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segunda-feira, 29 novembro, 2021

Crise hídrica: novos tempos, velhos problemas

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O que se percebe é que estamos diante da possibilidade de adoção de medidas de racionamento de energia semelhantes às que tivemos ao final do governo FHC

Por Eduardo Araújo

A ameaça de uma nova crise hídrica e, consequentemente, um novo período de racionamento traz à tona muitas dúvidas, incertezas e previsões acerca dos impactos para o dia a dia da população, o agronegócio e demais segmentos da sociedade.

O que se percebe é que estamos diante da possibilidade de adoção de medidas de racionamento de energia semelhantes às que tivemos ao final do governo FHC. O nível atual dos reservatórios do Sudeste e Centro-oeste (as principais fontes do sistema) é muito semelhante ao que se tinha em 2001 (estamos com cerca de 30% da capacidade total de armazenamento nos reservatórios).

Evidências científicas mostram que fatores climáticos e desmatamento têm levado o nível de chuva a patamar bem abaixo do que se tinha em 2001. É claro que, de lá para cá, avançou-se com a implantação de termoelétricas e com certa diversificação do sistema elétrico do país. Porém, a maior parte dos analistas apontam para um risco concreto de apagão e medidas que devem resultar no encarecimento do custo das contas de energia, com acionamento de termoelétricas.

Além das restrições na produção de eletricidade, o agronegócio também é outro setor que sofre muito com a falta de chuvas. Os efeitos da estiagem prolongada no Espírito Santo podem resultar em fortes restrições para a captação de água para fins de irrigação ou mesmo para atividades indústrias em algumas regiões do Estado. O impacto na área agrícola pode causar atrasos, redução da colheita e queda na produtividade. Do outro lado, os consumidores de maneira geral também são afetados com alta no custo de alimentos.

É bom lembrar que o agronegócio é uma importante fonte de renda para a economia capixaba. Há estudos que indicam que esse macrossetor movimenta cerca de 22% do PIB estadual (ou seja, R$ 24 bilhões por ano em salários, lucros, alugueis e outras formas de remuneração). O detalhe é que a maior parte dessa renda não vem da agropecuária, mas sim de negócios conexos,como o beneficiamento agroindustrial, fornecimento de insumos, a comercialização e distribuição desses produtos.

É que as atividades de plantio, colheita e produção de animais que ocorrem “dentro das fazendas” só contribuem com 4% do PIB estadual. Isso dá uma dimensão de que as restrições ao funcionamento da agricultura acabam impactando também o setor de serviços e outros negócios que acontecem “fora da porteira”.

Vale salientar, ainda, que o Brasil vivencia um momento de recorde histórico na taxa de desemprego e o problema hidrológico só tende a complicar essa situação. A imposição de restrições na produção tende a limitar o potencial o crescimento do PIB capixaba. É preocupante porque a estiagem coincide justamente com o momento em que a economia dá sinais de recuperação.

Que esse momento sirva de inspiração para levar a sociedade brasileira a propor soluções estruturais para essas questões. É importante se pensar na criação de sistemas elétricos mais resilientes à variabilidade do clima; na diversificação das fontes de energia; na eliminação de desperdícios; na ampliação de reservatórios, dentre outras iniciativas. A adoção dessas medidas poderia contribuir para evitar que esses velhos problemas se repitam no futuro, abrindo espaço para crescimento e prosperidade no país.

Eduardo Araujo é economista e ex-presidente do Corecon-ES

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