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domingo, 24 janeiro, 2021

Entrevista com Enio Bergoli

“Não podemos, neste terceiro milênio, ter uma agricultura degradadora de recursos naturais”
Gaúcho, filho de agricultores, o engenheiro agrônomo Enio Bergoli tem sua vida intimamente ligada ao mundo rural. Funcionário público há 26 anos, fez carreira no Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), e desde outubro de 2009 está à frente da Secretaria Estadual de Agricultura (Seag), onde tem focado seu trabalho na melhoria da qualidade de vida do homem do campo e na agregação de valor aos produtos agrícolas capixabas. Nesta entrevista, o secretário comenta as principais ações do Governo do Estado para fomentar o desenvolvimento do agronegócio no Espírito Santo.

ES Brasil – Em que a Seag tem focado seus investimentos? Por que essas áreas estão sendo priorizadas?
Enio Bergoli – Focamos os investimentos na agricultura, basicamente, em três grandes grupos. O primeiro é a infraestrutura rural, direcionando investimentos para a pavimentação de estradas, habitação, telefonia e energia, por exemplo. Uma outra frente de investimento são as atividades geradoras de renda. Os agricultores e pecuaristas não têm contracheques, eles precisam gerar renda para se manter na propriedade, para ter qualidade de vida, para educar seus filhos, enfim, para garantir a sobrevivência da agricultura. Por isso, temos programas de melhoria da qualidade e da produtividade do café; estamos investindo nos polos de fruticultura; e é aí que entram os nossos programas de apoio à aqüicultura, à silvicultura para fins econômicos, entre outras atividades geradoras de renda. E uma terceira frente de atuação é o que chamamos de políticas sociais e ambientais. Aqui, temos programas importantes, como qualificação profissional, e também aqueles voltados para a preservação ambiental, como proteção de nascentes e recuperação de áreas degradadas.

Quais são as potencialidades do Espírito Santo no campo hoje? Que ações do governo ajudam esses setores a crescer ainda mais?
O Espírito Santo é um pequeno gigante na agricultura. Com apenas 0,5% da área geográfica do país e, mesmo assim, é o segundo maior produtor de cafés do Brasil, sendo o primeiro de conilon, com cerca de 75% da safra nacional desta variedade; somos o segundo maior produtor e o maior exportador de mamão; os maiores exportadores de raízes do Brasil, como gengibre e inhame; o quarto maior produtor de seringueira do país; o maior exportador de celulose de fibras curtas do Brasil; enfim, temos muitas excelências de nossos produtos, que se destinam para os capixabas, para os brasileiros e para mais de 100 países do mundo. Somos altamente competitivos em várias cadeias produtivas da agricultura. Mas temos um conjunto de atividades agrícolas mais relevantes: a cafeicultura vem em primeiro lugar, sendo responsável por cerca de 40% de toda a renda de agricultura. Depois, vem a pecuária, com mais ou menos 20 a 21%; e em terceiro a fruticultura, que está crescendo, na faixa de 16 a 18%. Mas temos expressões e potencial para muitas outras atividades. A aquicultura por exemplo, tende a evoluir muito.

Que carências a agricultura capixaba ainda possui que precisam ser resolvidas e o que está sendo feito para superá-las?
Um dos grandes desafios é que nós precisamos, cada vez mais, evoluir em reservação e em armazenamento de água. Não se produz alimentos, fibras e energia renovável a partir da agricultura sem água. E o Espírito Santo tem uma característica de clima que leva a um balanço hídrico negativo. Ou seja, precisamos armazenar água. Outro desafio é avançar em sistemas mais sustentáveis de produção, que preservem melhor os recursos naturais. Nós fazemos a agricultura e a pecuária em pouco menos de três milhões de hectares no Espírito Santo, e os últimos estudos, realizados há alguns anos, indicam que temos aqui cerca de 600 mil hectares parcialmente degradados. Portanto, um em cada cinco hectares que utilizamos para fazer a agricultura está degradado. Esse é um indicador de inssustentabilidade, mas que felizmente regrediu nos últimos anos. Neste primeiro semestre, deve ser finalizado um estudo, que está em andamento, que vai atualizar estes números. Mas agora precisamos, mais do que preservar recursos naturais, recuperá-los, e essa é a função do Programa Reflorestar.

