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sexta-feira, 21 junho, 2024

Como posso ser feliz?

Se o vento e a chuva geram lama e desmancham o barracão do meu irmão. Louvado seja o surgimento das organizações do Terceiro Setor

Por Robson Melo

Há uma composição a qual assimilei durante a adolescência e que me inspira sempre que a solidariedade se torna o tema central, o clamor, a ordem do dia, a agenda prioritária junto ao bardo, o SOS…

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Balada da Caridade
Para mim a chuva no telhado
É cantiga de ninar
Mas o pobre meu Irmão
Para ele a chuva fria
Vai entrando em seu barraco
E faz lama pelo chão
Como posso
Ter sono sossegado
Se no dia que passou
Os meus braços eu cruzei?
Como posso ser feliz
Se ao pobre meu Irmão
Eu fechei meu coração
Meu amor eu recusei? (bis)
Para mim o vento que assovia
É noturna melodia
Mas o pobre meu irmão
Ouve o vento angustiado
Pois o vento, esse malvado
Lhe desmancha o barracão

A caridade é um ato de solidariedade e assistência social, porém deve transcender o âmbito da emergência. Além disso, a caridade visa capacitar as pessoas a se tornarem autossuficientes, de modo que não apenas recebam o peixe, mas também aprendam a pescar. Embora a caridade busque influenciar as políticas públicas, raramente isso se concretiza na prática. Assim, a preservação da dignidade humana emerge como o principal objetivo da caridade, baseando-se não em favores, mas sim em direitos inalienáveis.

Outra palavra essencial que se agrega à caridade, solidariedade e assistência social é Dignidade. Conforme afirmado pelo professor José Antônio Martinuzzo, no livro “Dignidade não tem Idade”, a dignidade representa o extremo oposto da invisibilidade, negligência, desprezo, desrespeito, discriminação, humilhação e violência. Portanto, se o vento e a chuva geram lama e desmancham o barracão do meu irmão, como posso ser eu feliz?

Louvado seja o surgimento das organizações do Terceiro Setor. Que desgraça seria para uma cidade, uma sociedade, uma nação, até mesmo para o planeta, sem a presença das ONGs, institutos, associações e fundações, capazes de operar independentemente do Estado ou das empresas.

(Enquanto redijo estas palavras, acompanho as notícias provenientes do Rio Grande do Sul…)
Será possível rejeitar o Amor? Lamentavelmente, sim, quando me recolho em isolamento, ignorando meu entorno, como um avestruz que esconde sua cabeça no buraco. Perco então a oportunidade de exibir minha maior riqueza, aquilo que dá significado à vida, nutre a alma, provoca risos ou lágrimas, tem o poder de salvar e ser salvo. A chuva pode representar mais que um suave embalo para o sono, o vento mais que uma simples melodia. Na realidade, podem ser instrumentos de amor ao próximo.

A médica e escritora Ana Cláudia Quintana Arantes relata sobre um experimento realizado com bebês. “Se deixarmos um bebê de 14 meses sozinho numa sala e colocarmos um áudio do próprio choro dele, nada acontece, porque a criança identifica a si mesma e, sabendo que está bem naquele momento, não reage. Se o choro é de outra criança, porém, esse mesmo bebê para tudo e observa ao seu redor: onde está quem chora? Se não encontra, começa a chorar também. Esse experimento me comoveu profundamente. Aos 14 meses de vida, um bebê cai em prantos quando não consegue ajudar outro que precisa de ajuda. “O sofrimento do outro motiva o nosso sofrimento. Nascemos assim, mas esquecemos disso” (ARANTES, 2021, p. 95).

Que a solidariedade, a caridade, a dignidade e o amor não se limitem apenas ao sentimento, mas se tornem realizações concretas de ajuda humanitária, cidadania e mudança tanto para si quanto para os outros. Que sejam como uma tábua de salvação em situações emergenciais, seguidas pela promoção daqueles que são beneficiados como agentes da própria reconstrução contínua. Para além, que essas virtudes auxiliem na efetividade das leis e dos órgãos públicos na prestação de assistência, promoção e transformação social.

“Não temos nas nossas mãos as soluções para todos os problemas do mundo, mas diante de todos os problemas do mundo temos as nossas mãos” (frase atribuída ao pensador alemão Friedrich Schiller).

Robson Melo é presidente da FUNDAES, a Federação do Terceiro Setor capixaba.

 

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