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quarta-feira, 6 julho, 2022

Dia da Indústria: Avanços e desafios do setor no ES

De acordo com o MME, a proposta é oportuna neste momento devido às condições do mercado global de energia. Foto: André Motta de Souza/Agência Petrobras

A economista-chefe da Findes, Marília Silva, faz uma análise do mercado nacional e internacional e dos desafios do setor

Por Amanda Amaral 

O Espírito Santo está entre os quatro melhores desempenhos da última Pesquisa Industrial Mensal Regional (PIM-PF), dentro os 15 estados brasileiros avaliados. Isso porque a produção industrial capixaba apresentou crescimento de 1,6% no primeiro trimestre de 2022 se comparado ao mesmo período do ano anterior. Resultado acima da média nacional, que apresentou recuo de 4,5% na comparação.

Apesar do resultado do Espírito Santo, há muitos desafios a serem enfrentados pelo setor como a busca por melhorias na infraestrutura, a pressão causada pela política monetária internacional, a elevada taxa de desocupação no Espírito Santo e os problemas originados pela alta da inflação no país, cuja prévia divulgada terça-feira (24) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apresentou 12,20% no acumulado de 12 meses.

No Dia da Indústria, comemorado nesta quarta-feira (25), a ES Brasil preparou uma exclusiva com a economista-chefe da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) e gerente-executiva do Observatório da Indústria da Findes, Marília Silva.

Na entrevista, Marília Silva faz um balanço do cenário atual e de seus impactos na indústria capixaba, além de apontar os setores agroalimentar, de petróleo e gás, de biotecnologia, da confecção têxtil e calçado e o da construção e energia como promissores para o Espírito Santo. Segundo ela, estima-se para o Estado cerca de R$ 34,5 bilhões em investimentos nos próximos cinco anos.

Os reflexos pós-pandemia que impactaram as cadeias globais ainda dificultam a aquisição de insumos e matérias-primas em razão do encarecimento da logística e, por fim, também dos preços finais. Qual a perspectiva da Findes com relação às consequências da pandemia ainda presentes?

O problema relacionado à logística das cadeias globais já havia sido diagnosticado na passagem de 2020 para 2021. A expectativa era de normalização dessas cadeias em 2022. Contudo, o que se observa é um prolongamento desse problema, agravado pela guerra na Ucrânia e pelas novas medidas de lockdown na China.

Como as relações comerciais entre o Espírito Santo e a China são mais estreitas do que com a Rússia e com a Ucrânia, a desaceleração da economia chinesa tende a ter um impacto maior sobre a indústria capixaba. E este impacto pode ocorrer via duas frentes: tanto do lado das exportações, principalmente de commodities industriais, como das importações.

Embora os dados não sinalizem alarmes até o momento, as relações comerciais entre o Estado e as outras partes do mundo com a China é uma variável relevante nas análises econômicas. As perspectivas em torno dessa temática são de que as intensidades dessa desaceleração e de uma possível recuperação subsequente da economia chinesa ainda permanecerão na pauta econômica mundial em 2022 e 2023.

Temos algum exemplo desses reflexos aqui para o Espírito Santo?

Os impactos dos descompassos entre as cadeias de suprimentos acabam atingindo as grandes empresas industriais com atuação no Espírito Santo e em outras partes do mundo. Como o caso da Suzano, que além de lidar com a crise marítima global, também se deparou com a redução de caminhoneiros e operadores de linha ferroviária na Europa.

Além do impacto provocado pelos problemas logísticos das cadeias, uma das consequências da pandemia ainda persistente consiste na convivência com os preços mais elevados. Em parte, esse aumento de preços também é explicado pelo problema anterior, devido à elevação dos custos dos fretes e dos atrasos nas entregas de insumos e bens finais.

Se esse cenário continuar, teremos muitos impactos no crescimento econômico?

Em caso de persistência do aumento dos preços nas economias centrais e consequente aperto das condições monetárias nesses locais, em especial nos Estados Unidos, podemos esperar uma contração da atividade econômica global em 2022, com impactos negativos sobre a moeda brasileira e até mesmo uma redução de comercialização de commodities.

Como sinalizado pelo FMI no relatório de abril, a expectativa para o PIB mundial para 2022 encolheu 1 ponto percentual (p.p.) frente às estimativas de janeiro (antes do conflito na Ucrânia). Para o Brasil, a estimativa do PIB desse ano passou de 0,3% para 0,8%, porém saiu de 1,6% para 1,4% no próximo ano.

