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terça-feira, 19 outubro, 2021

A Universidade e os paradoxos das culturas digitais

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A universidade é um espaço público que ainda resiste, de deliberação e participação política, de comunicação clara, aberta e plural

Não é incomum encontrar entre comentários calorosos nas mídias sociais os seguintes questionamentos:

“Por que a Universidade não pode “economizar” dinheiro público e realizar uma transformação digital completa? Aulas online funcionam tão bem!”

A Universidade Federal é pública, gratuita e de qualidade, mas infelizmente ainda não é de acesso direto a todos. Embora grande parte da sociedade ainda não tenha a oportunidade de ingressar na Universidade, certamente ela tem um fundamental papel que impacta diretamente na vida de todos os cidadãos. Por isso precisamos desconstruir os estereótipos e discursos que desqualificam, de forma rasa, a complexidade da instituição.

Imagine um cenário distópico em que a gente destrua os parques ecológicos, os zoológicos, os museus e as praias. Imagine o fim das festas e as reuniões presenciais da família, sem as discussões e risadas, sem os aromas da ceia e a temperatura dos abraços. Imagine que nas férias a gente passe a frequentar apenas os ambientes on-line por meio de capacetes de realidade virtual. Imagine a substituição dos centros comunitários e os templos religiosos, uma vez que a comunicação pode funcionar em ambiências digitais…a partir de agora as congregações serão on-line? Funciona tão bem com o trabalho, não é? O mesmo acontecerá com as cerimônias de casamento, batizado, aniversários e carnaval? Cinema também pode ser substituído pela experiência compartilhada de um Netflix com a galera conectada?

A Universidade, como o próprio nome já diz, não se trata de um lugar para aprender a disciplina específica. Não é um local para sentar na cadeira e anotar tudo o que o professor diz. É um Universo multi, pluri e transdisciplinar. Há diálogo entre filosofia, medicina, ciências agrárias, engenharias, direito… é o espaço público que ainda resiste, de deliberação e participação política, de comunicação clara, aberta e plural. Malgrado os preconceitos resultantes da ignorância social, alimentada pelo interesse político que visa desarticular qualquer espaço de pensamento crítico, a Universidade ainda existe. É um lugar de encontros humanos para pensar a extensão com a sociedade e a pesquisa que revisita a história, analisa o tempo presente e projeta o futuro.

A Universidade está nas cantinas, bibliotecas, empresas juniores, teatros, cinemas, cafés, centros de vivência e laboratórios de pesquisa. É um lugar onde circulam pessoas em congressos, seminários e grupos de discussão. Não é um espaço que substitui um chip de implante profissional em nome de um progresso positivista, repetido como um mantra por quem caiu na falácia da propaganda.

Obviamente que a Universidade faz o melhor que pode durante a pandemia, com o fim de proteger e conter o potencial viral. Cada vida já vale muito se a gente puder conter a propagação pandêmica desenfreada. Minhas aulas on-line têm funcionado em caráter emergencial da melhor forma possível, mas devo dizer que se trata apenas de aula com formação humana e profissional ainda de qualidade – em caráter emergencial – e está longe de substituir a experiência universitária. Quando (e se) tudo isso passar espero que as pessoas, mesmo as que infelizmente não estejam lá dentro, passem a defender a Universidade compreendendo que aula é diferente de currículo. O currículo é vivo e se estende para além de alunos, professores e técnicos administrativos. O currículo atravessa as famílias, o mercado de trabalho, os meios de comunicação, as políticas públicas e a própria história.

Cláudio Rabelo é professor de Publicidade e Propaganda na Ufes, pós-doutor em Estudos Culturais e autor do Livro “Faixa preta em publicidade e propaganda”

 

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