Uma montanha de problemas e oportunidades

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Cresce a produção de lixo eletrônico no mundo e a dúvida de como descartar os produtos pode virar uma chance de ganhar dinheiro

O cenário de lixões repletos de entulhos, de materiais orgânicos a sucatas diversas, ganhou a companhia do chamado lixo eletrônico. Em menos de 30 anos, houve um aumento considerável de televisores, computadores, celulares, dentre outros equipamentos tecnológicos, que são jogados fora diariamente e cujo descarte ainda gera uma série de dúvidas.

Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) mostram que, anualmente, são produzidas cerca de 50 milhões de toneladas de lixo eletrônico em todo o mundo. O drama de realizar o descarte afeta diferentes cenários locais, como no Espírito Santo. Diariamente, no Estado, vão parar na lata do lixo 3.500 celulares, de acordo com informações da empresa Pitzi, especializada no conserto de smartphones.

Saber o que fazer com todo esse material não é tarefa fácil, uma vez que podem conter elementos tóxicos e levar a um processo mais complexo de reaproveitamento. Diante de um horizonte de celulares, gadgets e eletrônicos que se deterioram, há um grande problema, principalmente relacionado ao meio ambiente, mas há, também, uma oportunidade para ganhar dinheiro e transformar esses itens em novos produtos.

Existem empresas que cobram a partir de R$ 1,00 para receber o quilo de material de lixo eletrônico. Já para rastrear e destruir arquivos, o valor ultrapassa os R$ 3,00 por quilo desse material.

O presidente do Sindicato das Empresas de Reciclagem do Espírito Santo (Sinrecicle), Romário Corrêa de Araújo, aponta que o negócio pode se transformar em uma mina de ouro. “Resíduo, como um todo, é uma mina de ouro, que depende do tipo de garimpeiro para acertar o que deve ser feito”.

Romário Corrêa de Araújo – Foto: Arquivo / Next Editorial

Araújo revelou que no Brasil não há uma grande quantidade de empresas que conseguem recuperar e dar maior valor agregado aos materiais coletados. Porém, já segregam itens como ouro e prata – considerados nobres e de uso variável na indústria –, que são enviados para mercados no exterior. “Há diversos contêineres que saem do Estado em direção à China, com o que foi coletado e selecionado”, frisou.

Bons exemplos já existem entre as empresas associadas ao Sindicato das Empresas de Informática no Estado do Espírito Santo (Sindinfo). Muitas delas já adotam soluções, normativas e políticas que visam segregar o lixo eletrônico e prezar pela sustentabilidade. Uma dessas empresas é a Mogai Tecnologia de Informação.

A Mogai adota a chamada Política SMS. Trata-se de um complexo de decisões que incluem evitar o desperdício e promover a limpeza, inclusive relacionada a equipamentos eletrônicos. Assim, funcionários são instruídos a aumentar a sustentabilidade das operações da empresa, separando o lixo para reciclagem, e também a reduzir o impacto ambiental, com coleta de materiais nocivos e não recicláveis, como pilhas e equipamentos eletrônicos ultrapassados ou quebrados. Dessa forma, o trabalho com o reaproveitamento do lixo eletrônico é reforçado.

A cadeia de reciclagem no Espírito Santo envolve cerca de mil empresas, passando por fornecedores a associações de catadores e ferros-velhos, de acordo com estimativa do Sinrecicle. A maioria delas vem tentando se adequar a como melhorar a coleta e promover o reaproveitamento de materiais eletrônicos que são descartados por pessoas jurídicas (fábricas, por exemplo) e físicas.

Logística reversa

Um brasileiro produz ao ano uma quantidade de sete quilos de lixo eletrônico – o que é equivalente a sete sacos de feijão de 1 kg. Pensando neste prognóstico, empreendedores vêm pedindo o quanto antes que haja o acordo de logística reversa com o governo federal.

A iniciativa de logística reversa visa garantir o retorno dos resíduos (aquilo que tem valor econômico e pode ser reciclado ou reutilizado) à indústria, para reaproveitamento, em seu ciclo ou em outros ciclos produtivos.

