Especialistas atribuem os números positivos do turismo a investimentos e políticas públicas

As praias de Vitória, Vila Velha e Guarapari foram os locais escolhidos por turistas de cinco países e 22 estados brasileiros para receber o ano de 2020. Foi o que mostrou uma pesquisa realizada pela empresa Qualitest, contratada pela Secretaria Estadual de Turismo (Setur), sobre o movimento registrado no dia 31 de dezembro de 2019.

Guarapari é o destino favorito de muitos turistas durante o verão

Dados da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH-ES) apontam que muitos desses visitantes continuaram a curtir as belezas capixabas depois do Réveillon. Durante o mês de janeiro, os hotéis de Vitória, por exemplo, estão apresentando uma taxa de ocupação de 85% a 90%. Para Gustavo Guimarães, presidente da ABIH-ES, Vitória passou a atrair mais turistas de outros estados e até países por ser um destino barato e com uma qualidade comprovada.

Voos partindo de São Paulo para a capital capixaba saem mais em conta do que aqueles cujo destino são Salvador, Recife, Natal e outros lugares do Nordeste. Além disso, grandes redes hoteleiras instaladas aqui no Estado mantêm os mesmos padrões de qualidade encontrados em outras capitais, mas oferecem preços baixos, prática que foi acompanhada por hotéis menores e pousadas, entre outros estabelecimentos.

“O cenário ainda não está ideal. Não estamos voando em céu de brigadeiro. Existe muito a ser feito, mas é uma satisfação ver que o setor de turismo está sendo tratado de forma profissional no Espírito Santo e tendo o apoio da Secretaria de Turismo”, afirma o presidente da ABIH-ES.

Mudanças

Para entender como Vitória e o Espírito Santo tornaram-se a escolha de quem procura por descanso e lazer nos dias de folga e nas férias, é fundamental relembrar como era o contexto há cerca de 10 anos.

Segundo Gustavo Guimarães, durante muito tempo o turismo do Estado foi feito de forma individualizada, ou seja, cada empresa, hotel e entidade fazia um trabalho independente, sem um direcionamento comum.

Moqueca capixaba, prato típico da gastronomia do Espírito Santo, foi apresentada durante feira de turismo

Por volta de 2008, Vitória viveu um boom de turismo de negócios e de eventos. Isso aumentou a procura por hotéis corporativos e atraiu a atenção de grandes redes hoteleiras, como Bristol, Accor e Atlântica, que construíram unidades na capital.

Com isso, a hotelaria da cidade se voltou para o turismo corporativo: a taxa de ocupação durante a semana era de 80% a 90% e no fim de semana, de 10% a 15%. Já em outras regiões do Espírito Santo, como Guarapari, Anchieta e Coqueiral de Aracruz, a situação era inversa, com altos percentuais nos sábados, domingos e feriados e baixos índices nos dias úteis.

A casaca, o tambor e a cuíca são alguns dos instrumentos que ditam o ritmo do congo, tradicional gênero musical oficializado como Patrimônio Imaterial do Estado

A crise econômica nacional entre o final de 2014 e o início de 2015, no entanto, mudou esse quadro. Diversas empresas, como a Vale, reduziram o número de viagens e eventos, o que afetou de forma estrondosa a taxa de ocupação nos hotéis, que caiu para cerca de 30%. A tragédia de Mariana, em Minas Gerais, que acarretou o fechamento da planta da Samarco em Anchieta, no Sul capixaba, e os casos de corrupção da Petrobras agravaram o cenário.

O turismo capixaba sofreu um grande baque e precisou se reinventar. A solução foi focar o segmento de lazer, que era responsável por 10% a 15% das reservas, de acordo com a ABIH-ES. Com o apoio da Setur-ES, a rede hoteleira e entidades do setor passaram a realizar ações para divulgar os atrativos da capital capixaba.

Para o secretário de Estado de Turismo do Estado, Dorval Uliana, as principais medidas tomadas foram a persistência na regionalização do turismo e a participação em feiras do segmento. “Muitos municípios não possuem equipes próprias, com um conhecimento especializado, para investir na divulgação de seus atrativos. Por isso, a secretaria passou a orientá-los e a dar-lhes suporte para a busca de recursos e a promoção de suas histórias, belezas naturais e festas, etc”, explicou.

A Setur também viabilizou a participação dessas cidades em eventos nacionais e internacionais, como a Feira de Negócios Turísticos da União Gaúcha dos Operadores e Representantes de Turismo (Ugart), no Rio Grande do Sul, a Abav Expo, da Associação Brasileira de Agência de Viagens, e a internacional Word Travel Market Latin American, uma das maiores feiras do setor e que apresenta destinos do mundo inteiro. Em 2019, por exemplo, o evento reuniu 600 expositores de 50 países e atraiu 11 mil profissionais do segmento.

Vila Velha: a beleza e os encantos das praias atrai muitos turistas que chegam ao Espírito Santo

Na 35ª Feira de Negócios Turísticos Ugart, realizada no ano passado, o Espírito Santo marcou presença e promoveu uma ação para apresentar aos agentes de viagem, público exclusivo da feira, os atrativos do Estado e o principal prato de sua gastronomia: a moqueca capixaba. Para isso, a equipe da Secretaria Estadual de Turismo levou para o evento um chef de cozinha e todos os itens necessários para o preparo da iguaria, incluindo peixe, camarão, coentro e a típica panela de barro.

