de vida para as pessoas.

Não podemos deixar de destacar o seu papel à frente da Findes. Como você vê o protagonismo da mulher na indústria capixaba e na gestão?

Realmente tenho percebido como tem relevância para muitas pessoas o papel que estou cumprindo no momento. Mas, é bom lembrar que qualquer mulher poderia assumir o mesmo papel que eu assumo. O que eu passo hoje à frente da Findes veio através da minha força de vontade e da minha dedicação. É claro que isso é um marco importante para vermos que há um espaço a ser percorrido e a ser preenchido e que nós, mulheres, somos capazes de conseguir alcançar nossos objetivos.

Mas é importante frisar que precisamos de dedicação, de persistência, de capacitação. A minha sugestão é que [as mulheres] corram atrás dos seus objetivos porque podemos ocupar todos os espaços. E isso não quer dizer que estamos gerando concorrência aos homens, mas sim que estamos aqui para colaborar, trabalhar junto e trazer mais resultados.

No Sistema Findes, muitos espaços são preenchidos por mulheres, para minha felicidade. Isso acaba me complementando bastante. Que bom que tenho conseguido passar uma imagem de que o espaço que ocupo hoje é algo bem simbolizado e representativo para muitas mulheres.

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