A expectativa é de que a COP30, realizada na Amazônia, tenha um perfil mais político e inclusivo, após três edições dominadas por interesses do setor petrolífero
Por Kikina Sessa
A capital do Pará, Belém, se prepara para receber a 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP30), que acontece de 10 a 21 de novembro de 2025. Estimativa da Fundação Getúlio Vargas (FGV) aponta para um fluxo de mais de 40 mil visitantes durante o evento. Do total, sete mil compõem a chamada “família COP”, formada pelas equipes da Organização das Nações Unidas (ONU) e delegações de países membros.
O bioma Amazônia vai sediar a conferência 10 anos após a assinatura do Acordo de Paris, que serviu de ponto de partida para a meta de redução de emissões. Essa edição também se diferencia muito das três últimas COPs, organizadas em países onde a indústria petroleira tem peso grande (COP27 em Sharm el-Sheikh, no Egito, COP28 em Dubai, nos Emirados Árabes, e COP29 em Baku, no Azerbaijão). Há uma expectativa de que seja uma COP mais politizada e menos voltada para o sentido de negócios, já que nas últimas três conferências as decisões foram influenciadas pelos segmentos empresariais do petróleo.

“Certamente vai ser uma conferência muito movimentada, tendo também um evento paralelo que é a Cúpula dos Povos. Essa cúpula não aconteceu nas últimas três edições, então isso vai gerar mais tensionamento e mais debate em torno das decisões. Estamos vindo de uma sequência de outras COPs que foram realizadas em países não democráticos, onde há uma limitação muito severa de costumes”, comenta Cristiana Losekann, pesquisadora e professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
Quem também destaca esse ponto é o subsecretário de Estado de Recursos Hídricos e Qualidade Ambiental, Robson Monteiro, que responde como secretário-executivo do Consórcio Brasil Verde, do qual participam 15 estados, incluindo o Espírito Santo. De acordo com Monteiro, as COPs anteriores abordaram mitigação, mas nessas três últimas COPs a pauta de adaptação começou a ganhar destaque também, mais especificamente a discussão do fundo de perdas e danos.
“Existe uma expectativa de que a COP30 dê um enfoque maior a ações de implementação prática. Tem muita discussão acontecendo há bastante tempo, mas tem se dado pouca ênfase às ações concretas que avançaram até então. A realização da COP no Brasil promete retomar os temas mitigação e adaptação de uma perspectiva um pouco diferente. Realizar a conferência no bioma Amazônia, que é hoje o maior estoque de carbono do mundo, do ponto de vista florestal, tem um efeito simbólico muito grande”, disse Monteiro.

O secretário lembrou que o local onde o evento será realizado possui uma grande riqueza natural mas, ao mesmo tempo, apresenta desafios enormes, com um contingente populacional em situação de vulnerabilidade. “Então, a discussão de adaptação e de como minimizar os impactos das mudanças climáticas sobre essas populações mais vulneráveis, também tende a ganhar um outro enfoque e um outro olhar”.
Luana Romero, diretora-executiva do Instituto Ideias e especialista em estratégias ESG, destaca que sediar a COP30 na Amazônia é uma oportunidade para o país fazer uma escuta do próprio território. “Espero que essa agenda diplomática seja verdadeiramente convertida para os povos da floresta e, principalmente, para os territórios indígenas”.
O eixo central das COPs são as NDCs, sigla para Contribuição Nacionalmente Determinada (Nationally Determined Contribution, em inglês), que são os compromissos dos países com a redução das emissões. Esse é um dos elementos centrais de negociação durante a conferência.
“A expectativa é sempre qual vai ser o compromisso que cada país vai assumir como meta para os anos seguintes. Há um consenso entre cientistas de que o mundo precisa cortar as emissões de gases de efeito estufa. E aí essas NDCs precisam dar uma resposta”, reforça Cristiana Losekann.
Os principais emissores de gases de efeito estufa são os combustíveis fósseis (petróleo, carvão mineral e o gás natural), que representam 87% das emissões globais de CO₂. Há ainda outras fontes emissoras, como o desmatamento e as queimadas.
“Essa redução se reflete também na atividade econômica. O Brasil está elaborando nacionalmente o plano de mitigação do clima, que será um conjunto de medidas que ajudarão a pensar mecanismos e maneiras de o país alcançar as metas de redução das emissões de gases até 2035. Essa é uma dimensão das mais importantes da transição energética. Em vez de utilizar o combustível fóssil, usar outro tipo de energia”, ressalta a pesquisadora.
*Matéria publicada orginalmente na revista ES Brasil nº 227, de junho de 2025. Leia a edição completa do Anuário Verde aqui.