O secretário Dorval Uliana destaca outro aspecto que foi e continua sendo importante para o crescimento do Turismo no Espírito Santo: o programa Caminhos do Campo, da Secretaria da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca do Espírito Santo (Seag-ES). Trata-se de um programa de pavimentação de estradas rurais e municipais para adequá-las e revesti-las, focando sobretudo aquelas localizadas em áreas de maior concentração de agricultura familiar.

“O Caminhos do Campo conectou as pequenas comunidades, que possuem tantos atrativos e belezas naturais. O programa começou para facilitar o escoamento dos produtos das pequenas propriedades, mas acabou proporcionando um desdobramento positivo para o turismo.

As novas estradas permitiram que o acesso a essas regiões fosse feito em qualquer época do ano. Muitos empreendedores ficaram motivados e passaram a investir mais nos negócios, inclusive em pequenas pousadas”, analisa Uliana.

Aeroporto de Vitória: expectativa para voo internacional ainda neste ano

Segundo o secretário, há a intenção da criação de um outro programa semelhante, o “Caminho do Turismo”, este para incluir e conectar comunidades que possuam atrativos e atividades voltadas para o turismo.  “O objetivo dessa nova concepção é dar um sentido mais turístico para estradas que possibilitem uma vista para uma paisagem bonita, seja um vale, seja uma rampa, e fazer um paisagismo e uma sinalização especial”, explica.

Para Alfonso Silva, presidente da Espírito Santo Convention & Visitors Bureau (ESC&VB), as políticas públicas de incentivo ao turismo são fundamentais para o desenvolvimento do setor.

“O turismo é uma atividade transversal e, por isso, transita por todas as áreas, como estradas, segurança pública, saúde e educação, entre outras. Toda vez que o governo abre uma estrada em algum lugar do Espírito Santo, possibilitando melhor acesso, isso beneficia o turismo.

Quando investe em segurança pública, o turismo também é beneficiado, e assim sucessivamente. Nossa atividade é diretamente ligada à boa prática de políticas públicas. O atual governo tem demonstrado estar sensível ao desenvolvimento do turismo no Espírito Santo”, analisa.

Segundo dados da ABIH-ES, atualmente o Espírito Santo apresenta bons números tanto no turismo de lazer quanto no corporativo. Durante o verão, principalmente em janeiro, os hotéis registram uma taxa de ocupação de 85% a 90%. A partir de fevereiro e março, os eventos de negócios voltam a ser realizados, representando 70% das reservas.

Mas, para o presidente da ESC&VB, ainda há muito a ser feito. A principal atitude é entender que o turismo é uma indústria limpa e de lugar feliz. “Precisamos tratar o setor como uma alternativa para o Espírito Santo e buscarmos fazer um turismo de qualidade, encantador, que saiba receber as pessoas”, reforça Alfonso Silva.

Turismo Internacional

As entidades públicas e privadas do segmento de turismo, como Setur, Espírito Santo Convention & Visitors Bureau e Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Espírito Santo (ABIH-ES), possuem um objetivo claro para 2020. “Este será o ano de inserção do Espírito Santo no cenário turístico internacional”, declara o secretário de Estado de Turismo, Dorval Uliana.

Atrair turistas de outras nacionalidades, porém, será um desafio e tanto para o Estado, visto que esta também é uma dificuldade que o Brasil enfrenta. Dados da Organização Mundial do Turismo (OTM) divulgados em 2019 mostraram que o país recebeu 6,6 milhões de visitantes estrangeiros em 2018. Para se ter uma ideia, o Museu do Louve, em Paris, na França, teve, na mesma época, 7,6 milhões.

O levantamento revelou que a maioria dos turistas que visitam o Brasil são argentinos: em 2018, foram cerca de 2,9 milhões. E é este o público que o Espírito Santo deseja atrair.

No dia 3 de janeiro deste ano, a operadora aérea suíça passou a administrar o recém-inaugurado Aeroporto de Vitória com a missão de articular voos internacionais para o local. A primeira rota seria justamente para Buenos Aires, capital da Argentina. Para o plano sair do papel, é necessário que as companhias aéreas demonstrem interesse e que haja demanda para essa opção.

A expectativa é que o Espírito Santo tenha seu primeiro voo internacional ainda em 2020, em uma rota semanal operada pela Gol. Caso isso aconteça, Vitória será a 17ª cidade brasileira a ter um voo direto para a capital argentina. As entidades do setor terão a tarefa de apresentar para os hermanos os atrativos turísticos do Estado.

“Muitos dos argentinos que visitam o Brasil vão para o Rio de Janeiro e, depois, para o Nordeste. Queremos atraí-los para o Espírito Santo. Será uma ação competitiva e teremos a missão de mostrar que somos um destino bonito, barato, limpo e seguro. Para recepcionar esses e outros turistas, precisaremos ser simpáticos, atender bem e oferecer uma boa gastronomia e bons programas”, analisou Dorval Uliana.

Feriados à vista!

O ano de 2020 começou com bons números para o turismo capixaba, e o calendário dá esperanças que continuará assim ao longo dos meses: dos 10 feriados nacionais, nove cairão em dias de semana.

“O brasileiro já é festeiro por natureza e, neste ano especificamente, teremos muitos feriados impactando muito nosso segmento. Cada feriado a mais no ano melhora nossa capacidade financeira e conseguimos impulsionar os nossos negócios.

Com os prolongados, o turista nacional consegue se programar e fazer viagens mais curtas, aproveitando essas folgas”, comemora Alfonso Silva, presidente da Espírito Santo Convention & Visitors Bureau.