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quinta-feira, 2 abril, 2020

Energias Renováveis: especialista explica como o ES pode se destacar no setor

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“Se o Espírito Santo tivesse as mesmas Leis de Incentivos às Energias Renováveis que o Estado de Minas Gerais adota desde 2012, provavelmente seria um dos líderes no segmento”

Por: Luciene Araújo e Aline Pagotto

Com a evidência do desequilíbrio entre economia e meio ambiente, surgem novas formas de geração de energias, que possuem um ciclo de renovação em escala de tempo, ou seja, estão sempre disponíveis para utilização e não se esgotam: as chamadas energias renováveis.

O presidente da Associação Brasileira de Geração Distribuída (ABGD) no biênio 2020-2021, Carlos Evangelista, atua desde 2009 em vários projetos de geração distribuída com fonte solar fotovoltaica, contribuindo para a divulgação do segmento nacionalização do setor. Ele também é um dos responsáveis pela startup da primeira indústria nacional de módulos fotovoltaicos, implantada em 2010.

O especialista, que é graduado em Engenharia e Direito, pós-graduado em Comunicação de Marketing e MBA em Marketing pela FEA/USP, falou com exclusividade à ES Brasil e ressaltou como o país e o Espírito Santo podem se destacar no setor, que obtém cada vez mais relevância mundial.

Como a ABDG contribui com as empresas associadas?

Disponibilizando diversos serviços e benefícios aos associados, como modelos de contratos aplicados na área, descontos em congressos e workshops, informações técnicas e regulatórias, artigos em revistas do setor, participação em fóruns de discussão técnica, suporte jurídico, canal de registro de problemas, além de fomentar o contato e desenvolvimento de negócios entre associados, clientes, fabricantes, fornecedores e prestadores de serviços. Além disso, a entidade representa os interesses dos associados nos órgãos federais, estaduais e municipais (Agência Nacional de Energia Elétrica – Aneel, Ministério de Minas e Energia – MME e Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial – Senai etc.)

Qual o peso da inovação na obtenção de qualidade no setor da energia?

Cada vez mais, a sociedade demanda um consumo maior por energia elétrica. Estima-se que um milhão de pessoas aderem ao mercado cativo de energia por ano no Brasil. Dessa forma, a inovação passa a ser um fator muito importante em qualquer setor que tenha um crescimento tão elevado, com consumidores cada vez mais exigentes. Em questão de qualidade, a inovação permite que a energia elétrica proveniente das fontes renováveis seja mais aproveitada, como os módulos fotovoltaicos com tecnologias que possibilitam uma maior eficiência e até mesmo diferentes tipos de uso (substituição de tetos e fachadas), por meio do conceito Building Integrated Photovoltaics (BIPV). Vale ressaltar que a inovação também abrange a mão de obra, que precisa se qualificar mais à medida que a tecnologia evolui, assim como os equipamentos e materiais utilizados.

Entre as fontes renováveis, em qual delas o Brasil poderia e deveria promover os investimentos?

Solar fotovoltaica. Existe um grande potencial no país todo, principalmente pela proximidade de grandes regiões com a Linha do Equador, para a produção de eletricidade a partir da energia solar fotovoltaica. Para efeito de comparação, a região menos ensolarada do Brasil tem um potencial de geração maior do que a região mais ensolarada da Alemanha, país referência em energia solar no mundo. Os estados da Região Sul do país – Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina – estão entre os cinco do país com o maior número de usinas fotovoltaicas instaladas e entre os seis com as maiores potências instaladas.

Os incentivos para a aquisição de fontes renováveis ainda são muito poucos. Que outras estratégias deveriam ser utilizadas para impulsionar o setor de energia?

Desenvolvimento de políticas públicas voltadas para as regiões que sofrem com a falta de acesso à energia elétrica seja por questões sociais (população de baixa renda), seja por questões geográficas (comunidades isoladas em regiões de difícil acesso). Segundo dados das próprias distribuidoras de energia, cerca de 2 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à energia elétrica no país. Caso essas políticas públicas fossem implantadas incentivando e possibilitando a utilização de energias renováveis por essas pessoas, isso causaria um aquecimento da economia local abrindo uma gama de oportunidades.

Qual o país lidera em investimentos no mercado de renováveis e o que falta para o Brasil alcançar esse patamar?

A China lidera os investimentos em renováveis. São quatro principais pilares para desenvolver o setor no Brasil. Mais investimentos por parte do governo (na China foram anunciados investimentos de US$ 360 bilhões entre 2017 e 2020), desenvolvimento de políticas públicas favoráveis ao setor, simplificação das linhas de financiamento e estabilidade jurídica ao setor.

Qual o panorama brasileiro da energia solar (fotovoltaica/vapor)?

