Elas estão no comando

Independentes, sonhadoras e determinadas. Esse é o perfil de muitas mulheres que buscam cada vez mais o seu espaço no mundo

* Por Yasmin Vilhena

O dia possui apenas 24 horas, mas teria muito mais se dependesse das mulheres. Até porque são tantas as funções desempenhadas nessa correria que fica difícil dar conta de tudo. Trabalho, filhos, marido, estudos, casa e até mesmo academia para algumas privilegiadas, quando conseguem arrumar um tempinho para se exercitar. O que não faltam são atividades corriqueiras
para tornar uma simples semana em uma grande maratona, que para ser vencida precisa de muito “combustível” na missão de matar um leão por dia. Mas disposição elas têm, afinal, estamos falando de desbravadoras que conquistam cada vez mais o seu espaço no mundo, rompendo barreiras e chegando a lugares até então inimagináveis, principalmente quando o assunto é o mercado profissional. Basta vermos os dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) do Ministério do Trabalho, que em 2004 registravam 12,5 milhões de trabalhadoras com carteira assinada, um número que quase dobrou em 2014, quando chegou a 21,4 milhões, 43,25% do total.

De acordo com o levantamento, o desempenho feminino está concentrado em alguns segmentos, como o de serviços, comércio e indústria. No Estado, por exemplo, sua presença no setor industrial é bastante expressiva, com a participação de 46.547 mulheres, que juntas, respondem por 22,3% da força de trabalho dessa atividade, segundo aponta o Instituto de Desenvolvimento Industrial do Espírito Santo (Ideies). Outro campo que se destaca no país é o da administração pública, onde elas são a maioria, ocupando 5,5 milhões dos 9,5 milhões das vagas.

E toda essa inserção ao longo dos anos vem sendo percebida, em especial, a partir da década de 1970, quando as mulheres entraram com bastante força na vida profissional. Índices dos Censos Demográficos calculam que, em 1970, apenas 18,5% das mulheres eram economicamente ativas. Em 2010, esse patamar foi de quase 50%.

“Nos últimos 30 anos, o que chama atenção é a persistência desse crescimento. As mulheres representam um papel muito mais relevante do que o dos homens no aumento da população economicamente ativa, embora a história feminina no mercado de trabalho ainda esteja sendo construída baseando-se em dois pontos muito significativos: a queda da taxa de fecundidade e o avanço de instrução”, revela Etienne de Castro Tottola, analista comportamental e coach da Agha RH.

Se antes, em 2004, a taxa de fecundação brasileira era de 2,14 filhos por mulher, em 2014 esse número passou para 1,74, apresentando uma redução de 18,6%, segundo a Síntese de Indicadores Sociais (SIS) de 2015 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE. Outro fator que influencia de maneira significativa a entrada delas no mercado de trabalho, de acordo com o levantamento, é a jornada dedicada aos afazeres domésticos, que caiu de 22,3 para 21,2 horas semanais.

“A análise da situação da presença feminina no mundo do trabalho passa por uma revisão das próprias funções sociais da mulher. Ela assumiu novo papel com a mudança da estrutura familiar e com a decisão de adiar os planos da maternidade, inclusive diminuindo o número de filhos. Isso faz com que tenha mais possibilidade de conciliar a vida pessoal e profissional”, acrescenta Etienne.

E mesmo ganhando mais visibilidade nas últimas décadas no que diz respeito à vida profissional, a jornalista Juliana Albanez, que também é coach e palestrante nas áreas de Motivação e Liderança Feminina, acredita que a determinação para uma independência financeira sempre esteve presente nessa luta. “A mulher sempre foi uma grande lutadora, e essa virtude sempre nos colocou em evidência quando o assunto era força de trabalho. Basta nos lembrarmos de nossas avós e bisavós, que tinham diversas funções fora e dentro de casa. Eram camponesas, costureiras, quitandeiras, lavadeiras e ainda tinham filhos, marido e uma casa sob sua responsabilidade. A mulher sempre foi uma sobrevivente, trabalhou em situações precárias e bem adversas. O que mudou nos últimos tempos foi que hoje ela escolhe que carreira quer seguir”, analisa.

Rotina que começa cedo
“Acordo todos os dias às 4h50; às 5h30 estou na academia; às 7h quase sempre tomo café com meu marido; e às 8h já estou na empresa. Durante as 10 horas de trabalho dedico-me 100%, e às 19h finalmente chego em casa. Eu me desafio sempre a chegar com alegria, com leveza e com uma energia boa para curtir a minha família, deixando preocupações profissionais registradas no bloco de notas, para eu retomar no dia seguinte no caminho para o trabalho.” É com esse pensamento e (por que não dizer?) disposição que Paula Tommasi, diretora Comercial & de Marketing da
Viação Águia Branca, começa seu dia.

Com uma vida bastante agitada, ela exerce funções de liderança em seu trabalho para alinhar e engajar mais de 1.500 profissionais de vendas, entre próprios e terceiros. Algo que até então pode ser considerado um grande desafio para muitas, mas que para a executiva já se tornou parte da rotina. “Sinto-me diariamente desafiada a criar um ambiente e condições de trabalho que permitam a inovação e o sucesso, capacitando e fortalecendo a equipe para resolver problemas complexos e promovendo uma comunicação clara que flua em todos os sentidos”, complementa.

