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domingo, 13 junho, 2021

Conectividade

A tecnologia é maravilhosa e facilita muito esses arranjos de negócios entre quem oferta esses trabalhos e quem os busca, mas sem conectividade não tem como dar certo

Por André Gomyde

Conectividade, conectividade, conectividade! Um mantra que deve ser repetido por todos nós, todos os dias, em todos os lugares.

A pandemia nos colocou a trabalhar de casa. O avanço tecnológico já vinha nos inserindo no ciberespaço cotidianamente. Acontece que em torno de 29% da população brasileira não têm conectividade e apenas 14% das classes D e E e 44% da classe C possuem computador em casa. A proporção de pessoas das classes D e E que termina por precisar de um “smartphone” para acessar a internet é de 85%. Mas não somente os aparelhos, bem como os “chips” para acesso à internet são caros. Essas são pessoas que não podem ter um “home office”. São pessoas que viram o desemprego chegar e, pior, a fome bater em suas portas.

Vejo jovens de diversos países do mundo a utilizar seus “smartphones” para acessar postos de trabalho temporários que são ofertados diariamente pelas empresas e, dessa forma, manter sua empregabilidade e obter seu ganha-pão. Aqui no Brasil eu leio que há demanda por trabalhadores temporários todos os dias, mas não há conexão entre quem oferta e quem procura. Falta conectividade.

A tecnologia é maravilhosa e facilita muito esses arranjos de negócios entre quem oferta esses trabalhos e quem os busca, mas sem conectividade não tem como dar certo. Para exemplificar, um restaurante que precisa aumentar o número de garçons – em um determinado período – pode disponibilizar em um aplicativo as vagas e aqueles que acessarem o mesmo aplicativo se candidatarem a elas. Mas se a pessoa não tem acesso à internet, como vai fazer?

O problema não para por aí. Diversos serviços e necessidades hoje dependem do acesso à internet, como por exemplo a marcação de dia e hora para a vacinação. Conheço muitas comunidades que sofrem com isso, porque não têm conectividade e ficam dependentes da ajuda de outrem.

Há relatos, também, de situações ocorridas no Brasil em julgamentos do poder judiciário, nos quais juízes decidem fazer as sessões via internet, mas que os réus não tem conectividade para acessar a sala virtual de julgamento. O pior é que alguns juízes, sem a menor empatia, os julgam a revelia, dizendo: “Que comprem um “chip” e participem da audiência”.

Ora, para quem recebe um salário mínimo, e às vezes até menos, comprar um “chip” é caro. Sem dizer que esses “chips” pré pagos garantem dez dias de conexão e a pessoa fica vinte dias esperando virar o mês para poder recarregar o dito cujo.

A falta de conectividade para todos está aprofundando a exclusão social. Ao lado dela, a falta de literacia digital é outro complicador.

Literacia digital pode ser entendida como alfabetização digital, ou seja, ensinar às pessoas como utilizar as ferramentas tecnológicas que hoje são parte de nossas vidas, em um caminho sem volta.

Somente com uma clara e correta política pública de fomentar a implantação de infraestrutura tecnológica nas cidades, que leve conectividade para todos, somada a uma política pública de alfabetização digital, pode nos fazer sair do atraso em que nos encontramos perante aos países mais desenvolvidos.

Marx e Engels, fossem nossos contemporâneos e morassem no Brasil, provavelmente escreveriam em seu manifesto: “Uni-vos, trabalhadores do nosso Brasil Varonil, pela literacia e pela conectividade!”.

André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis; Mestre em administração pela FCU, nos Estados Unidos, e mestrando em arquitetura e urbanismo pela UnB é autor e coautor de cinco livros.

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