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quinta-feira, 4 junho, 2020

Do Caribe ao Atlântico

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“A ideia de estar em um lugar só me deixa atordoada. Esse meu espírito nômade está irrevogavelmente ligado à minha paixão pela pesquisa, a mesma que encontrou na academia o ponto de apoio.”

Não me lembro muito bem, mas minha mãe sempre conta essa história: quando eu tinha 12 anos e recebi meu primeiro salário, resolvi comprar uma mala, porque ia viajar pelo mundo. Ela sempre narra esse episódio como uma espécie de advertência profética, e também para justificar que sua filha de 30 anos ainda não é casada: “Mas você já está planejando se casar? Não”. Que sua filha ainda não tem filhos. “Mas ela não acha que está na hora? Quando ela quiser”. “Quem decidiu que ela sairia do país? Ela, sozinha”. “E decidiu que ela se dedicaria à pesquisa fora do país? Ela também”.

Embora pareça um lugar comum, eu sempre quis viajar pelo mundo. Agora eu sei por quê: minha casa e minha cidade, sempre confortáveis, gritaram para mim que havia algo além, que o mundo não era apenas uma zona colonial na primeira cidade da Venezuela, nem uma costa do Mar do Caribe.

Eu pensei: “estou no quinto país que mata mais mulheres no mundo, em uma favela no Rio de Janeiro, sozinha…”

A ideia de estar em um lugar só me deixa atordoada. Esse meu espírito nômade está irrevogavelmente ligado à minha paixão pela pesquisa, a mesma que encontrou na academia o ponto de apoio. Minha primeira viagem, meu primeiro deslocamento importante foi dentro do meu país, mas no extremo geográfico: de Coro, uma cidade costeira, árido e quente, eu fui para Mérida, um local montanhoso e frio. Lá eu fiz o mestrado e obtive a primeira confirmação real de que “a vida está em outro lugar”, que o mundo não era apenas a casa aconchegante, a caixa de preceitos que meus pais me deram com muito amor, mas que estava ficando pequena (ou grande).

Cheguei ao Rio de Janeiro em fevereiro de 2016 para iniciar o doutorado em Letras. O quarto que tinha alugado via internet era “Muito perto de Ipanema <3”. Ao atender a minha chamada no telefone – em péssimo português – o Bruno me disse que ele já estava na cidade. Fiquei feliz, Ipanema, além de ser uma marca muito famosa de chinelos na Venezuela, é também a referência da beleza carioca.

Peguei um táxi com o endereço escrito e, sim, foi perto de Ipanema, só que em uma favela chamada Vidigal. Ele não havia especificado esse detalhe. Lógico que, com toda a construção da mídia que se recebe estando fora do Brasil, vendo que o carro subiu e subiu o morro, meu desespero aumentou. Eu pensei: “estou no quinto país que mata mais mulheres no mundo, em uma favela no Rio de Janeiro, sozinha, com apenas 700 dólares que eu tinha obtido ao vender o capital todo que acumulei na minha vida desde que comecei a trabalhar, e não consigo entender tudo o que eles me dizem, porque o português do Duolingo estava longe de ser o real.”

Nada aconteceu. Fui acolhida por um carioca muito agradável, ele me mostrou o quarto e me fez um jantar saboroso. Falou-me que a favela havia sido pacificada, que até David Beckham tinha uma casa lá em cima, que eu não ficara preocupada, e que o bairro está cheio de gringos fazendo um “tour de favela”. Foi assim que minha vida como pesquisadora no Brasil começou.

O meu caminho na literatura, sempre foi percorrido pela viagem. O deslocamento tem sido ao mesmo tempo euforia e desafio, angústia e adrenalina. A leitura, então, foi meu primeiro cartão de embarque.


Cristina Dayana Gutiérrez Leal, venezuelana, é doutoranda em Ciência da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mestre Literatura Ibero-Americana pela Universidad de Los Andes e graduada em Educação e Literatura pela Universidad Nacional Experimental Francisco de Miranda (UNEFM).

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