Afinal, a década acabou em 2019 ou não?

Tradicional polêmica sobre calendário está aquecida nas redes sociais

Uma antiga discussão acerca do calendário ocidental persiste. Seria 2020 a inauguração da década? Estaríamos entrando na década de 2020 do século 21? Tema polêmico para historiadores e pesquisadores. Há uma grande maioria que garante que, formalmente, a década só começará no próximo ano.

A explicação se baseia no fato de que no calendário cristão não houve o ano zero.
Ele teve início já no ano 1 depois de Cristo. Assim como no século 21 não começou em 2000, mas em 2001, as décadas só começam no ano 1 de cada uma delas. Meramente uma questão de convenção.

No caso da mudança de décadas, são formalmente utilizadas a numeração do calendário cristão e a virada do ano 1. Na história cristã, o calendário foi dividido entre antes
e depois de Cristo, e não foi convencionada a figura do ano zero. Assim, tradicionalmente, a década só começaria em 2021.

A dúvida ainda persiste: afinal, a década acabou ou não? Nas redes sociais o debate está aquecido ainda. Tem quem assegure que sim e quem garanta que não, que o fim da década só ocorrerá quando 2020 acabar. No final das contas, a resposta para essa interessante polêmica é: “depende”. E tem a ver com a existência e utilização (ou não) do numeral zero.

Conta a história que um monge, religioso e erudito da Europa Oriental, Dionísio Exíguo (470-544), que trabalhou em Roma durante boa parte de sua carreira, foi o responsável por estabelecer o sistema de contagem de anos a partir do nascimento de Cristo (inicialmente para calcular a data da Páscoa, principal festa religiosa cristã), e não para estabelecer a época de eventos históricos.

Dionísio definiu em seu sistema o anno Domini, (“no ano do Senhor”, em latim),
o nascimento de Jesus, como o ano 1, e não o “ano zero”. Isso significa que uma década depois do ano 1 só ficaria completa no ano 11; um século inteiro, por conseguinte, só teria transcorrido no ano 101, e assim por diante.

O uso do zero, como conhecemos hoje, foi desenvolvido gradualmente por matemáticos da Índia, alguns dos quais ativos durante a vida do monge Dionísio Exíguo.

O contato entre o islã e a matemática indiana fez com que o conhecimento sobre o tema fosse adotado e transmitido pelos árabes durante a Idade Média, finalmente chegando à Europa por volta do século 11. É por isso que os números que usamos são conhecidos como arábicos.

Séculos mais tarde, pioneiros da astronomia como o alemão Johannes Kepler (1571-1630) formularam contagens de anos que também tomavam o nascimento de Jesus Cristo como ponto de partida, mas consideravam como “ano zero”, e não ano 1.

No Brasil, assim como na maior parte do mundo ocidental, seguimos o calendário gregoriano, promulgado pelo Papa Gregório XIII em 1582. O calendário gregoriano
se inicia com o ano 1, sem “ano zero”. Quando este primeiro ano tem fim, inicia-se o segundo ano, contando como ano 2.

Seguindo esse raciocínio, as décadas têm início no início dos anos 1 e terminam no fim dos anos 10.

Concluímos, dentro deste raciocínio, que estamos na década que teve início no começo de 2011 e terminará no final de 2020. Essa mesma lógica é seguida na contagem dos séculos e milênios. O século 21 começou no início do ano 2001, o século 20 foi do início de 1901 ao fim de 2000, e assim por diante.


Manoel Goes Neto é presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Vila Velha (IHGVV) e diretor no Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo (IHGES)