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quarta-feira, 25 maio, 2022

Novo modo de pensar a vida com base na cooperação, inovação e sustentabilidade!

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Ter lucro não é pecado, buscar o poder não é pecado, mas o comedimento e o respeito ao ambiente e às pessoas é fundamental nesta seara

A humanidade se encontra em uma encruzilhada, como nunca imaginado! A ampliação do conhecimento científico e a consequente evolução tecnológica, com destaque para as áreas de eletrônica, produção de alimentos e saúde, revolucionou o modo de vida e os sistemas de produção e, ainda, tornou o mundo ultra conectado e globalizado: “tudo ao alcance de um clique”. Parecia assim, que o ser humano tinha se tornado um “super humano”, um “quase deus”, em virtude de seu poderio tecnológico, de seu domínio sobre a natureza, de sua capacidade de produzir novos produtos e serviços. O que aumentou como nunca antes na história, o grau de conforto e bem estar individual, para quem tem poder aquisitivo.

Houve um grande aumento da expectativa de vida e a cura de um sem número de doenças. O que “parecia” que a medicina havia encontrado solução para quase tudo. Inclusive, profetizando Yuval Noah Harari, em seu livro Sapiens (L&PM), que as pessoas passariam a ser “amortais” a partir de meados deste século. Isto é, que só se morreria de fatalidades ou quem não tivessem acesso aos avanços da medicina.

Assim, a vida passou a ser um “frenesi total” em produzir, produzir! As bolsas de valores e outras modalidades de “medir as temperaturas” dos negócios e das economias, entraram no ritmo do dia e noite sem parar, com gente conectada o tempo todo, em tudo que pudesse ser comercializado, em tudo que pudesse ser gerador de possibilidades de negócios e rendimentos, independente do que estava acontecendo com a maioria das pessoas e com o meio ambiente.

Porém, já faz tempo que as sociedades estão dando sinais, de que “as coisas” não estão bem, de que algo deveria mudar, o que pode ser percebido: na urbanização acelerada, com muitos milhões de pessoas vivendo sem condições mínimas de qualidade de vida; com a mobilidade urbana cada dia mais complicada, resultando num trânsito caótico e com pessoas perdendo enorme tempo para o ir e vir e parecendo “sardinhas” em transportes coletivos deficitários para atender a todos; sistemas de saúde e de educação muito longe de atender de maneira adequada a população, especialmente os mais carentes; pela explosão da violência no meio urbano, intensificada pelos enormes abismos socioeconômicos existentes, resultando em perdas de vidas preciosas aos milhares, todos os anos, muitas das quais jovens e pobres e, com isso, levando à presídios superlotados,
desumanos e sem chances de recuperação da maioria dos internos, entre muitos outros sintomas do modo de vida atual. E, isto, infelizmente, ocorrendo em quase todas as grandes cidades do planeta, em sociedades cada vez mais díspares, onde as
oportunidades tem sido para poucos e o sucesso a qualquer preço, a tônica apregoada diuturnamente.

Do mesmo modo, o meio ambiente também está sentindo essa pressão, visualizada: nas mudanças climáticas e seus vários feitos adversos, intensificadas, principalmente, pelo uso de combustíveis fósseis; na redução da biodiversidade pelos desmatamentos e queimadas, caça e pesca indevidas e ilegais, levando, inclusive, à extinção acelerada de muitas espécies; no aumento de pragas e doenças na agropecuária pelos desequilíbrios ambientais, intensificando o uso exagerado de agroquímicos, com destaque para agrotóxicos; na poluição do ar, das águas – nascente, lagos, córregos, rios, mares e oceanos, com enormes impactos ambientais e socioeconômicos; e, na degradação, contaminação e perda de fertilidade dos solos aumentando os custos de produção e dos alimentos, entre outros impactos ao meio natural. Fatores que vêm afetando  negativamente os ecossistemas, reduzindo a qualidade de vida de parcelas consideráveis da população e criando condições para expansão ou surgimento de doenças diversas.

E, isso tudo, parece que vem sendo “empurrado para debaixo do tapete”, se é que existe um lugar para isto ser “empurrado”. Pois, muitas vezes, só medidas paliativas são tomadas, com as exceções devidas. Por exemplo, para conter o aquecimento global precisa ser investido percentual baixíssimo do produto PIB mundial, o que não encontrou eco e consenso ainda, mesmo com os alertas dos cientistas sobre os graves problemas que virão e com as inúmeras conferências da ONU sobre o clima. Assim como, não há recursos necessários e nem vontade política para conter os desmatamentos e queimadas ilegais e indevidas na Amazônia e em muitos biomas importantes no planeta e nem para fiscalizar melhor os mares e oceanos, de uma série de agressões indesejáveis, como exemplos.

“Para tal, é fundamental respeitar o conhecimento científico, colocar inovação como prioridade e sustentabilidade ser o pilar central das atividades socioeconômicas, com a qualidade de vida das pessoas sendo o objetivo principal nas tomadas de decisões de governantes e empreendedores”

Porém, bastou as economias terem que praticamente parar quando um novo e letal vírus mutou e pulou de seu hospedeiro animal para humanos, para tudo mudar: do nada começaram a surgir possibilidades de trilhões e trilhões de dólares para reaquecer a economia. Isso está errado? Não! Porém, dever-se-ia ter outra postura para a construção de um desenvolvimento de fato sustentável e mais justo socialmente. Para tal, é fundamental respeitar o conhecimento científico, colocar inovação como prioridade e sustentabilidade ser o pilar central das atividades socioeconômicas, com a qualidade de vida das pessoas sendo o objetivo principal nas tomadas de decisões de governantes e empreendedores.

Ter lucro não é pecado, buscar o poder não é pecado, mas o comedimento e o respeito ao ambiente e às pessoas é fundamental nesta seara. Para tal concluímos com o pensamento do historiador Felipe Fernández-Armesto, em seu magnífico livro 1492 – Companhia das Letras (p. 368, 369 e 380): “…geralmente, um acontecimento aleatório […] é responsável por desencadear uma grande mudança. […] porém as mutações aleatórias tem efeitos duradouro na história, como corre na evolução. […] Assim, de certo modo, os profetas da cristandade que pressagiaram o fim do mundo em 1492 tinham razão. O apocalipse foi adiado, mas os acontecimentos daquele ano puseram fim ao mundo com o qual as pessoas estavam familiarizadas e deu uma nova feição ao planeta […]. O mundo que os profetas conheciam estava desaparecendo e um novo começa a ganhar forma – o mundo em que vivemos”. Ou seja, um novo mundo está surgindo e o antigo deve ficar para trás. E este novo deve ser baseado no conhecimento científico e no bom senso, de modo que permita haver de fato um novo modo de pensar a economia e a vida, com base na cooperação, inovação e sustentabilidade!

Luiz Fernando Schettino é Professor de Ecologia e Recursos Naturais da Ufes, Especialista em gestão do conhecimento e inovação e Ex-Secretário Estadual de Meio ambiente e Recursos Hídricos.

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