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sábado, 28 março, 2020

Alexandre Garcia “Há uma crise de honestidade neste país!”

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O gaúcho Alexandre Garcia, de 72 anos, é possivelmente o comentarista político mais célebre do país. Tanta notoriedade foi conquistada com declarações contundentes por onde passou desde os tempos do Jornal do Brasil e da TV Manchete, ambos já extintos no Rio de Janeiro, até a Rede Globo, empresa na qual trabalha há mais de 20 anos. Desde a década de 70, o jornalista frequenta os bastidores do poder em Brasília, e por 18 meses, entre os anos de 1979 e 1980, foi ele o porta-voz oficial da Presidência da República, no governo de João Batista Figueiredo. Foi com toda essa experiência e sinceridade que Garcia conversou com a reportagem da ES Brasil. Na entrevista, o jornalista analisa os governos Lula e Dilma, a crise econômica mundial e revela que, em sua opinião, o Brasil vive uma grave crise cultural de honestidade.

Quais são as principais diferenças e similaridades entre os governos Lula e Dilma?
O governo Dilma Rousseff começou como um governo de continuidade. Claramente, foi a continuação do governo anterior, do presidente Lula, que lançou Dilma como candidata e a fez vitoriosa na campanha à presidência. Então, Dilma optou por manter a maior parte dos ministros de Lula no princípio de seu mandato. Mas, agora, começamos a sentir que o estilo Dilma vai transformando esse cenário. Ela já vem mudando o Ministério, e, em breve, haverá uma reforma ministerial, e pode-se imaginar que daqui a pouco teremos um governo Dilma mesmo, de fato, e não um governo de continuidade. A presidente tem uma personalidade muito forte, assim como Lula. É preciso citar que alguns desses ministérios ela não recebeu com agrado, mas como herança e pronto, ponto final. Disciplinadamente, ela aceitou. Há alguns ministros com quem ela não se relaciona bem. A partir daí, as eleições municipais do ano que vem podem servir como pretexto para que alguns ministros saiam, a fim de serem candidatos a prefeitos de capitais. Dessa forma, ela não se desgasta e fica livre para fazer mudanças, além daquelas impostas por denúncias de corrupção, como vem ocorrendo. Dilma toma decisões mais contundentes. O ex-presidente Lula “empurrava as decisões com a barriga”. Dilma é muito mais ágil, até para a troca de ministros. O Lula, por sua vez, ficava esperando um tempão, deixava abaixar a poeira, como quem pensa: “Ah! Vamos ver no que é que dá!”, deixando a natureza agir – a natureza humana e a natureza dos políticos.

Os dois diferem também no discurso?
Com certeza. O Lula prometeu, quando ainda era candidato e depois quando assumiu a Presidência, fazer reformas sindicais, acabar com o imposto sindical e tal e coisa. E não fez. A Dilma, por ser mais dura, é mais direta, mais objetiva. Aliás, esse assunto das reformas volta à baila novamente. Vamos ver.

É possível fazer algum prognóstico para o futuro político do país?
Esse cenário vai depender de vários fatores. Vai depender dessas manifestações atuais contra a corrupção. Vai depender da forma como a crise mundial cresce, da mobilização dos partidos políticos em relação às eleições municipais, isso só para citar alguns fatores. Mas, creio que, de fato, nós vamos ficar na mesma situação, no geral, enquanto o cidadão comum, o eleitor e contribuinte não entender que ele é o dono do país, o patrão, que ele é quem manda. Enquanto não houver um eleitor consciente, o Brasil vai ficar cada vez pior. Vamos conviver ainda muito com essas crises morais, de corrupção, assistindo ao crescimento dos índices de homicídio porque vem a ideia de impunidade. As próprias pessoas não cuidam da lei. Elas falam dos políticos, mas não são diferentes. Vejo o sujeito que atravessa na faixa de pedestre com o sinal fechado para ele. Esse cara não é diferente de um político corrupto não, ele também é um infrator da lei. É o mesmo com os “caras” que sonegam, que compram produtos piratas, que deixam o paletó na cadeira da repartição pública e vão fazer outra coisa, que mentem para o patrão para sonegar hora-extra. Estes fazem o mesmo que os políticos. Se não mudar esse espírito nacional, não vai mudar nada neste país. Mas, infelizmente, esse é o nosso espírito. Há uma enorme crise de honestidade neste país. Mas é cultural.

