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quarta-feira, 16 junho, 2021

“Matem todos os porcos!”

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(Foto: GEPR)

Aprendi a lição de que os chineses são capazes de qualquer sacrifício para chegar ao seu objetivo

Por J.E Conti 

Agradeço as centenas de comentários dos nossos leitores ao nosso último artigo sobre a China e a necessidade do país por comida. Por isso, vou contar um pequeno “causo” que amargamente aprendi quando estava por lá.

A China havia descoberto o Brasil e percebeu que produzíamos com abundância a maior riqueza de que eles precisavam: soja. Deixe-me explicar para os que não conhecem: a base alimentar da China é o porco e, como tudo lá é gigantesco, o volume de carne de porco que a China produz por dia talvez seja capaz de alimentar toda a população do Brasil por um mês ou mais.

Bem, os chineses começaram a comprar a soja brasileira para fazer ração e alimentar os porcos, mas aí aconteceram dois fatos importantes: primeiro, o Brasil não tinha qualquer infraestrutura para exportar soja para a China. Nossos portos eram (e muitos ainda são) totalmente ineficientes, com equipamentos ultrapassados e uma estrutura administrativa e operacional formada por funcionários ou sindicatos sem a menor visão de mercado. Resultado: colapso portuário geral, principalmente nos portos do sul do Brasil.

Mas foi o segundo fato que complicou de vez. Vamos por partes. Nenhuma comodity passa ilesa pela lei da oferta e procura. Os produtores perceberam o interesse dos chineses e o que fizeram? Resolveram plantar mais áreas. Foi suficiente? Claro que não. Qual a alternativa? Fazer uma área que produzia de 30 a 40 sacas por hectare, produzir mais.

Os Estados Unidos já haviam resolvido essa questão. Mas como trazer sementes especiais (transgênicas) para o Brasil sem que nossos ambientalistas “quebrassem o pau”? Não importa o governo, o lobby rural é sempre muito forte. Logo depois de alguma confusão midiática, começamos a plantar nossa soja especial que elevou a produção a patamares até então inimagináveis de 70 a 80 sacas por hectare. Hoje, nossas boas lavouras alcançam até 110 sacas/he.

Voltando aos chineses e a primeira questão. Como a oferta aumentou, nossos portos não davam vencimento para embarcar e o mercado de soja é um oligopólio mundial dominado por três ou quatro empresas. Resultado: o preço da soja foi às alturas, subindo mais de 500% em questão de dois anos. Como os compradores chineses fizeram contratos de longo prazo com as trades teriam que pagar esse alto preço, sem qualquer condição de repassar internamente esses custos.

É aqui que entra minha grande admiração pelos chineses: como conseguiram resolver esse problema? Como já disse anteriormente, naquela época trabalhava com logística marítima, logo a empresa em quem atuava estava com 12 navios carregados de soja para a China , e os compradores não tinham dinheiro para pagar. Estamos falando em algo próximo a meio bilhão de dólares. Se considerarmos as outras trades, estamos falando de algo em torno de 4 bilhões de dólares. Isso hoje não é nada para a China, mas naquele tempo era considerável.

Foi aí que eles tiveram uma ideia genial, na verdade um golpe de mestre arriscado. Os contratos não especificavam nada sobre soja transgênica, mas o governo chinês, para salvar os compradores e ter comida para alimentar seus milhões de porcos e, consequentemente seu povo, aprovaram urgentemente uma lei em que só receberiam soja brasileira se em um bushel (27 kg) houvesse menos do que sete grãos transgênicos.

Como ainda havia pouca soja transgênica, e ela estava misturada à soja normal, em dois dias resolveram diminuir para 3 grãos transgênicos por bushel. O objetivo seria forçar o preço da soja a cair no mercado internacional, pois toda soja embarcada seria rejeitada.

Naquele tempo, a China ainda não tinha todo esse cacife para bancar esse jogo comercial. As trades europeias e americanas reinavam soberanas no mercado. Nós da logística éramos a parte mais frágil nessa luta entre o mar e a rocha. Meu chefe na China era um japonês, quase cometeu um “haraquiri” no meio da sala, mas alguém muito idiota e que ainda não conhecia os limites do governo chinês, tentou convencê-lo a não se matar dizendo: “a China precisa dessa soja para alimentar os milhões de porcos, sem isso eles vão morrer e não teremos comida para todos”. É óbvio que tínhamos vários chineses em nosso escritório. Vocês precisavam ver a cara deles, dizendo: “nosso governo pode fazer qualquer coisa”.

Luta de UFC é para os fracos. Trades poderosíssimas de um lado, governo chinês do outro, e nós iguais cachorros que caíram da mudança sem saber o que fazer. Navios chegando aos portos não podiam atracar, caos geral. Dito e feito! Na semana seguinte, o governo chinês ordenou que 30% de todos os porcos do país fossem abatidos. Bateu a angústia geral no mercado. Imaginamos todos os cenários, não havia como conservar toda aquela carne, milhares de toneladas se estragariam, muitos passariam fome.

Se já estávamos desesperados, agora iria faltar faca para fazer haraquiri. A guerra entre as trades e o governo chinês durou quase três meses. Preciso dizer quem ganhou? Aqueles 4 bilhões de dólares viraram 2 bilhões. Os chineses do escritório riram até os olhos ficarem fechados.

Meu sonho sempre foi conhecer o sujeito que deu a ordem para abater os porcos e assumiu todas as consequências de matar junto milhões de chineses. Voltei para o Brasil sem conhecê-lo (ainda bem), mas o mundo aprendeu naquele incidente uma lição com a China: eles são capazes de qualquer sacrifício para chegar ao seu objetivo. Valores como vida, dignidade, lealdade, honestidade  só funcionam quando eles estão ganhando. A China não chegou até aqui só porque gostam de trabalhar, mas a ambição é a mola mestra daquela nação. Nada nem ninguém os impedirá de chegar lá.

J.E. Conti ([email protected]) é engenheiro, consultor, empresário e escritor.

ES Brasil Digital

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