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quarta-feira, 27 outubro, 2021

A outra Bete Rodrigues

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Ela deixa a saudade e não somente seu registro na história da profissão, mas os frutos gerados desse legado

Por Cláudio Rabelo

Eu estou há uma semana tentando escrever um texto sobre a Bete. Mas tudo o que registro, apago. Parece pouco, parece piegas, reducionista ou até mesmo exagerado. Essa semana vi centenas de homenagens nas mídias sociais, falando sobre seu profissionalismo. Eu era fã da Bete Rodrigues. E me considero amigo, embora tenha me encontrado com ela em apenas quatro situações. Pode soar estúpido considerar uma conexão social decorrente de quatro encontros como uma amizade.

Pareço aquela pessoa bem recebida no camarim do astro de rock, que por tal motivo já passa a se considerar íntima. Acho que as redes sociais ajudaram a ampliar esse sentido de conexão. Mas, de fato, essa pessoa mitologicamente tratada como líder no ecossistema do marketing político sempre me tratou como uma anfitriã, de simpatia e cuidado singulares. Sinal de extrema humildade dela.

Todo mundo está cansado de saber que a estratégia figura entre meus assuntos favoritos, mas o que poucos sabem é que nada me fascina mais do que a proteção materna ou paterna. Desde que me tornei pai, há seis anos, o sentido do real se transformou, dissolvendo o simulacro das coisas irrelevantes e efêmeras da modernidade líquida.

A minha vida se encheu de luz, insegurança (e porto seguro), amor, expectativa, sentido (e falta de sentido), responsabilidade, cuidado e atenção. Passei a entender mais ainda e reconhecer com extremo agradecimento e amor, tudo o que os meus pais fizeram e ainda fazem por mim e aos meus irmãos.

Pais são artesãos da alma. A paternidade faz virar a chavinha no cérebro, bagunça os neurotransmissores, ressignifica o sentido do universo e faz todo o resto parecer pouco. Eu, por exemplo, já me considerei um workaholic (aquele cara viciado em trabalho e carreira). Acreditava que o propósito da vida tinha foco no labor e desenvolvimento de skills. Besteira! Minha filha preencheu quase todo o sentido da minha existência. O resto teve que se adaptar e aceitar esse fato.

Por que eu estou dizendo isso?

Conheci a Bete justamente por causa do seu filho, Pedro Roque. O filho que ela acolheu como uma leoa aos 9 anos de idade. Pedro era meu aluno de Comunicação Social e com o tempo se tornou um grande amigo. Por isso eu digo que é muito óbvio reconhecer a Bete pela incomparável e única carreira, mas eu admirava principalmente o carinho que ela tinha com o Pedro. Era curioso ver a sua imponência, construída na mitologia de sua marca pessoal, derreter como uma manteiga, de forma quase desconcertante com a chegada do seu filho no ambiente profissional.

Se não falha a minha memória, tivemos nossa primeira reunião justamente porque ela se preocupava com o futuro do rapaz, que ainda não havia se formado. Queria uma ajuda pra gerir a agência que ela pensava um dia deixar sob os cuidados do filho. Nada disso foi necessário. A convivência com a Bete foi a melhor formação pessoal e humana para ele. Muito melhor do que qualquer aula que ele teve na faculdade comigo ou qualquer outro professor.

Ele se tornou um estrategista profissional de primeira linha. Aprendeu, com a melhor, que a campanha publicitária deve ter alma. E é por isso que carregava o apelido de Bruxa do Marketing Político. Ela conseguia ver a alma, o sentido holístico e a integração transdisciplinar onde as pessoas comuns só conseguem ver a materialidade. Ela deixa a saudade e não somente seu registro na história da profissão, mas os frutos gerados desse legado.

Considero o Espírito Santo um território privilegiado em relação ao restante do Brasil. É bastante provável que o resultado de suas campanhas vitoriosas tenha nos ajudado, de certa forma, a viver em um estado que se destaca nacionalmente pela qualidade de vida. Agora ela olha por nós, aqui no Espírito Santo, lá de cima, com Espírito Santo.

Cláudio Rabelo é professor de Publicidade e Propaganda na Ufes, pós-doutor em Estudos Culturais e autor do Livro “Faixa preta em publicidade e propaganda”

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