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quarta-feira, 22 maio, 2024

Capital de giro: você sabe como formá-lo?

Especialistas da área financeira dão dicas para micro e pequenas empresas formarem seu capital de giro e conseguirem desenvolver seus negócios

Para começar a construir o capital de giro, é preciso entender que ele significa capital de trabalho, ou seja, o capital necessário para financiar a continuidade das operações da empresa. São exemplos de capital de giro os recursos para financiamento aos clientes (nas vendas a prazo), recursos para manter estoque e para pagamento de fornecedores (compra de matéria-prima ou mercadorias de revenda), impostos, salários e demais custos e despesas operacionais.

Segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), o capital de giro está relacionado com todas as contas financeiras que giram ou movimentam o dia a dia da empresa, como se fosse o sistema circulatório do corpo humano.

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O CEO do Clube do Empreendedor SA, Eduardo Moreira, revela que, antes de começar a formar seu capital de giro, a empresa tem que saber qual sua necessidade de capital para realizar suas atividades com sucesso. Segundo ele, a necessidade de capital de giro varia de acordo com os negócios. “Primeiro, leva-se em consideração a natureza do negócio. Definido o valor de fornecimento de giro, a empresa vai para o mercado de crédito”, ensina Eduardo.

O importante, de acordo com o analista, é a empresa continuar contando com uma consultoria que possa fazer projeções para o futuro. “Essa consultoria vai identificar se a empresa corre risco de perder a liquidez e vai analisar sua saúde financeira, observando quando a empresa tem mais pagamento a fazer do que a receber”, disse Eduardo.

Segundo ele, a palavra-chave para a construção de um eficiente capital de giro é planejamento, que começa com organização. “As empresas necessitam saber que não podem ir diretamente a um banco, porque não é vocação dos bancos dar consultoria. Os bancos vendem dinheiro, e muitos empresários acabam tomando crédito, sem antes procurar uma consultoria”, lamenta o empresário.

Doutor em Contabilidade e diretor-presidente da Fucape Business School, Valcemiro Nossa afirma que, trabalhando com planejamento, o micro ou pequeno empresário pode dar o pontapé inicial nos seus negócios já com capital garantido. “Todo negócio, por menor que seja, deve ser planejado. O Sebrae, por exemplo, possui áreas específicas de apoio às pessoas que querem montar seu próprio negócio. Se bem planejado, o pequeno empresário já pode começar seu negócio com o capital garantido.”

Valcemiro Nossa, diretor-presidente da Fucape. Foto: Instagram/@valcemiro
Valcemiro Nossa, diretor-presidente da Fucape. Foto: Instagram/@valcemiro

Segundo Valcemiro, o que o pequeno empresário deve sempre ter em mente é o controle de fluxo da empresa. “Lamentavelmente”, afirma o professor, muitos micro e pequenos empresários só percebem essa importância quando seu negócio fecha. “Para gerar receita, há automaticamente despesas. Todo empréstimo tem que ser pago algum dia acrescido de juros. Assim, ele deve ter, no mínimo, um controle do fluxo de caixa com as entradas e saídas previstas de recursos a cada mês. Isso facilita visualizar se em algum momento no futuro vai faltar dinheiro ou não. Se há um sinal de que poderá faltar dinheiro em algum momento, o empresário deve imediatamente iniciar uma negociação com algum banco sobre o que pode ser oferecido a ele para suprir a possível falta de recurso no futuro”, ensina Valcemiro.

O professor ainda acrescenta: “Se a negociação for feita com antecedência, há mais facilidade na aprovação do crédito, além da obtenção de menores taxas de juros. Buscar crédito quando se tem dinheiro facilita sua aprovação. Mas se deixar para recorrer ao banco quando se está no vermelho, certamente haverá dificuldade na aprovação de crédito e, consequentemente, as taxas de juros serão maiores, por causa do maior risco apresentado”.

Construindo o capital de giro
Especialistas de mercado afirmam que para uma micro ou pequena empresa não é difícil aprender a lição. Para tanto, os empresários devem seguir algumas regras básicas para construir seu próprio capital de giro, como planejamento, dimensionamento da necessidade de capital de giro, prioridade aos produtos de crédito de médio e longo prazos e gestão financeira.

Dentro das ações de planejamento, o secretário de Desenvolvimento Econômico de Vila velha, Everaldo Colodetti, ensina que, para construir capital de giro, as micro e pequenas empresas precisam, acima de tudo, investir seus recursos na aquisição dos produtos que elas vão vender.

Everaldo Colodetti, secretário de Desenvolvimento Econômico de Vila Velha. Foto: Instagram/@everaldocol
Everaldo Colodetti, secretário de Desenvolvimento Econômico de Vila Velha. Foto: Instagram/@everaldocol

Segundo ele, o que geralmente ocorre é que boa parte dos empresários, em vez de investir nas mercadorias que vão ser a matéria-prima de sua empresa, preferem, inicialmente, comprar outros tipos de ferramentas, como móveis e demais equipamentos, que não representam insumos para a atividade fim da empresa. “Até por falta de conhecimento, há empresários que compram de tudo, menos mercadorias necessárias para gerir sua empresa. Ou seja, eles se preocupam com tudo, menos com o capital de giro. Depois, vão ao mercado financeiro tomar empréstimo”, disse Everaldo.

