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domingo, 16 maio, 2021

A pandemia e um novo futuro para a cabotagem

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Foto – Divulgação/ArcelorMittal

Para impulsionar a cabotagem o Ministério da Infraestrutura lançou o programa de incentivo BR do Mar

Por Eduardo Zanotti

A despeito das inúmeras incertezas geradas pela pandemia, incluindo a falta de clareza sobre a duração da doença e os impactos que causará no caixa das empresas em médio e longo prazos, um fato é certo: mais do que nunca precisaremos aproveitar todas as potencialidades nacionais possíveis para alavancar a economia e retomar o desenvolvimento do país. Com uma extensão litorânea de cerca de 7,4 mil km e a maior parte da sua atividade econômica concentrada na região costeira (pelo menos 80% da população moram a até 200 km do litoral), nosso país tem subutilizado, ao longo dos anos, um de seus maiores potenciais: o transporte de carga via navegação entre portos.

A cabotagem, como é denominado esse modal, é responsável por apenas 11% desse transporte no Brasil. A maior parte das cargas (61%) são movimentadas por rodovias, gerando mais poluição e aumentando casos de acidentes e de roubos de cargas nas estradas. Na tentativa de reverter esse cenário e impulsionar a atividade, o Ministério da Infraestrutura lançou um programa de incentivo, o BR do Mar, que aguarda votação do Congresso. A expectativa é de que este programa torne este modal mais competitivo e utilizado. Exemplos bem-sucedidos não faltam para estimular os atores envolvidos nesse debate e aumentar a participação do modal na matriz do transporte brasileiro. Um deles já completa 17 anos de sucesso. Desde 2003, a ArcelorMittal Tubarão, em Serra (ES), tem transportado suas cargas por via marítima para a sua unidade em São Francisco do Sul (SC). Iniciado com cerca de 50 mil toneladas de aço, esse volume chegou a 1,8 milhão de toneladas em 2019, abastecendo não só a ArcelorMittal Vega, mas também clientes diversos na região Sul.

Mais recentemente, a ArcelorMittal também oficializou uma linha de cabotagem entre o estado catarinense e o município de Goiana, em Pernambuco, numa parceria com a Fiat Chrysler Automóveis (FCA), para quem fornece aços planos. Os testes começaram em 2018 e se consolidaram em 2019, quando o transporte do aço migrou completamente do modal rodoviário para o hidroviário.

Até então, as bobinas de aço produzidas pela ArcelorMittal Vega seguiam em caminhões para Goiana, em um percurso de mais de 3,2 mil km. Para atender à demanda média por aço da fábrica da Jeep (cinco mil toneladas mensais), eram necessários 122 caminhões. Devido à volatilidade do preço do frete e ao risco de eventuais interrupções do transporte por caminhões, as empresas começaram, então, a buscar alternativa ao modal rodoviário. Estudos de custo mostraram a viabilidade da migração para a cabotagem. Os testes também revelaram que a modalidade marítima reduziria o custo logístico e traria, ainda, ganhos para o meio ambiente, reduzindo a emissão de CO² em 3,6 mil toneladas/ano. Com a cabotagem, a operação passou a acontecer entre os portos de Itajaí, próximo a São Francisco do Sul, e de Suape, em Recife, que atendem a Goiana. Além de Pernambuco e Espírito Santo, a ArcelorMittal também tem outros fluxos semelhantes a partir de Santa Catarina para Amazonas e Maranhão.

Somente da unidade capixaba, 60% da expedição de bobinas a quente voltada para o mercado doméstico (cerca de 1,8 M ton/ano) são transportadas dessa forma. Considerando que um caminhão tem capacidade de transportar 27t, podendo chegar a 50t nos casos de bi-trem, pode-se estimar uma redução de até 40 mil caminhões/ano nas estradas (base média: 45t caminhão), apenas com produtos de Tubarão.

Como se vê, vantagens não faltam a esse modal. Infelizmente, o Brasil está longe de atingir todas as suas potencialidades. Estratégica para o país e a sua economia, a cabotagem demanda e merece novos investimentos que o ajudem a superar obstáculos como restrições de rotas, pouca integração com outros modais e burocracia. Estimular a cabotagem significa ter menos caminhões nas estradas, menos ocorrência de roubos de cargas, menos emissões carbônicas. Em resumo: ajuda a proteger vidas e a preservar o meio ambiente. Essas, por si só, já são razões suficientes para incentivarmos esse importante setor.

Eduardo Zanotti é Vice-presidente Comercial da ArcelorMittal para o segmento de Aços Planos América do Sul

ES Brasil Digital

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