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domingo, 23 janeiro, 2022

Apesar dos pesares, a cultura capixaba vai bem

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A falta dos desfiles das escolas de samba capixabas deixou de movimentar milhões de reais no estado. Foto: Divulgação

O ano foi marcado por perdas de vidas e financeiras da classe artística, mas a Lei Aldir Blanc traz uma esperança de dias melhores em 2022

Por Luciene Araújo e Marcelo Rosa

Este ano começou nada bem para a cultura. O cancelamento do carnaval não acaba apenas com a alegria dos foliões. Para se ter uma ideia do prejuízo causado com essa medida, em 2019, as festas geraram um impacto de R$ 7,91 bilhões na economia brasileira.

Naquele ano, de acordo com uma pesquisa feita pelo CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) com o setor turístico, 3.800 municípios relataram um aumento de 20% na arrecadação durante o feriado de 2020, em comparação com o ano anterior e gerou 25 mil empregos.

No Espírito Santo, somente com os desfiles das escolas de samba, em Vitória, a movimentação financeira calculada em 2020 foi de R$ 13 milhões na economia local, com 60 mil espectadores, muitos deles turistas de outras cidades e estados, além das milhares de pessoas que acompanham os desfiles pela TV, pela internet e pelas redes sociais.

“Carnaval não é despesa, é investimento. E a pandemia causou muitos estragos no mundo do samba no Espírito Santo, em todo o Brasil, porque é uma cadeia que movimenta milhões de reais, milhares de postos de trabalho que deixaram de existir.

Somente envolvidos diretamente com as escolas de samba, temos costureiras, aderecistas, carpinteiros, escultores, laminadores, profissionais que cuidam da tecnologia. E o impacto negativo se estende à rede hoteleira, aos bares e restaurantes, e aos prestadores de serviço de forma geral”, destaca Petterson Alves, carnavalesco mais premiado do estado.

Tarcísio Meira, morreu aos 85 anos, vítima do Covid-19. Foto: Divulgação

Se no primeiro semestre a marca foi o cancelamento da folia, o segundo semestre foi marcado por muitas perdas de ícones da cultura nacional, entre eles, capixabas de destaque. A Covid-19 nos tirou Tarcísio Meira, Paulo Gustavo, Agnaldo Timóteo e Genival Lacerda. Mas perdemos também Eva Wilma, Paulo José e o pianista Nelson Freire, um dos maiores do mundo. E o Brasil chorou a partida de Marília Mendonça. A morte precoce da cantora, com apenas 26 anos de idade e no auge da carreira, foi notícia na imprensa brasileira e de muitos outros países.

Na esfera internacional, a música ficou de luto por Charlie Watts, baterista dos Rolling Stones, com estilo único de unir o rock com o jazz. E no cenário capixaba perdemos Carlos Fernando Monteiro Lindenberg Filho, o Cariê, músico, escritor e empresário, responsável pelo surgimento da maior rede de comunicação do Espírito Santo; também o ator e produtor cultural, José Luiz Gobbi, aos 66 anos; e o renomado maestro Leonardo David, aos 45 anos de idade; e ainda Luiz Paixão, considerado o maior jazzófilo (pesquisador de jazz) do Estado.

Mas também há muito para comemorar. “No campo da política cultural, destaco a Lei Aldir Blanc, que destinou cerca de R$ 3 bilhões aos trabalhadores da cultura para a realização de atividades culturais, principalmente de forma online, em função da pandemia. E por isso que tem esse nome de lei de emergência cultural, uma iniciativa do Congresso Nacional”, destaca o jornalista, escritor e gestor cultural, José Roberto Santos Neves.

Uma conquista que também é citada pelo produtor e subsecretário de Cultura de Vila Velha, Manoel Goes. “A lei é um marco que carrega um importante legado: o de unir toda a classe artística e mostrou a capacidade dessas pessoas de se reinventar e desenvolver novas estratégicas, agora alicerçadas pela Lei”.

“Assim, tivemos registros sobre a cultura indígena, afro-brasileira e diversas outras formas de expressão, projetos muito interessantes que aconteceram em função da Lei Aldir Blanc”, acrescenta José Roberto.

A Academia Espírito-Santense de Letras, teve um ano movimentado e elegeu dois novos acadêmicos. Foto: Divulgação

Literatura

As palavras ganharam significativo espaço. O destaque ficou por conta do centenário da Academia Espírito-Santense de Letras, em setembro, marcado por muitas atividades, incluindo um concurso literário no sistema prisional.

“A AEL é a segunda entidade cultural mais antiga do ES em atividade. Temos 40 cadeiras, ocupadas por acadêmicos-escritores que nasceram ou vivem no Espírito Santo. Mas também participam escritores como membros correspondentes, representantes de Estados da Federação e países diversos”, destaca a presidente da Casa, Ester Abreu, professora capixaba, poetisa, ensaísta e autora de diversos livros, incluindo bibliografias, conteúdos didáticos, análises literárias e artísticas.

“E a instituição elegeu dois novos acadêmicos em 2021, Francisco Grijó e Romulo Felippe, tivemos diversas publicações e livros. A Academia se aproximou bastante da sociedade”, aponta José Roberto.

Um movimento que se deu também no cenário nacional, com a eleição de Fernanda Montenegro e Gilberto Gil para a Academia Brasileira de Letras. “Considero um marco, porque mostra que a ABL está fazendo o movimento de se aproximar mais da sociedade, elegendo grandes nomes que, embora não sejam ligados diretamente à literatura, são grandes artistas e com muito mérito passam a ser considerados imortais da ABL”, observa o jornalista e escritor.

Na literatura, tivemos ainda o livro “Os Sons da Memória – Uma leitura crítica de 40 discos que marcaram época na música do Espírito Santo”, uma viagem pela música capixaba, desde Maurício de Oliveira até Casaca, Manimal” relata José Roberto, autor da obra.

A “voz feminina também ganhou páginas de qualidade na literatura. “Mulheres Capixabas Incríveis” reúne biografias de mulheres que fizeram história no Espírito Santo. O livro foi produzido pelo Coletivo Delas e fala de mulheres como Maysa, Nara Leão e Waleska, entre muitas outras.

A atuação da Camerata Sesi foi de grande importancia durante o período de pandemia. Foto: Thiago Guimarães

Música

“No campo da música, sou um otimista. Entendo que a música está sempre se renovando”, aponta José Roberto. E na lista dos capixabas que vêm produzindo qualidade com as notas musicais, o crítico musical cita o Silva, conhecido nacionalmente. Mas também André Prando, Gabriela Brown, Nano Vianna e os Cinco Nós. E se o ritmo é samba, o destaque fica para Fábio Pinel; enquanto o Léo de Paula brilha na percussão com ritmos afro-brasileiros.

“Temos um momento de produção musical muito legal, por meio das atividades da Faculdade de Música do Espírito Santo, do curso Superior de Música da Ufes, e de projetos sociais, como o Vale Música, que completa 20 anos e trabalha com formação musical de jovens interessados em aprender diversos instrumentos. Além disso, temos também a atuação da Orquestra Sinfônica do Espírito Santo e da Camerata Sesi”, acrescenta José Roberto.

Manoel Goes destaca que o desafio para 2022 (confira artigo na página 60), será fazer circular toda a produção cultural que ainda está no papel. Levar os necessários e bons ares da cultura aos palcos, livros, cinemas e muitos outros locais. Afinal, a gente não quer só comida; a gente quer comida, diversão e arte… já disseram os Titãs!

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