Outro desafio é com relação ao poder de compra das famílias, que vem sendo pressionado pela inflação e alta na taxa de juros Selic, o que influencia as vendas em alguns setores industriais. No ES este impacto é considerável? Quais seriam estes setores?

Na Região Metropolitana da Grande Vitória, o patamar inflacionário se encontra levemente acima da inflação oficial do país. Isto é, mensurada por meio do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação na Região acumula uma alta de 12,5% em 12 meses encerrados em abril (base de comparação mais usual para o indicador entre os analistas), enquanto no Brasil a inflação se encontra em 12,1% no período.

Quais produtos mais pressionaram a inflação?

Os itens com as maiores variações na Região Metropolitana da Grande Vitória são basicamente alimentos (tubérculos, legumes, café, açúcar, farinhas, aves e ovos, etc.) e combustíveis (óleo diesel, gasolina, botijão de gás e outros).

Apesar desse aumento de preços, observa-se um comércio mais aquecido no Espírito Santo do que no Brasil. No primeiro trimestre de 2022, quando comparado com o mesmo trimestre do ano anterior, o volume de vendas nos hiper e supermercados capixabas aumentou 5,4%, enquanto a média do país foi de queda de -1,2%. O mesmo acontece para as vendas de combustíveis, móveis, eletrodomésticos, material de construção e equipamentos para escritório, em que estão ou em queda ou estáveis no país, mas apresentam considerável aumento no Estado.

Isso contribuiu para o resultado da produção industrial do ES?

De certa forma, isso reflete sobre a indústria. No Estado, a produção física do setor industrial cresceu 1,6% no trimestre na comparação interanual, enquanto o setor a nível nacional contraiu -4,5%. E uma das maiores influências positivas sobre a indústria capixaba é a maior fabricação de produtos alimentícios, que acumulou alta de 20,5% no período.

Contudo, um componente mais sensível no Estado do que no país é a vocação para o comércio internacional. Enquanto os dados apontam para aquecimento das vendas internas neste primeiro trimestre e também para o aumento das exportações capixabas (puxadas pelo aumento dos preços internacionais das commodities), a expectativa de contração das economias de outros países adiciona um fator de incerteza para a sustentabilidade desse aumento das vendas internacionais pelo Estado.

Mas essa característica de influência do mercado externo refletiu negativamente nos resultados do Estado?

Até o momento, os setores industriais mais tradicionais do Estado, como metalurgia, petróleo e gás natural, papel e celulose e rochas, estão registrando resultados positivos nas vendas externas (influenciados, principalmente, pelo aumento de preços).

No entanto, os analistas dos mercados externos seguem preocupados a respeito do aumento dos preços internacionais e da possibilidade dos apertos da política monetária das principais economias ocidentais, o que levaria a uma contração das atividades econômicas e uma possível redução de demanda.

Por outro lado, vemos o Governo Federal adotando medidas para a estimular a economia brasileira em 2022, podendo influenciar sobre o aumento de consumo dos brasileiros, entre elas: aumento do valor do benefício do Auxílio Brasil para R$ 400 em média, adiantamento do 13º Salário de beneficiários do INSS, possibilidade de saques de R$ 1 mil do FGTS e pagamento de abonos salariais de 2020 adiados para o final de 2021 e início de 2022.

E como está o desempenho do setor de serviços?

Além do comércio e da indústria, os serviços também estão em alta no Estado. No primeiro trimestre, o volume de serviços prestados no Espírito Santo cresceu 9,9%, refletindo a consolidação da reabertura e retomada das atividades do setor, com destaque para os serviços prestados às famílias e os transportes (de pessoas e mercadorias). Estes resultados (considerando todos os setores) já indicam um PIB positivo para o período. A estimativa realizada pelo Banco Central é que a atividade econômica capixaba cresceu 5,6% no primeiro bimestre na análise interanual. Já o resultado do cálculo para o PIB trimestral do Estado realizado pela Findes será conhecido na primeira metade de junho.

Qual o cenário em relação ao mercado de trabalho?