O que está sendo feito para aliar o desenvolvimento do setor à preservação dos recursos hídricos capixabas?
O Espírito Santo está entre os três estados com a maior área irrigada do país, proporcionalmente à área em que se faz agricultura. Isso foi uma estratégia de defesa dos agricultores para diminuir os riscos. Então, foram construídas muitas estruturas de barragens, especialmente no norte. Agora, mais do que armazenar, nós precisamos evoluir no tipo de irrigação, nos equipamentos que se utilizam, reduzindo o desperdício de água e energia. O governo fomenta, apoia e ajuda a pegar crédito,e existe o crédito adequado para renovar esses equipamentos, trocando por outros, mais eficientes. São dois os grandes desafios que temos hoje: armazenar e utilizar bem a água, e cada vez mais avançar em sistemas mais sustentáveis de produção. Ou seja, precisamos recuperar nascentes, recuperar as áreas de preservação permanente, enfim, ter um modelo de agricultura menos agressor.

A agricultura familiar é uma das bases da agricultura capixaba. O que a Seag tem feito para estimular os pequenos produtores do Espírito Santo?
A agricultura familiar está presente em 80% das propriedades rurais, ou seja, 67 mil das 84 mil propriedades rurais capixabas são de base familiar. O que merece destaque é que a agricultura familiar ocupa 36% da área, mas gera 44% do valor da produção agrícola. De acordo com os últimos dados, em termos de mão de obra rural empregada, nós tínhamos 317 mil pessoas residentes no campo que se diziam ocupadas com a atividade rural, e destas, 202 mil vêm da agricultura familiar, o que representa 64% das pessoas ocupadas no campo. No final do ano passado, lançamos um programa chamado “Vida no campo”, composto de 13 projetos e exclusivo para a agricultura familiar. Trata-se de projetos no campo da assistência técnica, da pesquisa, da comercialização, da juventude rural, da habitação rural, que entre 2011 a 2014 vão receber cerca de R$ 2,5 bilhões, sendo que, desse montante, R$ 2 bilhões serão destinados ao crédito rural.

O Espírito Santo tem hoje 12 pólos de fruticultura implantados. Entre esses pólos, qual se destaca? Por meio de que ações a Secretaria tem ajudado o setor?
No início de maio devemos lançar o 13º polo de fruticultura, que é o de caju, no litoral do extremo norte do Espírito Santo. Através dos polos de fruticultura, estamos aproximando a agricultura capixaba de uma agricultura de primeiro mundo. Antes de começar a safra, o governo do Estado, por meio do Incaper, calcula os custos de produção e faz um acordo com quem compra. Assim, os produtores têm contratos previamente firmados e sabem para quem vão vender, reduzindo o risco. O Espírito Santo tem aptidão do seu quadro natural para produzir frutas, pois possui uma diversidade muito grande de climas e de solos. Além disso, a fruticultura é uma atividade que gera renda em pequenos espaços e esta é a realidade para 80% dos nossos agricultores. E o terceiro ponto fundamental de apoiarmos a fruticultura é que, à medida que o Brasil vivencia um crescimento de renda, o consumo de frutas aumenta. Então, existe demanda.

No ano passado, a cafeicultura capixaba também apresentou bons resultados, obtendo a maior produtividade do Brasil. O que podemos apontar como causas desses bons resultados?
O que justifica isso são, basicamente, as tecnologias geradas aqui no Espírito Santo, através do Incaper, aliadas à capacidade empreendedora dos cafeicultores, que pegaram essas tecnologias e conhecimentos e os estão utilizando na prática. Com isso, demos um salto na nossa cafeicultura. No ano passado, colhemos 11,5 milhões de sacas, a maior safra da nossa história. Nos últimos 18 anos, após o Incaper ter lançado as três variedades clonais em 1993, a área plantada com o conilon cresceu só 7%, mas a produção cresceu três vezes e meia. Isso é fruto de ciência e tecnologia aplicada, que ampliou muito a produtividade por área.