Quem também desempenha um papel importante em um meio que por muitos anos foi voltado para o perfil masculino é a diretora- executiva da Vitória Motors Mercedes-Benz, Patrícia Asseff, que não abre mão de certos hábitos de sua vida pessoal, considerados por ela como importantes para que se tenha qualidade no ambiente profissional. “Hoje, eu consigo achar um equilíbrio. Exercito-me todos os dias, exceto na quarta-feira, quando tenho uma manicure sempre às 6h30. Às quartas à noite também tenho culto na igreja em que frequento do qual não abro mão. O que gosto de fazer é me relacionar. Gosto de ter pessoas na minha casa. É isso é que me sustenta além da minha relação com Deus, que é quem nos dá força. Todos os dias eu busco sempre ter um momento com Deus e com meu marido antes de sair de casa. É um momento que me renova”, afirma.

Por sempre ter trabalhado perto de casa, Patrícia também conseguiu participar bastante da vida de seus filhos, seja almoçando em sua residência ou seja levando e buscando as crianças na escola. “Acaba sendo um tempo precioso com a família”, pontua. Responsável por organizar diversos eventos no Estado, como a Cachoeiro e a Vitória Stone Fair, Cecília Milanez, diretora da Milanez & Milaneze, faz parte do seleto grupo de empreendedoras no cenário capixaba. E uma parcela de seu sucesso como empresária deve muito ao apoio do marido, Ilson Milaneze, que sempre esteve ao seu lado para que crescessem juntos na empresa.

“A questão é saber conciliar a vida profissional com a pessoal, preservando a estrutura da família, mas é claro que isso também depende muito do marido que a gente tem. Esse negócio de os homens dizerem que não pode fazer isso ou aquilo atrapalha bastante, pode até influenciar no crescimento profissional. Ele é reconhecido como diretor da Milanez & Milaneze, assim como eu também sou, ou seja, conseguiu mostrar tanto o papel dele quanto o meu. É preciso ter parceria e cumplicidade, ainda mais quando os dois trabalham juntos”, orienta Cecília.

Características que fazem a diferença
Além de saber conciliar todos os momentos do dia a dia, as mulheres vêm se destacando bastante por conta de características que as tornam únicas, como a flexibilidade e a habilidade de engajar pessoas. “Nós, mulheres, temos muitos ingredientes que são fundamentais para quem quer ter sucesso no mercado de trabalho. Somos mais colaborativas e participativas, e o mundo vem pedindo isso. Acabou aquela postura sisuda, que ficava atrás da mesa, mandando e desmandando aos gritos nas empresas. Essa presença mais democrática é fundamental para determinar o sucesso no mercado, e aí já temos um ponto à frente”, comenta a coach Juliana Albanez.

Qualidades como a multifuncionalidade também são muito importantes na vida corporativa, afinal, aqueles que sabem desempenhar vários tipos de funções tendem a se destacar mais no mercado de trabalho, conforme aponta a analista comportamental Etienne de Castro Tottola. “A multifuncionalidade das mulheres, que em alguns casos era colocada como forma de discriminação ou chacota, ‘esquenta a barriga no fogão e esfria no tanque’, demonstra como são capazes de se adaptarem rapidamente às variantes e às necessidades de suas ocupações. Conseguem realizar várias tarefas ao mesmo tempo e de administrá-las de forma coerente”, explica.

Tal como os homens, as mulheres têm qualidades e características favoráveis para se tornar líderes e são tão eficientes quanto eles para assumir postos estratégicos e de grande responsabilidade em uma corporação. Segundo dados mais recentes da Pesquisa Salarial e de Benefícios da Catho, houve um crescimento do público feminino em cargos executivos. Em 2009, 23% desses postos eram preenchidos por elas, enquanto que em 2015 o número passou para 27,8%.

Mas e os homens, como assimilam esse avanço do sexo oposto? Será que vez ou outra pode acontecer de ter aquele preconceito chato? Na vida de Paula Tommasi, não. De acordo com ela, a receptividade masculina em seu trabalho é muito boa. “Vez ou outra, em reuniões difíceis, escuto que trago leveza à discussão e com minha presença feminina torno o ambiente mais agradável”, afirma.

As dúvidas que pairariam em boa parte das mulheres, caso viessem a ocupar uma função importante no mercado automotivo, não fazem parte do cotidiano de Patrícia Asseff, que justifica o seu sucesso profissional a duas palavras: ética e metamorfose. “Para mim, é tão natural que eu nem penso nisso. Ao longo do tempo, percebi que uma coisa é fundamental, a ética. Outra palavra que me retrata muito é a metamorfose, pois estou sempre me renovando para alcançar os objetivos e encarar os desafios diários”, observa.

Seja pela facilidade para se reinventar, seja pela postura diante de desafios ou seja pela persistência frente às dificuldades, uma coisa é certa: elas estão com tudo e prometem ir ainda mais longe. “O Brasil é um país de mulheres poderosas. Um país com tantas realidades, adversidades, instabilidades e nós, mulheres, somos o pilar, o ponto de equilíbrio de um lar. Temos muito o que comemorar, nossas conquistas e tudo que conseguimos com muita luta. Nem nossas avós, nos melhores sonhos, poderiam imaginar que chegaríamos tão longe. Podemos ser mulheres, líderes, executivas, profissionais liberais, donas de casa e femininas sem vergonha de nossa essência. Não temos que ser perfeitas em tudo, temos que ser plenas e viver cada papel com intensidade. Quando olhamos por esse prisma, nos libertamos do mito da perfeição”, afirma.

A matéria acima é uma republicação da Revista ES Brasil. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.  

 

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