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domingo, 31 maio, 2020

Drogas, flagelo social e econômico

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No Brasil, uso abusivo de substâncias lícitas e ilícitas afasta do trabalho cinco pessoas por hora, causando prejuízos às empresas e à sociedade

Desde a Revolução Industrial, lá nos idos de 1850, o mundo do trabalho sempre se defrontou com grandes dificuldades para conciliar alta produtividade com qualidade de vida para os trabalhadores. Mas, do trabalho quase escravo nas fábricas inglesas até o ambiente regulado pela Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) em que se vive hoje, muitas coisas evoluíram. A tal ponto que, atualmente, a preocupação com o bem-estar, a saúde e a segurança dos colaboradores é parte integrante e inseparável dos requisitos de gestão de qualquer empresa que deseja manter-se no mercado.

Entretanto, se, por um lado, a modernidade trouxe avanços na administração e nas leis, por outro lado também colocou novos desafios para os gestores, que precisam endereçá-los em seus projetos e orçamentos e encontrar soluções preventivas e corretivas, evitando que os problemas se agravem. Um desses grandes problemas atuais é o avanço progressivo do uso abusivo de drogas, lícitas e ilícitas, na sociedade – e, consequentemente, também entre a população em idade produtiva. Isso significa que é cada vez mais alta a probabilidade de que as empresas, em algum momento, se vejam às voltas com um ou mais colaboradores vitimados pela drogadicção. Um assunto delicado, mas que precisa ser computado nos planejamentos gerenciais e discutido de forma mais objetiva, desmistificando conceitos e derrubando preconceitos em prol da saúde.

Embora o país careça de mais e melhores dados, apenas para dar ao leitor uma ideia da gravidade da questão, a revista ES Brasil levantou algumas das estatísticas disponíveis em fontes oficiais. Os números são assustadores:

• O Brasil registrou 97.228 hospitalizações em 2012 motivadas por uso de substâncias psicoativas (crack, cocaína, maconha, remédio e bebidas alcoólicas), que alcançaram a cifra total de R$ 107 milhões. 

• Segundo levantamento realizado no banco de dados mantido pelo Ministério da Saúde (DataSus), até novembro de 2012 (último dado disponível) foram registrados 48.722 internamentos causados por drogas, contra 48.506 de alcoolistas.

• Mapeamento feito pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) mostrou que o Brasil acumula atualmente 2,6 milhões de usuários de crack e cocaína e 11,7 milhões de dependentes de álcool. O levantamento mostrou ainda que o consumo abusivo de álcool cresceu 31,1% na população brasileira entre 2006 e 2012.

• O uso de álcool e drogas afastou 46,8 mil brasileiros do trabalho para tratamento médico no ano passado – número 8% superior aos 43,5 mil afastamentos de 2011. Isso significa que são 122 afastamentos por dia – ou cinco por hora, aproximadamente. Esse número era de 31.721 em 2008 (ou uma pessoa a cada três horas). Os dados são do Ministério da Assistência e Previdência Social (MPAS). O número reflete apenas uma parte da influência das drogas no mercado de trabalho, já que expressa o problema só entre os que têm carteira assinada no Brasil.

• No ranking de auxílios-doença por uso de drogas, é a mistura de vários entorpecentes a que lidera: no ano passado, 17.642 afastamentos foram registrados – duas licenças por hora.

• O SUS gastou R$ 1,8 bilhão – ou 2,5% do orçamento federal para a área da Saúde – no atendimento de três milhões de dependentes químicos somente em 2011.

Estado investe em políticas públicas de combate

No Espírito Santo, a situação não é menos preocupante. Atento aos impactos sociais e econômicos do problema, o Governo do Estado instituiu a Política de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas como uma prioridade, à qual tem destinado fortes investimentos. Para ajudar os municípios a fortalecerem sua rede local de atenção psicossocial, a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) ajuda a financiar a construção de Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas – Capsad para tratamento das pessoas que fazem uso prejudicial de álcool e outras drogas. 

De acordo com dados fornecidos pela Secretaria Municipal de Saúde da capital, Vitória, a média mensal de atendimentos no Capsad do município gira em torno de 500 pacientes, número que vem aumentando gradativamente. Média semelhante alcançou, em apenas um ano de existência, o Capsad de Cachoeiro de Itapemirim: desde abril de 2011, quando foi inaugurado, mais de 450 pacientes foram atendidos.

Os números que envolvem a população trabalhadora (15 a 59 anos) não são menos alarmantes: de janeiro a junho de 2011, segundo a Sesa, 1.005 casos de intoxicação exógena (entre os quais podem-se incluir as intoxicações por álcool e drogas) foram registrados em todo o Estado – uma incidência de 42,98 casos para cada grupo de 100 mil habitantes, muito maior do que a da segunda causa de agravos ao trabalhador, que são os acidentes com material biológico (em que se fica exposto a contaminação por agentes infecciosos), com 234 casos, ou apenas 10,01 casos para cada 100 mil habitantes.

Ações são multissetoriais

O Programa Estadual de Ações Integradas sobre Drogas não é específico para os trabalhadores. “O público alvo é a população do Estado do Espírito Santo vulnerável a esse problema. Além de construir os Capsads, que são operados pelas prefeituras, o governo vem realizando campanhas, aumentou ações de repressão policial visando ao combate do tráfico de drogas e desenvolve políticas públicas por meio da Coordenação de Políticas Públicas sobre Drogas (CPPD)”, explica Ledir Porto, titular da CPPD.