Recentemente, foi firmado um termo que engloba embalagens em geral e lâmpadas fluorescentes. No entanto, empresários e especialistas ainda consideram omissas as atitudes da União em relação ao restante do lixo eletrônico.

“Poucas são as empresas no País e no Espírito Santo que adotam a logística reversa. Algumas fazem isso por questão de regimento interno ou, então, para conseguirem classificações de ISO”, frisou o presidente do Sinrecicle.

O presidente do sindicato avisou que é preciso ter uma sinergia para que haja um melhor destino final e adequado para pilhas, eletrônicos e outros componentes.

“Em cada elo dessa cadeia precisamos fazer algumas coisas. No caso dos geradores, é preciso que as pessoas físicas ou jurídicas tenham a visão e o entendimento de como fazer o descarte dos resíduos. Já com os catadores, deve haver a capacitação para poder fazer frente ao resíduo enorme que vai vir. É um elo que, definitivamente, precisa se adequar. Muitos dos recicladores têm empresas que patinam, muito por conta da situação tributária. Além disso, é preciso modernizar esse parque”, contou o presidente, que emendou:

“Resumo da história: é dar condições para esse povo trabalhar. E a única solução é participar de uma cadeia produtiva que seja sustentável, com financiamentos interessantes e incentivos, como o do ICMS de energia elétrica”, avaliou Araújo.

Trabalho

O fundador da Wage Sistemas e Automação, Luciano Costa, sabe bem do trabalho que tinha para lidar com o lixo eletrônico.
Durante 15 anos, a empresa localizada em Guarapari lidou com o ofício de manutenção em geral, o que, consequentemente, fazia com que ele convivesse com hardware. E havia um grande acúmulo de peças.

“Deixamos de fazer manutenção de equipamentos no ano passado. E o processo era bem problemático. Não tínhamos para onde descartar. No caso das baterias, descartávamos com revendas de autopeças.
É fato: você não pode jogar esse tipo de material, como baterias e pilhas, no lixo. Duas vezes ao ano, enchíamos uma caminhonete só com lixo eletrônico e enviávamos a um ferro-velho. Durante 15 anos isso esteve na nossa rotina”, revelou Costa.

O empresário de Guarapari contou que o entendimento do que deveria ser feito com os itens descartados foi mudando, ao longo dos anos.

“Entre a década de 1990 e os anos 2000, ninguém entendia o que podia ser feito com aquilo. Nem recicladores e catadores sabiam como proceder. Mais tarde, já em 2011, a gente ia levar e alguns profissionais diziam que não valia a pena receber aquele material”, aponta o fundador da Wage Sistemas e Automação.

Costa citou que para conseguir dar valor agregado ao lixo eletrônico é necessário tomar algumas providências, como, por exemplo, investir em capacitações e em infraestrutura.

“Se o empresário recebe esse tipo de material e tem bons profissionais, consegue ter, sim, um rendimento com todos aqueles itens. Tem de ter ainda uma estrutura muito grande. Outro fato que deve haver atenção é relacionado ao conserto, já que houve uma redução de reparos em equipamentos eletrônicos. Consumidores preferem comprar novos produtos. Cada vez mais, nos grandes centros, isso (de reaproveitar o lixo eletrônico) pode se tornar um negócio bastante rentável”, avaliou o empresário, que depois de atuar no segmento de manutenção, passou a oferecer soluções de software para diversos setores de negócios.

Embora a Wage Sistemas e Automação tenha deixado de lado esse tipo de trabalho, o Sinrecicle aponta que há ainda uma série de empresas que vêm se fortalecendo com o descarte e renovação dos itens que foram parar na lata de lixo.

O sindicato, em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) no Espírito Santo está fazendo um mapa no Estado dos empreendedores que buscam o que fazer com esse material e como melhor proceder nos negócios.

A matéria acima é uma republicação da  edição nº 08 da Revista TI. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.

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