A queda da taxa de desocupação é outro indicador que corrobora a análise de cenário menos desfavorável economicamente no Espírito Santo. Embora ainda em alto patamar, no 1º trimestre de 2022 a taxa de desocupação no Espírito Santo esteve em 9,2%, 3,9 p.p. abaixo da registrada no 1º trimestre de 2021 e -0,6 p.p. frente ao 4º trimestre de 2021. No Brasil, a taxa do período foi maior, na ordem de 11,1%, 3,8 p.p. abaixo da registrada no 1º trimestre de 2021, porém no mesmo nível do 4º trimestre de 2021. Além dessa taxa, destaca-se que o rendimento médio real do trabalhador no Espírito Santo (R$ 2.517) apresentou leve aumento tanto em relação ao 1º, quanto ao 4º trimestre do ano passado, superando o patamar nacional (R$ 2.483).

A produção industrial do Espírito Santo cresceu acima da média nacional em 2021. De janeiro a dezembro do ano passado, o desempenho capixaba foi de 4,9%, enquanto o nacional teve alta de 3,9%. Com o resultado, o Estado volta a encerrar o ano com saldo positivo – o último havia sido em 2017 (1,7%) – e registra sua melhor performance desde 2014 (5,6%). Quais setores no Estado se destacam no cenário atual e se apresentam como mais promissores?

Aqueles setores que possuem uma elevada participação na agregação de valor pela indústria capixaba são acompanhados periodicamente e possuem suas estimativas apresentadas trimestralmente por meio do cálculo do Indicador da Atividade Econômica do Espírito Santo, o IAE-Findes. São eles: a pelotização do minério de ferro, a metalurgia, o ramo de papel e celulose, a fabricação de alimentos, a de produtos de minerais não-metálicos e o de petróleo e gás natural (P&G). Além desses, também são contempladas a indústria da construção e a de energia e saneamento.

Com a exceção da indústria extrativa (pelotização e P&G), todos esses setores registraram crescimento em 2021 quando comparados a 2020, devido à retomada e à reabertura das atividades econômicas internamente e externamente. Devido à vocação ao comércio exterior, a indústria capixaba também é influenciada pela dinâmica do mercado externo.

E sobre os setores promissores?

Em relação aos setores promissores, cabe destacar o mapeamento coordenado pelo Observatório da Indústria da Findes de identificação dos Setores Portadores de Futuro para o Espírito Santo e a elaboração dos planejamentos estratégicos desses setores (as chamadas Rotas Estratégicas). Ao todo, são 17 setores que incluem o Agroalimentar, o de Petróleo e Gás Natural, o de Biotecnologia, o de Confecção Têxtil e Calçado, o da Construção e o de Energia, como os cinco primeiros com rotas estratégicas já elaboradas.

Os descompassos entre as cadeias de suprimentos impactam o Espírito Santo, diz a economista-chefe da Findes, Marília Silva. Foto: Findes

Por fim, vale ressaltar que o Espírito Santo possui uma gama de investimentos mapeados, em execução e em fase de planejamento, com destaque para aqueles referentes ao setor da infraestrutura.

Em seguida, aparecem o setor de petróleo e gás, a agricultura, a metalurgia e os alimentos e bebidas, entre outros. Estima-se para o Estado do Espírito Santo cerca de R$ 34,5 bilhões em investimentos, considerando o espaço temporal de 5 anos.

Quais desafios da indústria capixaba para os próximos anos?

Temos muitos desafios que podem ser trabalhados tanto a nível local quanto nacional. Aqui destaco alguns deles: continuação da adoção de medidas e boas práticas de ESG (Environmental, social, and governance) e descarbonização no setor industrial; e a recuperação da participação das indústrias extrativas na economia do Estado.

Os últimos anos foram de desafios para o setor, motivados pela menor produção de minério de ferro em Minas Gerais, que repercutiu sobre a produção de pelotas de minério de ferro nas usinas da Vale no Espírito Santo e pela paralisação temporária da Samarco. Com a retomada parcial dessa última no Estado, a expectativa é de aumento gradual do setor na economia capixaba.

Nesta linha, o desafio também se dá no aumento da extração de petróleo e gás natural, em declínio no Estado desde 2017, por meio de novos investimentos no setor. Além disso, a ampliação dos investimentos em infraestrutura, que vão desde a melhoria das atuais instalações como a realização dos investimentos previstos. Entre eles estão os investimentos nos portos e ferrovias do Estado, visando a maior interligação com outros estados brasileiros e o aumento da capacidade de escoamento de mercadorias.

Cito ainda a melhoria no ambiente de negócios, aperfeiçoando os processos de licenciamentos ambientais e os indicadores de educação e segurança. Outra questão é  mais relacionada à problemática do setor a nível nacional, mas que interfere no do Estado, a redução do Custo Brasil, com a finalidade de aumentar a competitividade o setor.

 

 

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