De acordo com Ledir, a Coordenação sobre Drogas está procedendo ao levantamento de números capazes de dimensionar essa problemática no Estado, mas ainda não há dados suficientes. “Uma das vertentes do Programa de Ações Integradas sobre Drogas é justamente a pesquisa e informação, de forma a termos o conhecimento, diagnósticos, estudos e divulgação de temas relacionados às drogas e de suas consequências”, esclarece, adiantando algumas informações já existentes: “Hoje a Secretaria da Saúde gasta R$ 5 milhões por ano com internações. E este custo é parcial, pois os municípios também internam. Além disso, ainda temos os gastos com o videomonitoramento”, enumera Ledir.

Nas empresas, um assunto delicado

Embora o problema das drogas seja crescente e generalizado, a maior parte das empresas ainda não está consciente da importância de agendar de forma permanente o tema, Algumas grandes empresas possuem programas de prevenção, principalmente ao uso das chamadas drogas lícitas (tabaco e álcool), mas esse número não é representativo se considerado o universo total de empresas e de trabalhadores. Além disso, inibindo o que poderia ser uma salutar troca de experiências e um importante fomento ao avanço de soluções, o assunto ainda é tratado como tabu, com essas empresas assumindo uma postura tímida e até temerosa em falar sobre seus problemas, programas e resultados.

E se as grandes têm suas dificuldades, imagine-se as médias e pequenas empresas. Ao lado da pouca conscientização, existe também a crença de que isso é assunto “para o governo resolver”, que não há recursos para investir nisso e, mesmo quando há boa vontade, ou interesse em fazer algo, não se sabe por onde começar a agir.

Flávio Celso, do Conselho Regional de Administração do Espírito Santo (CRA-ES), reafirma a necessidade de prevenção. “Pelo fato de o vício ser reconhecido como uma doença, principalmente pela Justiça, as empresas devem se preocupar em agir preventivamente e corretivamente nesse aspecto. Entendo que elas devem buscar parcerias com os órgãos governamentais, ONGs e, principalmente, a família, para começar a prevenção e a cura”, recomenda.

O conselheiro faz um alerta importante: “Demitir não é o caminho, porque a Justiça, ao reconhecer que o usuário de droga é um doente que precisa de tratamento e apoio, com certeza o reintegrará ao trabalho, talvez com o problema mais agravado. Não devemos esquecer também do fator responsabilidade social, tão apregoado nos tempos atuais”.

Experiência cearense pode ser exemplo

Percebendo a gravidade da situação, a Associação de Jovens Empresários de Fortaleza (AJE), no Ceará, desenvolve um projeto importante para mudar essa realidade e jogar luz sobre a problemática das drogas no ambiente de trabalho. A AJE é uma associação civil sem fins lucrativos, que reúne jovens empresários (de 18 a 35 anos) de todos os setores da economia trabalhando na formação e capacitação de lideranças com uma nova mentalidade empresarial e cidadã.

A Associação iniciou em 2011 o programa “Empresa Consciente: Sem Drogas, a Favor da Vida”. O projeto ganhou o apoio de instituições como o Sesi, o Sesc, a Federação do Comércio do Ceará e o Centro Industrial do Ceará (CIC) e baseia sua metodologia em ações integradas, realizadas nas empresas, além da outorga do selo Empresa Consciente.

É o coordenador do projeto, Daniel Furlani, quem explica: “O projeto promove palestras de conscientização e mobilização do empresariado, cursos para empresas-pilotos (no momento, são oito empresas), diagnóstico e ações nas empresas, etapa em que estamos agora. O programa tem duração mínima de 18 meses, com avaliações semestrais. Ao final do período de desenvolvimento, as empresas que atingirem as metas estabelecidas receberão o selo ‘Empresa Consciente’, uma certificação conferida pelas entidades propositoras com vistas a valorizar o esforço empreendido”.

Segundo a médica psiquiatra Magda Vaissman, mestre e doutora formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, especialista no assunto, o investimento nesses programas resulta em um retorno financeiro médio na ordem de sete vezes o valor investido. A experiência da doutora Waissman está relatada no livro “Alcoolismo no trabalho” (editora Garamond, 2004), obra que tem servido de inspiração e orientação para vários projetos Brasil afora.

Para Roberto Macedo, presidente da Federação das Indústrias do Ceará, que dá seu depoimento no vídeo de apresentação do trabalho da AJE, “Não importa o nível hierárquico, não importa o nível salarial ou o que for. Se nós nos entendermos em nossas empresas como pessoas, e todos nos ajudarmos mutuamente, iremos resolver muitos dos problemas por que a sociedade está passando. Se o individualismo, que hoje em dia caracteriza muito a nossa sociedade, for deixado como está, não tenho dúvida nenhuma de que nós vamos para um lugar que não nos interessa”.

Luiz Gastão Bittencourt, presidente da Fecomércio Ceará, atesta: “Esse olhar para dentro das empresas, com palestras, com ação, e, principalmente, buscando fazer com que as empresas compreendam essas pessoas e lhes deem uma oportunidade de, não perdendo o emprego, poderem também se curar e se livrar desse mal, é de fundamental importância para a nossa sociedade”.

Como lembra Tiago Diógenes de Carvalho, coordenador-geral da AJE na ocasião em que o projeto foi lançado, “todos podem ajudar a combater esse mal, que assola a nossa sociedade, destrói as nossas famílias e aumenta a violência nas ruas”. Se você ou sua empresa fazem parte do grande contingente que ainda não sabe por onde começar, comece pensando no assunto e pesquisando experiências que, como essa, possam ser reproduzidas em qualquer outro Estado, cidade ou país. O custo é pequeno, mas o retorno…não tem preço.

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