Lucro que faz o bem para a sociedade

Flávia Rodriguez é vice-presidente de marketing do Instituto Brasileiro de Executivos e Finanças do ES (IBEF-ES)

Especialista explica que, do pequeno ao grande empresário, é possível investir no conceito e aumentar sua lucratividade

Os empresários podem aumentar o lucro de seus negócios se fizerem o bem para a sociedade. Parece coisa de sonhador, não? Afinal, existe uma dificuldade histórica em unir, verdadeiramente, os empreendimentos a projetos sociais e ambientais. Mas é o que defendem professores da Harvard Business School, a partir do conceito de shared value (valor compartilhado).

De acordo com nomes como o professor Michael Porter, que tive o privilégio de conhecer recentemente em um curso que fiz nessa escola de negócios, podemos ser mais otimistas, pois o tão criticado capitalismo está em transformação: o mundo dos negócios caminha para um cenário onde as companhias desempenham papel crucial ao resolver grandes questões sociais, e a boa notícia para os executivos é que as empresas irão lucrar muito com isso.

Quando as empresas conseguem promover progresso social, reduzindo, por exemplo, problemas como pobreza e ocorrência de doenças, elas encontram um meio mais vantajoso para operar. O case da Anglo American, uma das maiores mineradoras do mundo, é uma ótima ilustração. Visando a proteger sua força de trabalho e reduzir o absenteísmo, a companhia criou o primeiro programa em larga escala na África para identificar e tratar o vírus da Aids. Incrível, não?

E além de tirar proveito em termos financeiros do bem que farão às comunidades, os negócios irão ainda recuperar sua imagem diante do público. Não é raro que as companhias sejam vistas como antagonistas do bem comum. Diante dos olhos das comunidades, elas seriam, com ou sem razão, causadoras de uma série de problemas. O empresariado tem em mãos armas poderosas, mas nem sempre se dá conta – está com o setor privado, muitas vezes, a expertise para se resolver vários problemas que afligem o mundo.

Obter matéria-prima de qualidade para os cafés da Nespresso é um desafio para a marca. Os grãos são comprados de pequenos produtores da África e América Latina, que estavam presos a um ciclo de baixa produtividade, baixa qualidade e degradação ambiental. Ela criou, então, mecanismos para medir a qualidade dos grãos na hora da compra, o que permitiu um pagamento melhor para os produtos mais qualificados.

O mundo dos negócios caminha para um cenário onde as companhias desempenham papel crucial ao resolver grandes questões sociais, e a boa notícia para os executivos é que as empresas irão lucrar muito com isso.

Isso desencadeou uma reação em vários níveis: melhor remunerados, os produtores passaram a investir na produção, o que aumentou a qualidade, diminuiu os impactos ambientais e permitiu à empresa o acesso a um melhor produto.

Outro exemplo é a multinacional que se deu conta de que, ajudando os funcionários a deixar o cigarro e implementando vários outros programas voltados à saúde e ao bem-estar, conseguiu economizar quase três vezes a quantia, graças à presença de uma mão de obra mais presente e produtiva.

Mais do que nunca, é hora de nós, empreendedores, levarmos em conta o que deixamos a nossos públicos de interesse. É preciso ir além da geração de emprego e renda. As crises são momentos para repensar a forma em que fazemos as coisas e, pensando bem, já era hora de trazermos um pouco mais de alma para os negócios, não?


Flávia Rodriguez é vice-presidente de marketing do Instituto Brasileiro de Executivos e Finanças do ES (IBEF-ES)

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