Desenvolvimento de tecnologia lastreada nas grandes indústrias de commodities

A indústria de tecnologia capixaba tem uma grande oportunidade de desenvolver tecnologias mundiais, aproveitando a demanda de nossas grandes indústrias

O Espírito Santo é um dos estados mais industrializados do Brasil. A participação do setor produtivo no Produto Interno Bruto (PIB) capixaba ultrapassa 40%, o que nos garante a segunda posição no ranking nacional que mede o peso da indústria nesse indicador de crescimento econômico. Nossa atividade é bem articulada, e sua entidade representativa, a Federação das Indústrias (Findes) tem expressivo protagonismo.

Nosso Estado é forte produtor de commodities, produtos de baixo valor agregado, entretanto várias das indústrias fornecedoras desses itens instaladas em território capixaba têm relevância mundial, como a Vale, a ArcelorMittal, a Fibria (que agora se chama Suzano) e a Petrobras. E ainda há segmentos em que somos referência, como a produção rochas ornamentais e a cafeicultura.

Engana-se quem pensa que, por entregar mercadorias de baixo valor agregado, essas companhias não usem tecnologia de ponta. Para conseguir ser competitivas, elas investem, sim, intensamente nesse recurso. Só para citar um exemplo, enquanto os carros autônomos vão demorar anos até ganhar as ruas, já existem minas de ferro e carvão com caminhões 100% autônomos há algum tempo em operação.

Sempre me perguntei o motivo pelo qual tão poucas empresas de tecnologia aproveitam essas grandes indústrias para criar produtos inovadores e resolver seus problemas. Afinal, quem atende uma dessas grandes companhias aqui também atende a outras semelhantes em qualquer lugar do mundo. A construção civil, por outro lado conseguiu aproveitar essa proximidade, e temos empreendimentos capixabas que são hoje referência em montagem e manutenção de plantas industriais em toda a América do Sul.

“Engana-se quem pensa que, por produzir produtos de baixo valor agregado, essas indústrias não usem tecnologia de ponta”

A resposta está no fato de ser necessário aplicar recursos e dinheiro por longo prazo para apresentar inovação tecnológica às indústrias. Investe-se anos a fio sem faturamento, para depois investir mais ainda na validação e comercialização do produto. Poucas empresas têm esse fôlego. Trabalhar com inovação exige uma cultura de longo prazo, investimento constante e tolerância a erros e falhas da equipe de pesquisa e desenvolvimento (P&D) – muito dinheiro injetado é perdido no processo de aprendizado.

Nos países mais avançados econômica e socialmente, há amplo financiamento público para desenvolvimento tecnológico – na etapa de P&D –, e o mercado de capital de risco investe pesadamente em empresas de tecnologia com produtos promissores com potencial para ganhar ou mudar mercados. No Brasil já temos legislação que permite financiamento de desenvolvimento tecnológico com dinheiro público, e o mercado de capital de risco tem avançado, embora precise amadurecer bastante.

As grandes indústrias também têm amadurecido e se aberto para o mercado, no que vem sendo chamado de inovação aberta. A ArcelorMittal, por exemplo, criou na planta de Tubarão o seu 12° Centro de P&D mundial, o único no Brasil, enquanto a Vale implantou também em Vitória seu Centro de Inteligência Artificial. A Petrobras vem se aproximando do mercado de tecnologia capixaba há alguns anos, com forte suporte da Findes, e já temos empresas capixabas exportando produtos de conteúdo tecnológico para o setor de óleo e gás.

Os empreendimentos no Estado que fornecem para as grandes indústrias estão diante de oportunidades imperdíveis para poder inserir tecnologia em seus produtos, com apoio das instituições e dos próprios clientes.


Franco Machado é sócio e fundador das empresas Mogai Tecnologia S.A. e Olho do Dono S.A

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