“Os micro e pequenos empresários precisam compreender que capital de giro não é saneamento financeiro da firma. Capital de giro é o que faz girar a empresa. Sintetizando: capital de giro é para comprar mercadorias e insumos para uma empresa”, frisou o secretário.

O professor Valcemiro Nossa lembra que o capital de giro na empresa deve sempre existir com a finalidade de servir como um “colchão de segurança” para os desníveis de caixa que o negócio possa sofrer em suas atividades operacionais. Esses desníveis, segundo ele, podem ocorrer por vários motivos, como aumento da inadimplência, redução de vendas, aumento acelerado de custos, aumento de prazos concedidos para recebimento e redução de prazos obtido dos fornecedores.

O importante, frisa Valcemiro, é que as micro e pequenas empresas mantenham, para o sucesso de seu empreendimento, as contas organizadas e com as devidas previsões futuras. Além disso, outra dica é manter a contabilidade da empresa sempre organizada e com registros fiéis ao que acontece no dia a dia. “Uma contabilidade completa leva a informações verdadeiras e automaticamente úteis, tanto para o administrador, quanto para a aprovação de crédito. Sempre que estiver prevendo qualquer tipo de sazonalidade no seu negócio e que possa levar a alguma falta de dinheiro, mesmo que momentânea, o ideal é procurar os agentes financeiros com antecedência para aprovação de limites de créditos com taxas menores.”

Uma outra estratégia a ser seguida para micro e pequenas empresas construírem seu próprio capital de giro são os ajustes dentro da empresa. Eduardo Moreira, analista técnico do Sebrae, orienta os empresários a tomarem decisões internas, como adotar gestão de estoque, de fornecedor e de contas a receber. “As empresas não podem dar a seus clientes prazo muito estendido para pagamento. Quando há descasamento de tempo entre o que a empresa tem a pagar e o que ela tem a receber, vai surgir problema de caixa”, diz Eduardo. “O ideal seria a empresa receber antes para pagar depois.”

Segundo Eduardo, o capital de giro de uma micro e pequena empresa é calculado de acordo com seu estoque de mercadorias, o prazo que ela recebe do fornecedor para efetuar seus pagamentos e o prazo que dá aos clientes. “O capital de giro, na verdade, depende mais do prazo de pagamento, da estocagem e do prazo de recebimento do que do valor da empresa”, explica o CEO do Clube do Empreendedor SA.

As armadilhas do crédito
Especialistas informam que a sobrevivência do capital de giro de micro e pequenas empresas passa, necessariamente, por financiamento que elas buscam. Entretanto, eles alertam para armadilhas praticadas pelo sistema financeiro. Por mais paradoxal que possa parecer, um dos itens que mais preocupam aos tomadores de empréstimo é justamente a linha de crédito que os bancos batizaram de “capital de giro”.

“Não recomendamos a linha de crédito que os bancos oferecem com o nome capital de giro. Diferente do que o nome sugere, essa linha é cara e o prazo para pagamento é curto. A natureza dela, apesar do nome, não é adequada para formar capital de giro. É um crédito ruim, porque a necessidade do capital de giro é um ato contínuo, ou seja, se recebeu tem que pagar”, disse Eduardo Moreira.

“O micro ou pequeno empresário tem que conhecer suas necessidades, para, depois, conhecer quem lhe oferece um custo menor”, completou o secretário de Desenvolvimento Econômico de Vila Velha, Everaldo Colodetti.

O ideal, dizem economistas, é conseguir um empréstimo de longo prazo para pagamento, e se possível com taxas de juros reduzidas. Até 12% ao ano é uma taxa razoável. Já a linha de crédito denominada capital de giro tem uma taxa de juros de 5% a 7% ao mês, nos bancos privados.

O Sebrae ajuda micro e pequenas empresas a terem acesso ao crédito e a manterem seu capital de giro. Para isso, antes, faz um acompanhamento técnico da empresa e elabora estudos de planejamento. O Sebrae trabalha com instituições financeiras públicas, como Banestes, Bandes, Banco do Brasil, Caixa e Banco do Nordeste, como forma de ajudar o micro e pequeno empresário a ter uma melhor visão da política de juros dos bancos.

“Uma coisa é certa: se pequenas e micros empresas utilizarem os recursos de maneira adequada, o risco de mortalidade é pequeno”, explica Eduardo.

*Esta matéria foi publicada originalmente na edição 70 da Revista ESBrasil, de maio de 2011. Os fatos narrados referem-se às circunstâncias e ao contexto de então.

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