Quais são as alternativas para agregar valor ao café capixaba?
Cada vez mais as misturas, os blends, estão sendo utilizadas na composição de qualquer tipo de alimento ou bebida, incluindo o café. O conilon entrava em blends com o arábica para dar rendimento, só que isso está mudando, pois cada vez mais vamos identificando características desejáveis de aroma e sabor no conilon. Mas o agricultor tem colocado defeitos no café. A forma de colher, o ponto certo de colher, a maneira de descascar o café, a forma de secagem, são uma série de aspectos em que precisamos melhorar, ou seja, além de cada vez mais buscar variedades de conilon que tenham características desejáveis de aroma e sabor, — e não somente produtividade, tolerância à seca, tolerância a pragas -, a outra medida necessária é não colocar defeitos depois de colher, o que chamamos de tecnologia de colheita e pós-colheita.

O Estado tem recebido grandes plantas industriais. Como fica a agricultura frente a essa realidade?
Nesse contexto, a agricultura capixaba se torna ainda mais estratégica. Por isso, é uma determinação do atual Governo colocar a agricultura como um tema estratégico. É claro que nós vamos ter um dinamismo econômico muito forte de investimento liderado pelas cadeias produtivas de petróleo, gás e siderurgia, que tende a se concentrar ao longo do litoral e na Grande Vitória. Mas queremos um desenvolvimento harmônico e equilibrado, para todos os capixabas e para todas as regiões, e vai ser a partir do fortalecimento das cadeias produtivas do agronegócio que as regiões não alcançadas pelas cadeias de petróleo e gás e siderurgia vão basear a geração de emprego, de renda e de tributos.

O Estado tem atualmente 2,2 milhões de cabeças de gado, incluindo de corte e leite. Qual a característica principal do rebanho capixaba? Quais têm sido as principais tecnologias empregadas para uma melhor produtividade na pecuária no Espírito Santo?
A pecuária de corte, por não termos muito espaço, é pequena a nível de país, mas está avançando muito em termos de tecnologia. Nós temos bons criadores no Espírito Santo, que trabalham com genética, com matrizes e reprodutores. Já a pecuária de leite é uma atividade grande aqui no Espírito Santo, que envolve muitas propriedades rurais. Trabalhamos uma série de ações para que a tecnologia chegue efetivamente nas comunidades de pequenos pecuaristas, como a distribuição de resfriadores de leite para uso comunitário e núcleos de inseminação artificial. E é possível já verificar muitos resultados positivos do programa de pecuária, que conta também com pastejo rotacionado e irrigado. Utilizando essas técnicas e também melhorando o padrão dos animais, passamos de uma produtividade de 1,5 mil litros de leite por hectare por ano para até 30 mil litros de leite por hectare por ano. Outra vantagem é que, à medida em que vamos tecnificando a pecuária de leite, os produtores vão produzindo mais leite em menos área, tendo mais retorno financeiro, e com isso sobra área para que possamos fazer a recuperação ambiental. Essa é a lógica. Não vai ser através do discurso, da ideologia, que os agricultores vão recuperar o espaço, será através da renda.

Quais são as próximas fronteiras que a agricultura e a pecuária terão que vencer para obter um maior valor agregado no Espírito Santo?
Um grande desafio é, cada vez mais, agregar valor à produção agrícola. Por exemplo, o café, que é o nosso principal produto, ainda é exportado, basicamente, sem qualquer agregação de valor. Cerca de 95% das exportações de café do Brasil são na forma de grão verde. E isso vale para várias cadeias produtivas. Os agricultores e pecuaristas precisam ter os benefícios da agregação de valor em terras capixabas e brasileiras e, se possível ainda, de forma cooperativa.

 

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