A energia solar, considerando a geração centralizada e a geração distribuída, tem uma potência total instalada de aproximadamente 4,4 GW, bem atrás de outras fontes de energia como a eólica, a térmica e a hidroelétrica. Porém, por meio da geração distribuída, cada vez mais os consumidores têm a possibilidade de gerar sua própria energia para consumo por meio de usinas fotovoltaicas instaladas em suas residências ou outras propriedades. Apesar de algumas regiões se destacarem (principalmente Sudeste e Sul), todo o país possui um grande potencial para o desenvolvimento dessa fonte de energia renovável.

Quais os desafios para a implementação dos carros elétricos no mercado brasileiro?

No Brasil existe uma pequena parte da frota de veículos que é de carros elétricos. Isso ocorre devido a fatores como o preço dos carros, que ainda chegam muito altos ao Brasil por fatores como fabricação, importação e logística, além da falta de infraestrutura, principalmente para o abastecimento desses veículos – estima-se que existam apenas 250 a 270 pontos de abastecimento no país.

Quais os benefícios poderão ser observados com a privatização da Eletrobras?

Poderemos observar uma desburocratização na empresa, agilizando, por exemplo, processos de contratação de funcionários e serviços e uma melhora na prestação de serviços, com uma capacidade maior de investimentos que, hoje, o governo não consegue realizar. Além disso, as tarifas de energia provavelmente diminuirão com esse processo de privatização.

O governo federal estuda abrir seis usinas nucleares até 2050, com estimativa de investimento de US$ 30 bilhões. Há necessidade dessas construções? Por quê?

Todas as fontes de energia são importantes, dentro de suas especificidades e particularidades. Em tese, não haveria necessidade dessas construções. O Brasil possui um potencial gigantesco para obter energia elétrica por meio de fontes renováveis. Existem diversas fontes que podem ser mais aproveitadas no Brasil, como a eólica, a solar, a biomassa e a hidráulica – o país possui o terceiro maior potencial hidroelétrico do mundo.

 

“A inovação passa a ser um fator muito importante em qualquer setor que tenha um crescimento tão elevado, com consumidores cada vez mais exigentes”

 

Em 2019, foram investidos US$ 6,5 bilhões em fontes de energias renováveis do Brasil. O que está planejado para 2020? O que se pode esperar para os próximos anos no setor de energia?

O planejamento do setor elétrico brasileiro é feito sob a maestria da Empresa de Desenvolvimento Energético (EPE) em planos quinquenais, decenais e vintenais. O último plano da EPE, que é ligada ao Ministério de Minas e Energia (MME), tem em detalhes esse planejamento.

Apesar da garantia do presidente, o setor teme a taxação? E caso ela se concretize, o quanto isso atravancaria os avanços já planejados?

Isso diminuiria bastante os investimentos no setor, primeiro porque aumentaria em média 35% o tempo de retorno dos investimentos (caso a Aneel optasse pelo cenário 5 – taxação de 68% em média), e segundo, porque traria uma grande instabilidade regulatória, uma vez que as regras do setor mudariam de forma abrupta sem uma contrapartida razoável.

No Espírito Santo, temos sol, vento, recursos naturais e posição geográfica estratégica. O que dificulta tanto alcançar um uso de energias renováveis que contribua com o desenvolvimento dos municípios capixabas?

Existem muitos motivos que poderiam impactar o desenvolvimento do setor, mas, sem dúvidas, se o Espírito Santo tivesse as mesmas leis de incentivos às energias renováveis que o Estado de Minas Gerais adota desde 2012, provavelmente seria um dos líderes no segmento (como é atualmente Minas).

 

“Existem diversas fontes que podem ser mais aproveitadas no Brasil, como a eólica, a solar, a biomassa e a hidráulica. O país possui o terceiro maior potencial hidroelétrico do mundo”

 

Como o senhor avalia a movimentação do segmento aqui no Estado, tanto em relação às políticas públicas quanto no que se refere ao interesse na esfera privada?

Existem diversos grupos trabalhando em prol das energias renováveis, nas três esferas (federal, estadual e municipal). A mobilização dos empresários, dos investidores e da própria população no setor contribui tanto na divulgação quanto na efetivação de políticas favoráveis ao segmento.

Aonde deveremos chegar após ultrapassar esses obstáculos?

Na verdade, já deveríamos ter chegado! Principalmente no século 21, em que o consumidor – conhecido agora como prosumidor – é o centro das atenções e pode escolher entre diversos fornecedores de produtos e serviços, podendo inclusive compartilhar recursos com outros produtores e/ou consumidores, ou ainda, ele mesmo prover parte de suas necessidades, de forma limpa, sustentável e beneficiando toda a sociedade.

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