Ainda sobre o governo federal: a presidente tem conseguido manter a base no Congresso?
Tem conseguido, sim, mas fazendo concessões, embora isso certamente não agrade ao temperamento da presidente. Mas, por várias vezes, ela precisou fazer concessões de nomeações para conseguir manter os votos necessários do Congresso para aprovar alguns projetos do governo. Como, por exemplo, em junho, quando a presidente Dilma decidiu prorrogar por 90 dias, conforme pedido da base aliada no Congresso, a data de vencimento do pagamento dos chamados restos a pagar, que são aqueles recursos federais oriundos de emendas parlamentares ainda não repassados a Estados e municípios, referentes ao orçamento de 2009. No mesmo mês, a presidente decidiu pressionar o Senado para que fosse feita uma mudança no projeto que trata do acesso a informações públicas para manter a possibilidade de sigilo eterno para documentos oficiais. A ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, chegou a dizer que o governo se posicionaria daquela forma para atender a uma reivindicação dos ex-presidentes Fernando Collor (PTB-AL) e José Sarney (PMDB-AP), integrantes da base governista.

O governo Dilma está agindo corretamente no que diz respeito à crise econômica mundial?
Está agindo no que acha que é o melhor possível, mas não tem ninguém, nem mesmo os europeus, que sabe qual a forma correta de agir em relação à crise. O mesmo acontece com o Brasil. O Banco Central, principalmente como órgão responsável pela estabilidade da moeda, está fazendo apostas, mais juros, menos juros, para ver o que acontece. Dilma tem criticado a posição do Fundo Monetário Internacional (FMI) na condução da crise econômica de forma dura. Ela cita a influência da entidade nas políticas econômicas no Brasil nas duas últimas décadas. Mas ela é dura mesmo. Só é bom lembrar que um bom Banco Central é aquele que tem autonomia sobre o governo.

A crise pode interferir na continuidade do governo do PT à frente do Brasil?
Só se essa crise se refletir no estômago das pessoas. Se não, não acontece nada. Quantas pessoas elas arregimentaram? Juntando todos esses eventos no Brasil, não dá para atingir nem sequer o público de um show, por exemplo, do padre Marcelo Rossi em São Paulo. Ficamos muito tristes. Muito mesmo.

Por essas e por outras, fala-se que não se faz justiça no Brasil. Como você vê isso? Essa constatação é verdadeira?
É isso mesmo. A Justiça é solta não é porque quer, é porque a lei aqui protege bandido e dá as costas para a vítima. O ex-ministro Nelson Jobim, que foi presidente do Supremo Tribunal e verdadeiro relator da Constituinte em 1988, me disse certa vez que isso ocorre por causa da “síndrome do preso político”, ou seja, criaram um monte de direitos para quem está preso (ou é ameaçado de prisão) pensando que haveria presos políticos. O que é uma bobagem. Então, deram mil direitos para o criminoso e nenhum para a vítima. Veja, por exemplo, o casal Garotinho no Rio de Janeiro [em setembro, a 100ª Zona Eleitoral de Campos determinou a cassação dos diplomas da prefeita Rosinha Garotinho e de seu marido, o deputado federal Anthony Garotinho. Ambos foram condenados em processo por abuso de poder econômico e considerados inelegíveis por três anos]. Rosinha disse que não iria sair e pronto. Mas ela faz isso porque sabe como funcionam as coisas no Brasil. É só ir “empurrando com a barriga”. Dá uma certa desesperança. A reforma mais urgente é a da educação. Não se ensinam às crianças, por exemplo, a questão da cidadania, os direitos e deveres do cidadão brasileiro. As questões do meio ambiente e da homofobia são blá,blá,blá, para conquistar aplausos, passeatas. A verdadeira questão é que há uma crise de honestidade.

A educação é a única saída?
Olha, li um texto recentemente da escritora Lya Luft no qual ela diz que é difícil confiar num processo educativo em que professores são agredidos por alunos, os ídolos da meninada cantam drogados, o Judiciário é minado por corrupção e por aí vai. Escrevi um artigo citando números recentes segundo os quais a média de repetência nacional é de 12,5% no ensino médio. A última avaliação do desempenho dos alunos até o fim do 3º ano, com seis mil alunos de até oito anos mostrou outra triste realidade da educação brasileira: 44% não conseguem ler e 57% não sabem somar ou diminuir. É a mediocridade se alastrando.

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